domingo, 19 de novembro de 2017

E Finlândia renova sua Educação…

Conhecido pela excelência no ensino, que é público e gratuito, país quer agora renovar currículos e métodos. Receita essencial: ainda mais participação
Por Claudia Wallin, na BBC Brasil

Novos tempos exigirão uma nova escola. O diagnóstico vem da Finlândia, país cujo sistema, já celebrado internacionalmente, agora planeja reformas de olho em como será sua educação daqui a duas décadas.
A meta é envolver os pais em um amplo debate sobre a agenda que os finlandeses acreditam ser necessária para preservar o nível de excelência do ensino público nos próximos anos.
E para isso, nesta quarta-feira a Finlândia vai realizar simultaneamente, nas escolas públicas de todo o país, o que está sendo anunciado como a maior reunião de pais e professores do mundo.
“O mundo está mudando, as escolas precisam mudar, e o diálogo com os pais é crucial nesse processo, uma vez que eles podem desempenhar um papel significativo na evolução da escola”, diz à BBC Brasil Saku Tuominen, um dos organizadores do evento e diretor do projeto HundrEd, criado no país para identificar e compartilhar inovações educacionais em todo o mundo.
Os finlandeses já se perguntam: que tipo de conhecimentos, habilidades e aptidões serão importantes para um aluno em 2030?
‘Diálogo permanente’
“Inovação é a chave”, afirma Tuominen. “Em um mundo em transformação, pensamos que em 2030, por exemplo, os alunos precisarão estar capacitados tanto em termos de novas tecnologias e da ênfase na criatividade como também no desenvolvimento de habilidades emocionais, autoconhecimento e pensamento crítico.”
A megarreunião de pais é resultado de uma colaboração entre o Ministério da Educação e Cultura, o Sindicato dos Professores, a Associação de Pais de Alunos da Finlândia e o projeto HundrEd.
Mais de 30 mil pais já se inscreveram para participar do evento – e a ideia é transformar a iniciativa em um evento anual.
“Queremos um diálogo de alto nível e permanente sobre os fundamentos da educação do futuro. E mais do que nunca precisaremos de soluções criativas em consonância com a base do pensamento finlandês, que é uma educação em que o aluno tenha prazer em aprender”, destaca Saku Tuominen.
Alunos viram professores
Para alavancar o debate, a reunião de pais e mestres será aberta em todas as escolas, que exibirão vídeos curtos com a fala de especialistas e educadores sobre o rumo das reformas em nível nacional, além de filmes sobre inovações que vêm sendo experimentadas em escala local.
Uma dessas inovações é um projeto-piloto que inverte os papéis entre mestres e aprendizes: alunos estão dando aulas a professores sobre o uso mais eficiente de tablets, mídias sociais e câmeras digitais.
“Os resultados têm sido excelentes”, diz Saku Tuominen. “É uma forma eficaz e econômica de capacitar melhor os professores de cadeiras não ligadas à tecnologia, e que também cria laços mais estreitos entre professor e aluno.”
Na visão finlandesa, professores não deverão ser apenas provedores de informação, e os alunos não serão mais somente ouvintes passivos.
“Queremos que as escolas se tornem comunidades onde todos possam aprender uns com os outros, incluindo os adultos aprendendo com as crianças”, diz Anneli Rautiainen, chefe da Unidade de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação finlandês.
“Habilidades tecnológicas e codificação serão ensinadas juntamente com outros assuntos. Para apoiar os professores, também haverá tutores digitais.”
Solução de problemas
Outra inovação a ser apresentada na reunião de pais é um projeto que vem sendo conduzido nas escolas da cidade de Lappeeenranta, no sudeste da Finlândia, para treinar os alunos em técnicas de solução de problemas. O projeto reúne uma equipe de psicólogos, especialistas e educadores.
“A ideia é capacitar os estudantes a desmistificar os problemas, e aprender a focar nas soluções”, explica Tuominen.
No raciocínio dos finlandeses, é preciso mudar a percepção sobre o que deve ser ensinado às crianças e o que elas necessitam para sobreviver numa sociedade e em um mercado de trabalho em rápida transformação.
