domingo, 13 de agosto de 2017

E o carro elétrico não nos libertará…

Para tentar salvar um modelo falido, indústria automobilística sugere que modelos elétricos pouparão o planeta. Por que a saída é ilusória. Quais as opções efetivas
Por George Monbiot | Tradução: Inês Castilho

Dizemos a nós mesmos que apreciamos a eficiência. Mas criamos um sistema de transporte cujo princípio é o desperdício. Carrocerias de metal (que aumentam a cada ano), cada uma carregando uma ou duas pessoas, viajam em paralelo para os mesmos lugares. Caminhões carregando mercadorias idênticas em direções opostas passam uns pelos outros em viagens de mais de 3 mil quilômetros. Empresas concorrentes cruzam as mesmas rotas de encomendas, em vans em grande parte vazias. Poderíamos, talvez, reduzir nosso movimento de veículos em 90% sem prejuízo do serviço, e com um grande ganho em nossa qualidade de vida.
Mas contestar essa forma peculiar de insanidade é, como sinto na pele, ser considerado insano. Veja como a publicidade está dominada pelas empresas que fabricam carros, e você começa a entender o impulso para assegurar que esse sistema ilógico persista. Olhe para o poder de lobby da indústria automobilística e seu apoio na mídia, e você vê por que vários planos para enfrentar a poluição parecem destinados a fracassar.
Sugira um sistema mais simples, e você será calado por pessoas insistindo que não querem viver numa economia planificada. Mas nesse aspecto (e outros) nós já vivemos numa economia planificada. Hoje os planejadores fazem algumas pequenas cocessões para ciclistas, pedestres e carros, mas seu objetivo primordial é maximizar o fluxo de veículos privados. Ao invés de encorajar o uso mais eficiente da infraestrutura existente, eles continuam aumentando o espaço de que a ineficiência precisa para expandir-se.
A Grã-Bretanha é um exemplo. O novo programa do governo para a poluição avisa que suas próprias ações serão limitadas, “pois precisamos manter disciplina das despesas publicas”. Mas sustenta o que o Departamento de Transportes exibe como o “maior modernização de rodovias em uma geração”. Lançado em 2014, no ápice do programa de “austeridade” de David Camero, esse plano prometia “triplicar os gastos até o final da década”, com 15 bilhões de libras [mais de 60 bilhões de reais] para um projeto de mais de cem novas estradas.
Novas rodovias não resolvem congestionamentos de trânsito. Elas o exacerbam. Ao aumentar o fluxo em algumas partes da rede, geram gargalos em outras. Os governos então tentam contornar o gargalo criando um ainda pior ao longo do sistema. Não importa quantas vezes e quão poderosamente se demonstre que mais estradas resultam em mais trânsito (as primeiras descobertas foram publicadas em 1937): o programa persiste.
Nenhuma solução para os vários problemas causados por esse caos planejado pode ser executada, já que a eficiência seria injuriosa para certos interesses. O sucesso é medido pelos quilômetros viajados, ao invés de necessidades atendidas. É como medir a saúde da população pelo volume dos medicamentos que ela consome.
Nenhum sacrifício em vidas, terras ou ouro é suficiente para satisfazer o deus de metal. Uma nova crise de dívidas, envolvendo agora carros ao invés de casas, ameaça ajudar a catalisar outra catástrofe, já que os planos pessoais de financiamento sob os quais a maioria dos automóveis são hoje comprados sobrecarregam algumas famílias com débitos impossíveis.
