domingo, 22 de outubro de 2017

Portugal: as causas ocultas do mega-incêndio

Um naturalista português explica: florestas foram substituídas por eucaliptos; e o campo desumanizou-se em favor da monocultura. Como isso tornou a tragédia inevitável?
Por Jorge Paiva

Há notícias de incêndios florestais em Portugal desde o século XII, mas não eram devastadores, apesar de nessa altura não termos corporações de bombeiros, nem os meios atuais para os combater. Nessa altura, a nossa floresta natural, que designamos genericamente por carvalhal, era dominada por “folhosas” (árvores de folha caduca), não sempre-verdes e resinosas, como os pinheiros, nem sempre-verdes e ricas em óleos essenciais, como os eucaliptos. Como é do conhecimento geral as resinas e essências são altamente inflamáveis. Por isso, arde mais rápida e facilmente um pinhal ou um eucaliptal do que um carvalhal.
Das causas que mais contribuíram para o derrube da nossa floresta autóctone, foram os descobrimentos e respetiva expansão, pois eram necessários entre dois mil a quatro mil carvalhos para construir uma nau. A frota da “Campanha de Ceuta” foi composta por duzentas a trezentas naus, para a rota do comércio da Índia construíram-se setecentas a oitocentas naus e para a ocupação do Brasil cerca de quinhentas. Portanto, durante essa época, foram derrubados mais de cinco milhões de carvalhos. Mais tarde, a instalação da rede ferroviária, que exigiu enorme quantidade de lenha para as máquinas e travessas de carvalho para assento dos trilhos, e a intensa pecuária também constituíram relevantes contributos para o desaparecimento da nossa floresta natural.
Na segunda metade do século XIX foram criados os Serviços Florestais, para arborizar as nossas montanhas, praticamente desarborizadas. Deu-se, então, início a uma floresta de produção mono-específica com o pinheiro-bravo. Hoje sabemos que não devíamos ter “pinheirado” desta maneira monótona as nossas montanhas. Mas, em pleno século XX, já com a nossa enorme área de pinhal contínuo, quando havia fogos florestais, eles não tinham as características devastadoras dos atuais. Isto porque as nossas montanhas estavam humanizadas não só pelo pessoal dos Serviços Florestais, como também pelo povo que permanecia na zona do pinhal, pois o pinhal dava-lhe o “mato” para a cama do gado, matéria combustível, madeira e resina. Desta maneira, os fogos florestais eram debelados logo no início, pois o pessoal florestal e o povo estavam nas proximidades da deflagração do sinistro. Além disso, os Serviços Florestais estavam também apetrechados com maquinaria e tecnologia suficientes para debelarem os fogos florestais e os guardas-florestais, que viviam na floresta, conheciam-na muitíssimo bem. Havia incêndios, mas nunca tão devastadores e catastróficos como os atuais.
A desumanização das nossas montanhas teve várias causas. Uma, foi a maneira como se deixou eucaliptar o país. Repetimos o que já tínhamos feito com o pinheiro, mas com a gravidade de agora todos saberem que isso não se devia fazer. Como já dissemos, os eucaliptais, tal como os pinhais (resinosos), também ardem melhor que as florestas de folhosas, por produzirem essências. Com o eucaliptal contínuo contribuiu-se estrondosamente para a desumanização das nossas montanhas. Com o pinhal, a população rural estava lá, para colher a resina, para cortar o mato, para apanhar as pinhas e lenha e para cortar um pinheiro. Como os eucaliptos servem quase exclusivamente para a indústria de celulose e como só dá cortes de dez em dez anos, a população não fica no monte durante dez anos a olhar para uma árvore à espera que ela cresça: vem-se embora e vai lá só de dez em dez anos para o corte.
Além do grande contributo que o eucaliptal deu para a desumanização do nosso meio rural, houve ainda mais fatores que contribuíram para isso.