“As escolas precisam se adaptar aos novos tempos e reconhecer que, com a revolução tecnológica e o impacto da globalização, as necessidades das crianças mudaram. É preciso incluir no currículo escolar temas como a empatia e o bem-estar do indivíduo, além de renovar os ambientes de ensino para motivar os alunos”, observa Kristiina Kumpulainen, professora de Pedagogia na Universidade da Finlândia.
O novo currículo escolar adotado em 2016 já inclui um alentado programa de tecnologia de informação, assim como aulas sobre vida no trabalho. Parte dos livros escolares, assim como a maioria do material de ensino, é completamente digital.
Diálogo
A Finlândia, país de 5,4 milhões de habitantes, é conhecida internacionalmente por pensar fora da caixa no que diz respeito à educação, o que atrai a curiosidade de especialistas do mundo inteiro.
Os dias são mais curtos nas escolas finlandesas: são menos horas de aula do que em todas as demais nações industrializadas, segundo estatísticas da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE, que reúne países desenvolvidos). Em uma típica escola finlandesa, os alunos têm em média cerca de cinco aulas por dia.
Os estudantes finlandeses gastam ainda menos tempo fazendo trabalho de casa do que os colegas de todos os outros países: cerca de meia hora por dia. O sistema também não acredita na eficácia de uma alta frequência de provas e testes, que por isso são aplicados com pouca regularidade.
E para os desafios dos novos tempos, os pais querem voz ativa.
Para a presidente da Associação de Pais da Finlândia, Ulla Siimes, não há mais espaço para as tradicionais reuniões entre educadores autoritários e pais queixosos.
“Quando perguntamos aos pais o que eles esperam das reuniões com professores, a resposta é que eles querem se sentir incluídos nas questões escolares, e não apenas receber relatórios sobre o que está sendo feito”, disse Siimes em entrevista à TV pública finlandesa YLE, ao destacar a importância da reunião de pais e mestres da próxima quarta-feira.
“As experiências pessoais vivenciadas pelos pais décadas atrás podem influenciar as suas concepções sobre como as crianças devem ser educadas nas escolas, e precisamos atualizar nosso modo de pensar para adaptar as técnicas de ensino à realidade da nova era”, acrescentou ela.
A reunião também pretende informar os pais sobre os efeitos de mudanças que já vêm sendo implementadas nas escolas do país, como a criação de salas de aula mais versáteis e flexíveis.
Paredes vêm sendo derrubadas para a criação de espaços de ensino em plano aberto, com divisórias transparentes. Em vez das carteiras escolares, o mobiliário inclui sofás, pufes e bolas de pilates.
“No futuro, não haverá necessidade de salas de aula fechadas, e a aprendizagem acontecerá em todos os lugares”, diz Anneli Rautiainen.
Outra aposta consolidada no novo currículo escolar é o ensino baseado em fenômenos e projetos, que atualiza a tradicional divisão de matérias e dá mais espaço para que determinados temas – por exemplo a Segunda Guerra Mundial – sejam trabalhados conjuntamente por professores de diferentes disciplinas.
Ainda que não lidere o ranking internacional de desempenho de alunos medido pelo exame Pisa, da OCDE, a Finlândia costuma estar entre os mais bem colocados do mundo. Mas isso não é o que guia as reformas educacionais, dizem educadores.
“A importância de rankings como o Pisa no pensamento finlandês é bastante insignificante. Eles são vistos como uma espécie de medição de pressão sanguínea, que nos permitem considerar, ocasionalmente, a direção para onde estamos indo, mas os resultados dos testes não são nosso foco principal”, diz o educador finlandês Pasi Sahlberg. “O fator essencial é a informação que as crianças e os jovens vão precisar no futuro.”
“Na Finlândia, o objetivo da educação não é obter sucesso no Pisa”, reforça Saku Tuominen, um dor organizadores da reunião de pais. “Nossa meta é ajudar as crianças e adolescentes a florescer e ter uma vida mais satisfatória.”