Mas, de novo, apesar disso os governos evita a todo custo questões fundamentais sobre por que e como usamos o transporte, e se poderíamos melhorá-lo. A Grã-Bretanha propôs a mais limitada de todas as respostas possíveis, diante da decisão do Tribunal Superior que obriga o governo a tomar medidas com relação às emissões de dióxido de nitrogênio (NO²).
As autoridades locais terão permissão de introduzir “zonas de ar limpo” [nas quais se bloqueia a circulação de veículos] – de longe a medida mais efetiva e de melhor eficiência por custo – apenas quando outras opções (em sua maioria, inúteis) forem esgotadas. A eficiência deve ser desencorajada em todos os casos. Assim que a “conformidade com a lei for alcançada”, essas zonas devem ser extintas.
Conformidade com a lei não é a mesma coisa que segurança pública, especialmente se está baseada em medidas limitadas. O dióxido de nitrogênio é apenas um componente da poluição. Outro são as partículas, às quais, de acordo com o documento do governo, “não  há nível seguro de exposição conhecido”. O governo não deveria fazer de tudo para resolver o assalto aos nossos corpos — em vez de o mínimo requerido para evitar outra derrota na Justiça?
Mas não tenha medo: lá por 2040, os novos veículos a diesel ou petróleo serão vendidos no Reino Unido. Esse, aparentemente, é o cronograma apropriado para responder ao que um comitê parlamentar denomina “emergência de saúde pública”. Uma criança nascida hoje terá 23 anos quando essa política for implantada. Então os danos ao desenvolvimento de seus pulmões e cérebro já terão sido feitos. E a mudança vai acontecer de qualquer modo, sem a ajuda do governo. A Volvo anunciou que venderá apenas carros elétricos ou híbridos-elétricos de 2019 em diante. O banco holandês ING prevê que todos os novos carros na Europa serão elétricos em 2035. Que não se acuse esse governo de ambição…
Mesmo que essa política fosse implantada mais rapidamente, ela procura garantir que nada mais mude em nosso extravagante sistema. Os carros elétricos resolvem apenas parte do problema. Eles poluem menos o ar, mas ocupam o mesmo volume de rodovias e de espaço para estacionamento. Os recursos para fabricá-los – e o volume de minas e portos e montadoras que destroem habitats preciosos em todo o mundo – podem até mesmo aumentar. Embora o total de emissões de carbono e poluição do ar causadas pelos carros elétricos seja mais baixo do que o gerado pelo sistema fóssil, o uso da eletricidade terá de crescer. Se você está entre aqueles que apoiam carros elétricos mas se opõem a usinas nucleares, pode ter de reconsiderar uma de suas posições.
Que tal tentar explorar algumas soluções para a poluição que mudem esse sistema ridículo, em vez de prolongá-lo indefinidamente? Por que não trocar o espaço destinado aos carros nas ruas por ciclovias seguras, para fazer da bicicleta uma forma relevante de transporte urbano? Por que não lançar um esquema de desmonte que troque carros por bônus para usar transporte público? Por que não implementar planos engenhosos, propostos por economistas como Alan Storkey,  para um serviço de ônibus interurbanos modernos, que é tão rápido e conveniente como o transporte privado, mas usa uma fração do espaço viário?
Em muitos setores, considera-se que houve progresso quando há redução do volume de um sistema, ao mesmo tempo em que se amplia seus serviços. Por que o mesmo princípio não se aplica ao transporte?