Um, foi o delapidar dos Serviços Florestais pelos sucessivos governos, desde 1975. Diminuíram drasticamente o número de guardas-florestais e de técnicos florestais, degradando, simultaneamente, não só o patrimônio construído (abandono das casas florestais da montanha, com milhões de euros de prejuízo), como também o patrimônio tecnológico desses serviços, que deixou de ser funcional. Assim, além do povo, as nossas montanhas deixarem de ter guardas e técnicos florestais, que com a sua tecnologia e experiência ajudavam a apagar, de imediato, os incêndios no seu início, pois conheciam muitíssimo bem a floresta e a montanha. Não é com voluntários que se combatem adequadamente incêndios florestais. Tenho muita consideração por todo o voluntário, mas os profissionais têm de estar sempre presentes em qualquer agremiação voluntária. Não se deve escamotear a verdade. Não me recordo de mortes de guardas e técnicos florestais em incêndios florestais. Este ano já morreram vários bombeiros voluntários e arderam várias viaturas de voluntários. Infelizmente, isto são fatos e não mentiras.
Finalmente, outro fator que contribuiu para a desumanização rural foi a drástica mudança nos processos de agricultura e melhores condições de vida. Antigamente, a charrua era puxada por animais. Esses animais, no inverno, ficando nas cortes por baixo das moradias, ajudavam a aquecer as casas. Por outro lado, era necessário roçar o mato dos pinhais para a cama do gado, apanhar pinhas e lenha para combustível, mantendo-se os pinhais mais limpos de material incandescente. Os animais foram substituídos pelos tratores ou outros veículos e as moradias passaram a ser aquecidas com gás ou eletricidade. Além disso a resina deixou de ser rentável e o resineiro, uma presença florestal vigilante e dissuasora, quase desapareceu. Nas matas nacionais, também passou a haver acumulação de material lenhoso inflamável, por falta de capacidade pessoal, técnica e econômica dos Serviços Florestais.
O resultado de tudo isto não foi apenas a desumanização, foi também a acumulação de material lenhoso altamente inflamável (resinoso ou com essências) nas florestas de produção (pinhais e eucaliptais), que foram plantadas, praticamente, sem regra. Assim, não só se tornou mais fácil a deflagração de um incêndio, como também se propaga muito mais velozmente pela acumulação de material inflamável e pela falta de vigilância humana próxima, que era feita pelos Serviços Florestais e pela população rural.
Como toda a gente sabe, os incêndios florestais no nosso país são praticamente todos resultantes de ações humanas, por descuido, vingança, piromania e, valha a verdade, por interesses inconfessáveis. Considero que os noticiários das televisões, com as figuras dos locutores tendo como “pano de fundo” imagens dos incêndios durante todo o noticiário, incentiva os pirômanos. É de todos conhecida a “estranheza” da maioria dos incêndios se iniciarem durante a noite e quase simultaneamente em vários locais. Toda a gente sabe que, quando se noticia um suicídio, não se devem mostrar imagens, pois estas constituem um fator precipitador de suicídios em doentes mentais com tendência suicida.
Além de terem acabado com os Serviços Florestais, “obrigaram” o povo a abandonar os montes por estarem eucaliptados. Correia da Cunha bem demonstrou que Portugal estava a ficar demograficamente desequilibrado, mas os políticos não o quiseram ouvir (aliás, não convinha). Já que não querem humanizar minimamente as montanhas com vigias durante o Verão, ao menos façam a ordenamento do território. Ribeiro Telles e tantos outros bem têm alertado para esta urgência, mas, igualmente, os governantes nada têm feito. Arranjam sempre desculpas de vária ordem, quando a única razão para que isso ainda não tenha sido feito é não só porque dá imenso trabalho, como também porque daria muitos problemas com os proprietários rurais. Além disso, os resultados de um trabalho desses não são imediatos, o que é mau para “angariação” de votos nas eleições seguintes.
Enquanto não se reorganizarem convenientemente (com profissionais e tecnologia adequada) os Serviços Florestais e não se efetuar o devido ordenamento do território, vamos continuar a ter “piroverões”, noticiados de modo inqualificável pelas televisões, por continuarmos a ter governantes incapazes, que não estão para ter trabalho e aborrecimentos.
Assim, a consequência final será realmente a desertificação, com as nossas montanhas cobertas de rocha nua, pois sem vegetação o solo é completamente arrastado pelas águas pluviais.