(fonte: http://outraspalavras.net/outrasmidias/destaque-outras-midias/e-finlandia-renova-sua-educacao/)

Café Historia - boletim 26

você pode acessar o Café Historia por aqui:
https://www.cafehistoria.com.br/newsletter/boletim-cafe-historia-edicao-26/

História e videogames: como os jogos eletrônicos podem ser pensados por historiadores
Os videogames, ou jogos eletrônicos, são um fenômeno econômico e socio-cultural que tem crescido rapidamente nas últimas décadas, devendo ser pensados em sua inserção na Indústria Cultural e como constituidores de um imaginário sobre o passado com características próprias. Clique aqui para ler. 
 


 

Vereador que é autor de projeto de lei em prol do “Escola sem partido” envolve-se em polêmica com professores

Ronaldo Pohl chamou professores que protestavam na Câmara Municipal de Marechal Cândido Rondon de “escória”. Ele nega ter se referido a todos os professores da cidade.

Plataforma usa animações de curta duração para explicar eventos e autores consagrados em História

Projeto “Academia Play” aborda diversos temas, desde as diferenças entre o teatro grego e romano até as ideias do filósofo Ortega y Gasset. Vale a pena conhecer o material. 

Ninguém é racista no Brasil.

O texto escrito pela designer gráfico Graziele Martins merece ser lido e compartilhado por todos. Que este Mês da Consciência Negra desperte reflexões importantes como estas em toda a sociedade. Diga NÃO ao racismo!
Vamos ao texto dela. Os grifos em negrito são meus, só pra destacar as partes mais absurdas do que ela viveu:

“Ninguém é racista, mas aos 5 anos eu fui vítima de racismo sem nem saber do que se tratava. A mãe de uma garotinha (da mesma idade) a tirou de perto de mim na piscina que brincávamos no clube com os dizeres: ‘Não quero você brincando com essa neguinha’.

Ninguém é racista, mas, aos 13, um colega de escola que não ia com minha cara gritou aos berros: ‘Macaca preta!’ Aos 17 eu entrei na faculdade (através do ProUni) e minha vaga era de cotas para negros, já que na ficha de inscrição eu não me enquadrava nas categorias de cores que ali estavam: eu não era branca, nem amarela, nem parda, eu era negra. A faculdade exigiu que eu comprovasse minha cor, se nem na minha certidão de nascimento estava escrito: cor negra. Fui obrigada a escrever uma carta de próprio punho explicando que minha cor era negra e era assim que eu me considerava.

Ninguém é racista, mas aos 18, numa loja de departamentos, a vendedora (branca) me perseguia por achar que eu não tinha condições de comprar nada ali… Aos 25, uma mulher branca deixou de sentar ao meu lado, o único lugar vazio dentro de um ônibus lotado, com aquele olhar de superioridade, e disse em tom de voz baixo: ‘Não gosto de preto’. E, em seguida, sentou-se com medo de encostar em mim…

Ninguém é racista, mas no ano passado eu fui a uma festa (predominante de pessoas brancas) e eu era a única negra do local, quase um evento à parte. Perdi as contas de quantas pessoas ‘elogiaram’ minha cor, meu cabelo. Um rapaz (branco, claro) disse que nunca tinha ficado com uma mulher da minha cor (eu não seria a primeira, com certeza).
Ninguém é racista, mas olha com cara de desprezo quando um negro se aproxima, ou infelizmente com olhar de medo, já que os negros são sempre marginalizados na nossa sociedade…

Ninguém é racista, mas não dá credibilidade quando vê um negro em um cargo que ‘deveria ser de um branco’. Quantas vezes você duvidou da capacidade de um médico, advogado negro? Quantos profissionais dessas áreas, negros, você conhece? Quantos negros trabalhavam na mesma empresa que você?