Brasil, país ainda insalubre


Quase metade dos brasileiros continua sem rede de esgotos, e 20% não têm água em casa. Não seria difícil atendê-los — mas os investimentos estancam e, pior, fala-se em privatização
Por Washington Novaes, na Envolverde

A cada vez que se divulgam números sobre os serviços de saneamento urbano no País, crescem as preocupações. Agora, as informações são (Estado de São Paulo, 10/7) de que quase metade da população nacional não é atendida pela rede de esgotos – ou seja, perto de 100 milhões de pessoas – e quase 20%, perto de 40 milhões, não tem fornecimento de água nos domicílios. Para completar, mais de um terço de toda a água distribuída se perde no meio do caminho. E a causa de todos os problemas é a falta de investimentos.
Tudo se complica ainda mais quando se é informado de que para universalizar até 2033 (daqui a 15 anos) os serviços de saneamento básico o País terá – ou teria – de investir mais de R$ 20 bilhões por ano. Mas entre 2010 e 2015 o investimento médio foi de R$ 11 milhões por ano, pouco mais de metade do necessário. Sem falar em redução ou eliminação das perdas. E para dificultar ainda mais as soluções, hoje boa parte do sistema é administrada por empresas dos Estados, em situação financeira difícil, com patrimônio líquido negativo, dívidas altas, problemas trabalhistas e serviços de má qualidade. Com isso, há dois anos o atendimento urbano de água só chegava a 83,3% do público total.
Entre 2014 e 2015 o investimento caiu até 27% – quando se sabe que cada R$ 1 investido em saneamento levará à economia de até R$ 4 no sistema de saúde. Mas o total investido em 2005, por exemplo, ficou entre R$ 5 bilhões e R$ 6 bilhões; mesmo em 2015 não passou de R$ 12,1 bilhões. Não se deve estranhar, assim, que em Rondônia só 2% da população urbana conte com coleta de esgotos; nada é tratado. Na Bahia, só 3,41% da população tem rede de coleta de esgotos; no Amapá, 3,71% . Onze Estados já contrataram estudos para a expansão, dez já assinaram contratos.
Há quem pense que pelo menos parte do problema poderá ser resolvida com a utilização de águas transpostas, por exemplo, do Rio São Francisco, que seriam utilizadas na irrigação de lavouras. João Suassuna, da Fundação Joaquim Nabuco, adverte, porém, que a expansão do agronegócio está exigindo mais irrigação, quando um pivô central pode consumir 2,6 metros cúbicos de água por hora; a captação de água diretamente nos aquíferos em geral envolve questões difíceis: entre 2015 e 2016 as disputas por água aumentaram 27%, segundo números da Comissão Pastoral da Terra (envolvendo 164 mil pessoas em 2007 ou 222 mil em 2016). As causas principais apontadas são a utilização da água como commodity, que leva a conflitos com grupos sociais que a encaram como bem essencial à vida.
Há ainda quem aponte efeitos negativos em processos de privatização de sistemas de água. E até casos de conflitos muito graves, em que se tornou necessária a retomada das instalações pelo poder público. Outros críticos lembram, por exemplo, que em 2015 o BNDES entrou com R$ 57 bilhões em subsídios para privatizações (Folha de S.Paulo, 9/7). Há quem proponha que os processos de privatização e concessão de subsídios sejam obrigatoriamente aprovados pelo Congresso Nacional. O tema foi um dos centrais no 47.º Congresso Nacional de Saneamento, em junho. Nele a Associação Nacional dos Serviços Municipais de Saneamento (Assemae) reafirmou seus “compromissos históricos” de luta contra a privatização do saneamento básico (boletim de 19 a 22 de junho), lembrando que “a sustentabilidade econômico-financeira dos serviços de saneamento básico não foi ainda alcançada em muitos municípios brasileiros”.
Nesse congresso se registrou ainda que o saneamento básico em áreas rurais também precisa ter prioridade nas políticas públicas de todos os municípios. E que a recuperação das nascentes, “já uma área prioritária em todo o mundo”, deve incluir “estratégias como o controle da erosão do solo e a minimização da contaminação química e biológica; para garantir a renovação das nascentes também é necessário o combate ao corte intensivo das florestas nativas, queimadas, pastoreio intensivo, mau planejamento na construção de estradas e loteamentos”.
O tema vai-se tornando cada vez mais candente com a gravidade da situação, exposta em relatórios oficiais, estudos universitários e outros. O senador José Serra, por exemplo, em artigo recente (22/6), reiterou que “a coleta de esgotos no País é de apenas 50% e apenas 43% dos esgotos coletados são tratados; na Região Norte essa proporção se reduz a 16%”. E acentuou: “A coleta de esgotos, seguida do seu tratamento, beneficia menos de um quarto da população brasileira”. Entre as consequências, indica: “Estimativas do Instituto Trata Brasil apontam que 340 mil internações anuais são causadas por infecções decorrentes da falta de saneamento básico. Entre as dez cidades brasileiras onde há menor cobertura, a média de internações é quatro vezes maior do que entre as dez cidades mais bem atendidas. Milhares de mortes ocorrem como consequência dessas enfermidades”.
Mesmo com tanta gravidade, a precariedade dos serviços básicos no Brasil está demonstrada pelos investimentos médios no setor, que correspondem a menos de dois terços das necessidades apontadas em estudos reconhecidos pelo poder público. A que se deveria isso? Há muitas respostas que atribuem a culpa à indiferença do poder público. E uma elas é do ex-ministro Delfim Netto (Folha de S.Paulo, 3/7): “O poder econômico controla o poder político no Brasil.”
Mas é preciso lembrar sempre um dos últimos relatórios da Organização Mundial da Saúde (Reuters, 7/3): “Ambientes poluídos e insalubres matam 1,7 milhão de crianças por ano, uma em cada quatro”, por causa de “riscos ambientais, poluição do ar e da água, falta de saneamento básico e de infraestrutura adequada de higiene”. A taxa de mortes no Brasil é de 41,38 crianças com menos de 5 anos por 100 mil habitantes, principalmente por falta de saneamento básico.
*Jornalista. e-mail: wlrnovaes@uol.com.br