Ninguém é racista, o Brasil não é racista, mas os números (infelizmente) não mentem, a maioria da população morta é de negros, a maioria dos feminicídios são com vítimas negras (sem contar os casos de solidão de mulheres negras), quantos casos de racismo acontecem todos os dias? Tem gente que se mata por causa da cor da pele, mas o nosso país não é racista, ‘somos um povo miscigenado, cheio de misturas’, mas as estatísticas de desigualdade racial são alarmantes….

Ninguém é racista, mas tem gente achando que o William Waack foi ‘pego de surpresa’, não cometeu racismo, afinal, quem nunca disse isso em tom de brincadeira quando se referia a um negro, não é mesmo? Tem gente achando que a Rede Globo cumpriu um papel democrático ao ‘retirar ele do ar’. Gente, a Globo é racista, tirar o âncora do jornal é só uma forma de a emissora ‘se preservar’, não um ato para combater o racismo.

Ninguém é racista, mas eu já fui racista com os brancos, já que a maioria das minhas referências infantis eram de pessoas brancas. Eu tinha que acreditar todo dia, e ainda tenho, que a cor da minha pele não determina o meu caráter, nem a minha capacidade, muito menos superioridade… Ser negro num país racista é um ato de coragem diário. Se reconhecer como negro é ainda mais corajoso.

Talvez você diga que eu não sou negra (já que tenho pele clara), mas é assim que eu me considero, uma mulher negra. Reconheço que tenho privilégios que os outros negros não tem, o que muito me entristece, mas, ainda sim, sou negra, sem medo de ser.

Ninguém nasce racista, nenhuma criança é racista, ela vai aprender com os demais ao seu redor, portanto, eu ainda tenho esperanças nessa nova geração que vem por aí. Pais de crianças negras, eu tenho um orgulho imenso de vocês, ensine a elas o quanto são lindas e capazes!

Precisamos falar de racismo (não somente em casos como o vídeo vazado de um jornalista, não só quando algum ator/atriz é atacado em suas redes sociais…). Precisamos ler mais sobre racismo, racismo reverso (velado), colorismo, preterimento, objetificação dos negros… Existe um mundo de temas que precisam ser debatidos, em escolas, bares, onde for.

Racismo tem que ser pauta diária, as pessoas precisam reconhecer que têm preconceito para que assim (talvez) mude algo, mude o olhar. Se a gente começar a olhar de outra forma, talvez mude (de maneira bem singela) esse preconceito que mata, fere, denigre, dói, corrói.

Li uma vez que ‘se a coisa tá preta, a coisa tá é boa’. É assim que tem que ser, ser negro é lindo. A cor da minha pele jamais pode superar o ser humano que há por trás, jamais. #racismoécrime #racistasnãopassarão”

(fonte: https://kikacastro.com.br/2017/11/16/ninguem-racista/#more-14698)

Dono do Inhotim condenado a nove anos de prisão

Texto escrito por José de Souza Castro:

A profecia ouvida de meu chefe, quando comecei a carreira no “Jornal do Brasil”, em 1972, vai sendo realizada aos poucos: quem começa a frequentar muito as páginas sociais acaba saindo na página policial. Seria o caso, agora, de Bernardo de Mello Paz, o badalado dono do Inhotim, condenado a nove anos e três meses de prisão por lavagem de dinheiro. Sob o estado atual da imprensa, não sei se ele frequentará a página policial ou mesmo, dadas as inúmeras possibilidades de recursos na Justiça, se gozará alguns dias de paz numa cela de prisão antes de morrer.
Diga-se que não foi só este blog, pela prosa animada da Kika (pode-se ver aqui, aqui e aqui e ainda por suas belas fotografias), não foi só este blog, ia dizendo, que contribuiu para que Inhotim tenha se transformado numa das maiores atrações turísticas de Minas – na qual, por culpa minha, nunca fui.
Também o “New York Times” gastou muito espaço para descrever as maravilhas do Inhotim e de seu idealizador. O iG traduziu e puxou o assunto, no título, pela fortuna de Bernardo Paz: “O empresário brasileiro que gasta US$ 70 milhões ao ano para ter um jardim de arte”.
Não é também a primeira vez que a imprensa se ocupa de Bernardo Paz e de suas estripulias, digamos assim, pouco artísticas. A Folha de S.Paulo, por exemplo, no dia 17 de setembro de 2009, publicou reportagem que pode ser lida aqui, denunciando que o governo de Minas, na época sob a regência de Aécio Neves, deu benefício de R$ 20 milhões a suspeito de sonegação. O suspeito: Bernardo Paz. O fato vem descrito abaixo do intertítulo “Negócio da China”:
“O governo mineiro acertou com o Instituto Cultural Inhotim, que gerencia o centro e cujo conselho de administração é presidido por Bernardo Paz, a construção de um centro de convenções orçado em R$ 19,6 milhões. O prédio ficará ao lado do centro cultural.
Para isso, o instituto doou ao governo de Minas, em dezembro passado, um terreno de 25 mil m², avaliado em R$ 20 mil. Mas a doação veio acompanhada de uma série de condicionantes — entre elas, que o governo construirá o centro e entregará a administração do espaço ao próprio Inhotim.”
Nada mal para um empresário que, pouco depois, faria outro negócio da China. Em março de 2010, anunciou a venda para uma empresa chinesa, por US$ 1,1 bilhão, da Itaminas, mineradora de Bernardo Paz que tinha dívidas de US$ 400 milhões.
O valor da venda despertou a cobiça de parentes e outros acionistas da Itaminas que se sentiram prejudicados por Bernardo. Quem tiver pachola, vai encontrar algumas ações tramitando na Justiça. Não foi por alguma delas que ele e uma irmã foram condenados agora. Foi nesta: Ação Penal nº 0046570-71.2013.4.01.3800.
Conforme nota divulgada nesta quinta-feira (16 de novembro) pela assessoria de imprensa do Ministério Público Federal, o “empresário idealizador do Museu de Inhotim é condenado por lavagem de dinheiro”. E mais: “Sentença considerou que Bernardo de Mello Paz utilizou artifícios, como a pulverização de movimentações financeiras entre as empresas de seu grupo, para lavar dinheiro proveniente da sonegação de contribuições previdenciárias.”
Sonegações de contribuições previdenciárias: um tema bem atual, né mesmo? A notícia interessou? Você pode ler mais aqui.

(fonte: https://kikacastro.com.br/2017/11/17/dono-inhotim-condenado-prisao/#like-14711)

“O glifosato provoca alterações no DNA”. Entrevista com Siegried Knasmüller


Os Estados membros da União Europeia, reunidos na quinta-feira, 9 de novembro, no Comitê Plantas, Animais e Alimentos, não conseguiram obter maioria sobre proposta da Comissão Europeia para renovar a licença de uso do glifosato por mais cinco anos. E isso quando a licença para o herbicida, que entra na composição do famoso Roundup da Monsanto, expira no dia 15 de dezembro.

Reconhecido internacionalmente por seus trabalhos em toxicologia genética, Siegfried Knasmüller, pesquisador do Instituto de Pesquisa sobre Câncer de Viena, oferece uma visão científica sobre esta questão. Segundo ele, o parecer emitido pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) e pela Agência Europeia de Produtos Químicos (ECHA), concluindo que o glifosato não é cancerígeno e não genotóxico, não é sério. O próprio Siegried Knasmüller fez pesquisas in vitro que demonstram o efeito nocivo do glifosato.

A entrevista é de Cédric Vallet, publicada por Alternatives Économiques, 09-11-2017. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

O senhor é toxicologista em Viena. O senhor pode nos explicar que conclusões tira dos seus trabalhos sobre o glifosato?

Eu trabalho no Instituto de Pesquisa sobre Câncer de Viena e me especializei em toxicologia genética. Eu estudo a genotoxicidade, portanto, as lesões que afetam o patrimônio genético, o DNA, e que podem ser mutagênicas (causar mutações; nota do editor). Esses danos podem estar na origem do câncer. Eu mesmo consagrei vários trabalhos aos impactos do glifosato sobre o DNA. Nós fizemos estudos in vitro em células epiteliais bucais (células derivadas da boca).

O que constatamos foi muito claro. O glifosato sozinho (e o round up ainda mais) é citotóxico: ela danifica as células. E ele é genotóxico: deforma o DNA. Este experimento revelou danos cromossômicos que favorecem o desenvolvimento de cânceres. Mesmo em doses muito baixas, existe um risco provável de que a inalação, através da pulverização, cause câncer nos órgãos do sistema respiratório. Mais experimentos deveriam ser realizados em trabalhadores nos locais de produção de glifosato para chegar ao fundo da questão. Mas nenhum estudo válido foi realizado nas plantas industriais, o que ajudaria a compreender melhor o aumento dos riscos de câncer associados ao glifosato.

Como explicar que as agências europeias, a EFSA e a ECHA, concluem que o glifosato não é nem cancerígeno nem genotóxico?

A EFSA, no relatório do Instituto Federal Alemão de Avaliação de Riscos (BFR), considerou apenas um espectro muito estreito de estudos. Eles basearam sua decisão em testes muito específicos, definidos pela OCDE, que avaliam os efeitos mutagênicos do glifosato em células retiradas da medula espinhal de ratazanas ou ratos. Esses testes têm resultados negativos em muitos estudos, mas outros experimentos com animais indicam danos no DNA de células de outros órgãos.

Experimentos in vitro com células derivadas de fígado indicam, por exemplo, que este órgão pode ser afetado pelo glifosato, mas nenhum estudo em animais foi então realizado para esclarecer esses dados.

O glifosato vem sendo estudado há 40 anos. Muitos trabalhos acadêmicos indicam uma relação entre o glifosato e o câncer. Mas eles não foram levados em consideração. Há, por exemplo, cerca de vinte estudos realizados com pessoas expostas ao glifosato, principalmente trabalhadores agrícolas. A maioria deu resultados positivos. O DNA dessas pessoas tinha sofrido lesões. Mas a indústria não considera esses trabalhos como confiáveis sob o pretexto de que as pessoas em questão foram expostas a outros componentes. Seria necessário pelo menos fazer estudos adicionais com pessoas que estiveram mais em contato com o glifosato.

A Monsanto tentou influenciar o debate científico...

O que aconteceu nos últimos anos é muito desafiador. A Monsanto pagou bons cientistas, como Gary Williams ou David Kirkland, para escrever "revistas", isto é, compilações de estudos sobre a periculosidade do glifosato. Essas compilações induziram os leitores ao erro, porque criticavam apenas os estudos que estimavam que o glifosato era cancerígeno.

Por sua vez, os dossiês submetidos às autoridades pelas empresas que comercializam produtos à base de glifosato continham estudos encomendados pela indústria e cujos dados eram secretos. Estes estudos não são publicados na literatura científica. Eles não são revisados pelos pares.

O senhor acredita que os membros das agências europeias ou do BFR sofreram pressão para sentar as bases para renovar a licença de uso do glifosato?

Pressões... eu não sei. Penso que todo o processo de classificação e avaliação de riscos em nível europeu está longe de ser ideal, porque depende muito dos dados fornecidos pela indústria. E, no entanto, o BFR, na origem das conclusões da EFSA, é um instituto muito respeitado. Mas eles são humanos e, como todos nós, podem cometer erros. À medida que os conhecimentos científicos se desenvolvem, ou você admite ter cometido um erro, ou você persiste até o fim. A deles, é essa última opção, por enquanto. Em 2015, o CIRC [Centro Internacional de Pesquisa sobre o Câncer, agência especializada da Organização Mundial da Saúde] considerou que o glifosato era "provavelmente cancerígeno". Essa é, para mim, uma classificação muito melhor, baseada em estudos científicos, revisados por pares.