(fonte: http://outras-palavras.net/outrasmidias/?p=494868)

Nossos partidos: ideológicos ou fisiológicos?

Por Jaime Pinsky, historiador e editor, doutor e livre docente da USP, professor titular da Unicamp.
No meio da confusão que tem caracterizado o parlamento brasileiro, da venda de votos em troca de verbas e de postos na administração pública, no meio do desapontamento das pessoas com relação à honestidade de políticos que se apresentavam como baluartes da ética, no meio de conluios vergonhosos alinhados secretamente, ou fechados de forma descarada e explícita, podemos ser levados a acreditar que nada é ideológico e tudo é fisiológico. Isso de fato acontece com um bom número de congressistas, com um grande número de partidos, mas não com todos. Há alguns que continuam fiéis aos seus ideais – e nem sempre isso é tão bom. De um lado, temos uma direita retrógrada, contrária a qualquer avanço social e comportamental, truculenta, homofóbica. Mas não é dela que quero falar hoje, e sim de partidos autodenominados de esquerda.
Temos, por exemplo, aqueles que não se conformaram com as mudanças ocorridas no mundo e levantam bandeiras já mofadas, superadas pela História. Afinal, ranços de stalinismo e maoísmo nos dias de hoje (quando a Rússia e a China já disseram adeus a esses ideais há muito tempo) , saudades de regimes assassinos, não podem recomendar grupelhos partidários inexpressivos em votos, mas barulhentos. É uma velha esquerda, no mau sentido da expressão. Essas correntes políticas participam do jogo democrático para destruí-lo, pois seu objetivo são as mudanças estruturais em ritmo acelerado, o rompimento radical da ordem institucional. O resultado de sua ascensão ao poder seria o partido único (pois a verdade para eles é única), o fim da liberdade de expressão (tanto da imprensa quanto do indivíduo), da propriedade privada dos bens de produção, o controle da atividade artística (Mao chegou a proibir a execução de músicas de Mozart, Stalin simplesmente mandou matar numerosos escritores). Os representantes desses arcaísmos em forma de partido clamam por democracia: democracia esta que seria imediatamente confiscada dos brasileiros caso esses partidos chegassem ao poder.
Temos os agrupamentos originários de sindicatos. Em algumas décadas a economia mundial mudou muito e hoje em dia tem mais gente ligada ao setor de serviços do que à produção de bens industrializados. Os avanços no sistema produtivo deslocaram a atividade sindical do chão de fábrica para os escritórios dos edifícios de empresas privadas e públicas. Os partidos de base sindical teriam  que mudar seu DNA, mas não tiveram muito sucesso nesse processo: mantiveram algumas características negativas do velho sindicalismo (dirigentes se eternizando no poder, verbas garantidas por lei, ligação promíscua com o Governo) e não se renovaram. E pior, quando no poder, praticaram “malfeitos” (na expressão delicada da ex-presidente Dilma) em nome da continuidade no poder, para defender o povo...
O diabo é que pouca gente pensa e age como uma esquerda moderna, voltada para avanços na área de comportamento, da representatividade real, de um sistema de impostos progressivo bem estruturado que não desestimule os investimentos produtivos, mas não puna os menos aquinhoados, de uma escola pública universal e de qualidade. O irônico é que poucos países (se é que houve algum) tiveram na presidência, como nós, durante oito anos um importante intelectual com convicções social democratas e durante outros oito um importante líder sindical de origem operária. Contudo, depois desses dezesseis anos, que deveriam ser de avanços importantes, continuamos com uma escola pública que reproduz as diferenças sociais em vez de aplainá-las. E é claro que não são os cursos superiores de má qualidade, desses que funcionam com taxímetro, que vão dar melhores condições aos jovens que não conseguem entrar em boas universidades. Depois desses dezesseis anos de governos supostamente progressistas, continuamos tratando o aborto como uma questão religiosa e não um problema de saúde. Continuamos burocráticos e ineficientes se comparados com países de primeiro mundo, mas também nossa ineficiência se manifesta se comparada com nações emergentes que, graças à desburocratização, a uma escola pública de qualidade e a avanços na área de comportamento, saíram lá atrás e rapidamente nos ultrapassaram.
E ainda tem gente no Congresso que lança manifestos de apoio a Maduro, o tirano que está infelicitando a Venezuela... Bem o PSOL, que até parecia um partido moderno de esquerda. Que desilusão! Pelo visto, de moderno ele só tem o Jean Wyllys.