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/573557-o-glifosato-provoca-alteracoes-no-dna-entrevista-com-siegried-knasmueller)

Emissões em 2017 batem recorde e soterram esperança de “pico”

Foi bom enquanto durou. Mas a esperança de que o mundo tivesse atingido o platô de emissões de dióxido de carbono acaba de ser assassinada. Seu algoz foi o GCP (Global Carbon Project), um grupo internacional de cientistas que monitora todos os anos quanto carbono a humanidade despeja no ar.
A reportagem é publicada por Observatório do Clima, 13-11-2017.

Nos últimos três anos – 2014, 2015 e 2016 – o GCP tem feito a publicação de seus dados nas conferências do clima, sempre com uma boa notícia: as emissões globais do setor de energia haviam aparentemente interrompido sua trajetória incansável de crescimento, mesmo com crescimento da economia. Embora os cientistas do GCP sempre tenham tido cuidado em afirmar que não dava para dizer que isso era uma tendência, muitos formuladores de políticas públicas viam nos dados uma evidência de que a humanidade poderia ter atingido o pico de emissões – seguido de um inevitável declínio.
Só que não. Os dados preliminares de 2017, apresentados nesta segunda-feira (13) na COP23, em Bonn, apontam para um crescimento de 2% nas emissões globais de CO2 até o fim do ano. Elas devem bater um novo recorde, atingindo 41 bilhões de toneladas.
O GCP não põe nessa conta outros gases de efeito estufa, como o metano. Somados, eles aumentariam as emissões globais por todos os setores significativamente. No ano passado, por exemplo, dados da ONU mostram que as emissões totais atingiram 51,9 bilhões de toneladas de CO2 equivalente.
“Isso mostra que não dá para sermos complacentes e acharmos que as emissões ficarão estáveis”, disse Glen Peters, pesquisador do CICERO, na Noruega, e um dos líderes científicos do GCP. Ele admitiu, no entanto, que os dados de 2014, 2015 e 2016 foram uma ilusão útil. “Isso trouxe um otimismo e uma esperança muito necessários à discussão climática, de acreditar que poderíamos cumprir a meta de [estabilizar o aquecimento global em menos de] 2ºC”, afirmou. Esse objetivo foi consagrado no Acordo de Paris, cujo manual de instruções está sendo negociado em Bonn até o final desta semana.
A lógica dos esperançosos se baseava num suposto “desacoplamento” entre crescimento econômico e emissões. Ganhos de eficiência energética, substituição do carvão mineral e avanço das energias renováveis, em especial nos quatro maiores emissores do mundo – China, EUA, União Europeia e Índia – haviam produzido o aparente milagre de manter as emissões estáveis mesmo com um crescimento médio de 3% do PIB mundial ao longo desse período.
E isso de fato aconteceu. Nos EUA, o carvão mineral deu lugar ao gás natural; na China, várias centenas de usinas a carvão vêm sendo desativadas ou tendo sua construção cancelada, devido ao barateamento dos fósseis; e na Europa, uma combinação entre eficiência e renováveis tem reduzido emissões.
No entanto, “esse equilíbrio é muito frágil”, disse Corinne LeQueré, diretora do Tyndall Centre, da Universidade de East Anglia (Reino Unido) e uma das investigadoras principais do GCP. Em 2017, uma retomada do consumo de carvão na China e um aumento no uso de petróleo, na esteira de um pacote de estímulo econômico baixado pelo governo no fim de 2016, além de um ano seco que reduziu a geração das hidrelétricas, causaram um aumento de 3,6% nas emissões chinesas.
Mesmo com uma desaceleração nas emissões indianas, que cresceram apenas 3% (metade dos últimos anos) em 2017 e o leve declínio visto na Europa (0,2%) e nos EUA (0,4%), a China mais uma vez puxou as emissões globais para cima.
“A tendência nos próximos anos é crítica para o nível de aquecimento que veremos nas próximas décadas e os riscos a ele associados”, afirmou LeQueré.
E deu um recado para países como o Brasil, que estão mergulhando de cabeça na economia do petróleo: “Precisamos de reduções em toda a economia, não apenas no carvão, mas também no óleo e gás.”
Os dados são um balde de cerveja fria para a COP de Fiji-Bonn, que começou sob ameaça de ressurgimento da rusga política entre países ricos e pobres que contaminou as negociações climáticas por 20 anos antes do Acordo de Paris. E sinalizam que a meta do acordo do clima, mais uma vez, está balançando.
“Quando você olha para as promessas nacionais, elas implicam emissões mais ou menos estagnadas pelos próximos anos. Não estamos nem de perto no rumo de 2ºC”, disse Glen Peters. “Até mesmo para assegurar emissões estagnadas precisamos reforçar as políticas públicas, e não há muita coisa acontecendo em termos de políticas públicas”, continuou. “Nos últimos anos tivemos sorte de ter o crescimento econômico compensado pelo aumento da eficiência energética e das renováveis. Mas, no rumo de 4% ao ano de crescimento, para não ter aumento correspondente de emissões, teremos de ter políticas públicas fortes”.

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/573608-emissoes-em-2017-batem-recorde-e-soterram-esperanca-de-pico)

COP 23: Em Conferência sobre Clima, FAO alerta para pobreza e má nutrição

Diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, José Graziano da Silva, afirmou que emissões geradas pelo setor agrícola devem subir a não ser que mundo adote formas sustentáveis de produção, transporte e consumo de alimentos.
A reportagem é de Monica Grayley, publicada por Rádio ONU, 14-11-2017.

A mudança climática coloca milhões de pessoas num círculo vicioso de insegurança alimentar, má nutrição e pobreza. O alerta foi feito pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, FAO.
O diretor-geral da agência, José Graziano da Silva, afirmou que o mundo não está fazendo o suficiente para enfrentar o que ele chama de uma “imensa ameaça”. E os países que correm maior risco são os menos desenvolvidos e as pequenas ilhas em desenvolvimento.

Soluções

Graziano da Silva afirmou que a meta de atingir fome zero até 2030 ainda é possível. Para ele, a agricultura é onde as lutas contra a fome e a mudança climática juntam-se para gerar soluções.
A agência lançou um relatório durante a Conferência sobre Mudança Climática, que ocorre em Bonn, na Alemanha.
O documento “Rastreando Adaptação em Setores Agrícolas”, numa tradução livre, oferece metodologias para acompanhar as medidas de adaptação do clima na agricultura.
Antes do evento, a líder da Aliança para o Futuro do Oceano, Isabel Torres de Noronha, falou à ONU News sobre como o aquecimento global tem afetado os mares e também infraestruturas relacionadas a fontes de alimentação.

Fenômenos

“O mar, de facto, é o recipiente de 93% do aquecimento global. Apenas 1% na atmosfera e 3% em terra. Isso tem estado a acontecer em vários casos. Na zona costeira, outros impactos relacionados com a destruição devido aos fenômenos climáticos, extremos, têm a ver com a destruição de infraestrutura. Mas há muitos mais exemplos. E por exemplo, os portos também podem ser afetados por estas mesmas tempestades.”
Para o diretor-geral da FAO, é preciso integrar a mitigação e adaptação em toda a cadeia alimentar. Segundo Graziano da Silva, não funciona apenas transformar a maneira como é produzida a comida. Mas transporte, processamento e consumo também devem ser examinados.

Secas

A receita da agência é clara: mudança climática, pobreza e fome podem ser combatidos e vencidos ao mesmo tempo.
Dados divulgados pela FAO em setembro revelaram que o número de pessoas como fome no mundo subiu, pela primeira vez, em uma década totalizando 815 milhões de pessoas.
O aumento deve-se, principalmente, a conflitos e crises econômicas, mas também à mudança climática e uma série de secas prolongadas na África.
O Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática mostra que o problema pode aumentar o risco de fome e má nutrição em 20% até 2050.

(fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/573709-cop-23-em-conferencia-sobre-clima-fao-alerta-para-pobreza-e-ma-nutricao)