“Recordes de temperatura? A culpa é do ser humano”: o relatório de 13 agências dos EUA sob risco de “censura” de Trump


O New York Times publicou o rascunho do documento, ainda à espera de que o governo o aprove. As conclusões são dramáticas: “Não se trata de ciclos naturais. A temperatura global está em seus níveis mais altos há 1500 anos”.

A reportagem é publicada por La Repubblica, 08-08-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.


As temperaturas médias nos Estados Unidos aumentaram dramaticamente nas últimas décadas, alcançando o seu maior nível há 1.500 anos. A afirmação é de um relatório federal preliminar, elaborado por 13 agências e ainda não aprovado pelo governo Trump.

“Os estadunidenses sentem agora os efeitos das mudanças climáticas”, afirma um relatório preparado por 13 agências, mas não aprovado pela administração do presidente Donald Trump. “Quanto o clima vai mudar no futuro – diz-se ainda – depende das emissões.”

Nota da IHU On-Line: confira aqui a íntegra do relatório confidencial, em inglês.

O New York Times obteve uma cópia confidencial do relatório, vazado pelos cientistas que temem que a Casa Branca possa silenciar as conclusões, claramente em contradição com as afirmações do presidente Trump e em contraste com a escolha de abandonar o Tratado da COP21 de Paris sobre as mudanças climáticas.

“As provas das mudanças climáticas são abundantes, do alto da atmosfera até as profundezas dos oceanos”, explica o rascunho. Trata-se de um relatório concluído este ano e que faz parte do National Climate Assessment pedido pelo Congresso a cada quatro anos.
Um dos mapas incluídos no relatório, que mostra que o aumento das temperaturas ocorre em cenários com uma concentração mais alta de gases do efeito estufa (Fonte: New York Times)
De acordo com esse documento, nos Estados Unidos, as consequências do aquecimento global já são evidentes. Para os cientistas, a elevação das temperaturas registrada nos últimos 60 anos deve-se à ação do ser humano.

De 1880 a 2015, as temperaturas aumentaram 1,6 graus Fahrenheit (ou 0,9 graus centígrados), e as causas devem ser consideradas relacionadas com o comportamento dos seres humanos. A partir de 1980, a situação precipitou ainda mais, com um dramático aumento das temperaturas, que levou ao clima mais quente dos últimos 1.500 anos.

Explica o relatório: “Há evidências que demonstram que as atividades humanas, especialmente as emissões de gases de efeito estufa, são as principais responsáveis pelas mudanças climáticas observadas na era industrial. Não há outras explicações alternativas, não se trata de ciclos naturais que possam explicar essas mudanças climáticas”.

O medo, porém, é em relação à continuação das pesquisas. De acordo com o New York Times, uma parte dos estudiosos que trabalharam no relatório acreditam que o governo Trump pode bloquear as pesquisas. Além dos já lembrados posicionamentos de Trump e da retirada da COP21, a administração escolheu como diretor da Epa, a Agência de Proteção Ambiental, Scott Pruitt, desde sempre cético em relação ao climate change.

E parece até que o Ministério da Agricultura pediu que seus funcionários não empreguem a expressão “mudanças climáticas”, mas prefiram outras locuções, como “situações meteorológicas extremas”.

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/570447-recordes-de-temperatura-a-culpa-e-do-ser-humano-o-relatorio-de-13-agencias-dos-eua-sob-risco-de-censura-de-trump)

A Samarco, a justiça brasileira e a nudez em praça pública


Até quando a Justiça será rápida em atender os criminosos e paralisada para garantir os direitos das vítimas? Até quando os acordos judiciais servirão apenas para dar mais poder a quem deveria estar preso?, indaga Thiago Alves, jornalista e militante do MAB, em artigo publicado por Movimento Atingidos por Barragens - MAB, 09-08-2017.
Segundo ele, está difícil de acreditar em martelos de juízes. O único martelo que está fazendo a diferença é o que simboliza a luta dos trabalhadores e atingidos e atingidas do campo e da cidade que devem permanecer reunidos e em luta, que é a única maneira de garantir os direitos e a intimidade ainda não devolvida.

Eis o artigo.
A semana começou com o noticiário nacional sendo surpreendido pela informação de que Jacques de Queirós Ferreira, juiz federal na mineira Ponte Nova, acatou o argumento da defesa dos dirigentes da Samarco Mineração S.A à época do rompimento da barragem de Fundão, em 5 novembro de 2015, e suspendeu o processo criminal referente à tragédia.
A decisão beneficiou, além do presidente atualmente afastado da Samarco, Ricardo Vescovi de Aragão, o diretor de Operações e Infraestrutura, Kleber Luiz de Mendonça Terra, três gerentes operacionais da empresa, 11 integrantes do Conselho de Administração da Samarco e cinco representantes das empresas Vale e BHP Billiton na governança da empresa que respondem na ação penal por dolo eventual.
O argumento utilizado pela defesa e acolhido pelo juiz federal é que as escutas telefônicas foram utilizadas de forma ilícita. Na decisão, Jacques argumenta que a Polícia Federal teria “desrespeitado a intimidade dos acusados” ao realizar os grampos. O Ministério Público Federal (MPF) nega ter usado o conteúdo apontado como ilícito.
Não adianta entrar pelo labirinto dos argumentos jurídicos. Como “torre de vigia” da classe dominante, o direito e o poder judiciário existem na sociedade de classes para garantir privilégios de quem detêm o poder, legitimar o discurso da dita “necessária ordem social” que, em tempos de Golpe de Estado e retirada de direitos, não passa de desordem imposta pela violência do Estado e das quadrilhas empresarias instaladas nele.
Este mesmo argumento foi utilizado para anular importantes investigações no país como as deflagradas pelas operações Castelo de Areia e Satiagraha, que já denunciavam o conluio e a corrupção historicamente conhecidas entre banqueiros, empreiteiros e políticos no Brasil.
Por claras razões políticas, as operações foram anuladas, delegados suspensos ou demitidos e juízes punidos ou processados. Alguns anos depois, começava a Operação Lava Jato investigando os mesmos crimes. Apesar de usar métodos parecidos e sendo acusada de várias irregularidades, a Lava jato continua sendo usada como instrumento político-partidário demostrando, claramente, como a “Justiça” atua com dois pesos e duas medidas.
Antes de argumentos, gostaria de convidar o juiz federal Jacques de Queirós para visitar as famílias atingidas. Dar um passeio nas cidades vizinhas à sua Ponte Nova. Pode vir por asfalto mesmo até Barra Longa, que já pertenceu ao seu município. Levo-o na casa da dona Geralda Maria Bento, uma idosa de 78 anos que está sem casa desde o rompimento. Junto com integrantes das 9 famílias do distrito de Gesteira, aguarda pelo reassentamento que as duas maiores mineradoras do mundo foram incapazes de sequer apresentar estudos decentes para a construção.
Ainda em Barra Longa posso apresentá-lo ao Riso, cuja casa ainda cheia de lama está cercada por tapumes para não “estragar” a reforma feita pela Samarco no centro da cidade. Exercendo o direito de mexer no próprio lar destruído, Riso está retirando por conta própria a lama deixada pela empresa. Ao fazer isto, leva os rejeitos novamente à praça. E a poeira e o mau cheiro voltam a perturbar os vizinhos atingidos.
Também podemos mostrá-lo o caso de Eva, moradora da beira do rio Carmo que teve sua casa completamente devastada. Foram meses até as obras de sua nova casa começarem, outros meses de avaliação do andamento e já são mais meses de paralisação total. Ela não sabe quando volta com o marido, a filha e neta para onde moravam. Com grave problema nas pernas, olha através da janela da casa alugada todo o movimento de trabalhadores e caminhões e se pergunta quando o trabalho de tanta gente vai devolver sua vida.
O juiz pode vir em carro oficial do poder judiciário, já que estaria vistoriando a cena do crime para entender melhor o caso e ter condições de julgar com mais tranquilidade. Daria para visitar muitas pessoas em Barra Longa e Mariana que estão sem casa e cuja lista não cabe neste texto.
Moram de aluguel em casas que não gostam, que não tem espaço para os filhos e netos, sem quintal ou lugar para plantar, que a cozinha é pequena, que tem escadas, etc. E muitos destes ainda são obrigados a sofrer com os preconceitos existentes em uma sociedade atrasada e ignorante, que é manipulada para o interesse das empresas criminosas.
Se vamos falar de intimidade, falemos primeiramente destas pessoas. Todos estes atingidos e suas famílias estão sem moradia há quase dois anos. E não há previsão para o retorno. Estão nus em praça pública. Alguém fora do seu lar, do seu espaço, da sua convivência originária, dos seus utensílios, muitos de profunda estimação, à mercê de um contrato de aluguel, do humor de proprietários, da boa vontade da Samarco em pagar em dia o que ela assumiu... estão nus, com a intimidade moral e psicológica exposta diante de quem quiser ver.
Quem vai responder por este crime? Até quando a Justiça será rápida em atender os criminosos e paralisada para garantir os direitos das vítimas? Até quando os acordos judiciais servirão apenas para dar mais poder a quem deveria estar preso? Como diz um atuante atingido de Barra Longa: “o Brasil está à deriva e jogaram o leme ao mar”. Em meio a este desalento e descrença, a única saída é a organização pela base e a luta de massas, como reafirma o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) em sua nota oficial.
Está difícil de acreditar em martelos de juízes. O único martelo que está fazendo a diferença é o que simboliza a luta dos trabalhadores e atingidos e atingidas do campo e da cidade que devem permanecer reunidos e em luta, que é a única maneira de garantir os direitos e a intimidade ainda não devolvida. Excelentíssimo Jacques Queirós Ferreira, os atingidos pela Samarco aguardam sua visita!

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/570503-a-samarco-a-justica-brasileira-e-a-nudez-em-praca-publica)

Agrotóxicos impactam o sangue e afetam doadores, diz dissertação na USP


Os agrotóxicos afetam também o sangue. Dos doadores aos receptores de transfusões. É o que diz uma dissertação de mestrado defendida este ano na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), e publicada nesta quinta-feira (10/08).
A informação é de Alceu Luís Castilho, publicada por De Olho nos Ruralistas, 10-08-2017.


Os dados obtidos pela pesquisadora Fortuyée Rosa Meyohas Neves indicam menor sobrevida de plaquetas e hemácias do sangue nas populações expostas a agrotóxicos. “E que há metabólitos de agrotóxicos no plasma de indivíduos, potenciais doadores de sangue, expostos aos agrotóxicos”, escreve ela já na introdução.
Fortuyée fez uma revisão de 50 trabalhos sobre o tema publicados na literatura científica. E listou quais os pesticidas mais utilizados por potenciais doadores de sangue da região serrana do Rio de Janeiro. Um dos objetivos, dar visibilidade à doação de sangue por moradores da zona rural.
Ela observa que o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Entre 15 mil formulações no mundo para 400 diferentes agrotóxicos, conforme os dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o país tem licenciadas mais do que a metade: 8 mil.
Segundo a dissertação, há hoje muitos estudos sobre potenciais danos das transfusões à saúde humana. Por isso a necessidade de saber se os doadores da área rural “seriam o veículo para contaminação de receptores pela transfusão”. Fortuyée não encontrou trabalhos específicos sobre esse tema, no Brasil.
Outros estudos evidenciaram a contaminação do leite materno. Por exemplo, pesquisas desenvolvidas por Wanderlei Pignati na Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT): Por isso se especulava que haveria esse impacto também nos doadores de sangue.
Em relação ao glifosato, o agrotóxico mais consumido no mundo, a pesquisadora da USP escreve que “praticamente todos os seres humanos estão permanentemente expostos à sua ação”. E que formulações à base desse herbicida podem promover alterações hematológicas e hepáticas, “que podem ser associadas à formação de oxigênio reativo com danos ao fígado, anemia e outros”.

Em sua conclusão, a pesquisadora conta que, no grupo de pessoas mais expostas aos agrotóxicos na produção agrícola, os efeitos adversos “foram proporcionalmente mais intensos”, “e que há relação direta das alterações hematológicas e data da última exposição”.
Segundo ela, isso sugere “inaptidão temporária desses doadores provenientes da área rural com exposição a agrotóxicos”, da mesma forma que ocorre no caso de candidatos a doação de sangue que utilizam determinados medicamentos.
Os dados da literatura indicam que os agrotóxicos “são capazes de induzir alterações nas membranas celulares e no metabolismo dos componentes dos sangues dos doadores”. Consequência possível: redução da sobrevida das hemácias e plaquetas. E perda da qualidade do produto final: o sangue.
A pesquisadora encerra sua dissertação apontando a necessidade de aporte financeiro para o desenvolvimento de mais pesquisas sobre o assunto, que confirmem a ação dos agrotóxicos em hemácias e plaquetas.

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/570569-agrotoxicos-impactam-o-sangue-e-afetam-doadores-diz-dissertacao-na-usp)

Esfera de influência na América Latina - Libertários

Um artigo logo, que precisa de muito fôlego para ser lido.
Mas acredito na sua importância, por isso estou recomendando:


https://theintercept.com/2017/08/11/esfera-de-influencia-como-os-libertarios-americanos-estao-reinventando-a-politica-latino-americana/