* Publicado originalmente no jornal Públicoem 2013, este texto foi reproduzido pela revista digital Buala em 18/6/2017.

(fonte:  http://outraspalavras.net/posts/portugal-as-causas-ocultas-do-mega-incendio/)

Desmatamento na Amazônia: o que comemoramos

O governo federal divulgou nessa terça-feira, em Brasília, que a taxa de desmatamento na Amazônia caiu 16% entre agosto de 2016 e julho de 2017 em relação ao mesmo período anterior. Com isso, a derrubada volta a cair depois de dois anos de tendência de alta, mas não há real motivo para celebração.
A reportagem é publicada por Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia - IPAM, 17-10-2017.

“Bom que caiu a taxa, mas temos de focar em acabar com o desmatamento. Já passou da hora de o Brasil pensar somente em comando e controle e passar a trabalhar as políticas públicas que estimulam aqueles que não desmatam e que produzem de maneira sustentável. Só assim poderemos comemorar”, afirma o diretor-executivo do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), André Guimarães.
“Adicionamos 6.624 quilômetros quadrados desmatados na Amazônia – somando tudo desde o início da série histórica, é uma Alemanha e um Portugal destruídos”, afirma o pesquisador sênior do IPAM, Paulo Moutinho. “Enquanto ficarmos comemorando as quedas das taxas, vamos fechar os olhos para o fato que estamos apenas destruindo florestas em um ritmo mais lento, mas a destruição continua.”
Em 2016, o Brasil desmatou 7.893 km2 na Amazônia e, no ano anterior, 6.207 km2. A taxa ainda é muito mais alta do que a meta proposta pelo próprio governo, em 2009, de chegar a 3,5 mil km2 em 2020.
Com isso, também fica em xeque a capacidade do país de cumprir sua parte no Acordo de Paris, compromisso global de redução de emissão de gases estufa: são mais 330 milhões de toneladas de CO2 emitidos pelo desmatamento em 2017, quando deveríamos reduzir de 36% a 39% essas emissões até 2020, em relação aos níveis de 1990. E isso na véspera da 23ª Conferência do Clima da ONU, que acontecerá em novembro, na Alemanha.
O desmatamento na Amazônia também não traz benefícios ao país, pelo contrário: proteção florestal, num contexto de mudança climática, representa a manutenção de um regime climático mais estável, incluindo a ocorrência de chuvas, tão necessária para a produção agrícola. Sem florestas, haverá impactos econômicos consideráveis na produção no campo no futuro.
“Tudo indica que essas quedas são flutuações que existem desde 2012, pelo menos. Mas o fato é que todo ano uma área enorme é desmatada na região. Só vamos comemorar quando o desmatamento chegar a zero”, diz Moutinho.

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/572748-desmatamento-na-amazonia-o-que-comemoramos)

Desastres naturais levam 24 milhões de pessoas por ano a situações de pobreza

Catástrofes naturais fazem com que, anualmente, 24 milhões de indivíduos sejam levadas à miséria, alertou na semana passada o secretário-geral da ONU, António Guterres. Dirigente pediu mais compromisso com marcos globais para combater a ameaça dos desastres. Segundo novo relatório do Escritório das Nações Unidas para a Redução do Risco de Desastres (UNISDR), fenômenos extremos deslocam cerca de 14 milhões de pessoas por ano.
A reportagem foi publicada por ONU Brasil, 1610-2017.

Catástrofes naturais fazem com que, anualmente, 24 milhões de indivíduos sejam levadas à miséria, alertou na semana passada o secretário-geral da ONU, António Guterres. Dirigente pediu mais compromisso com marcos globais para combater a ameaça dos desastres. Segundo novo relatório do Escritório das Nações Unidas para a Redução do Risco de Desastres (UNISDR), fenômenos extremos deslocam cerca de 14 milhões de pessoas por ano.
Produzida a partir de dados de 204 países, a pesquisa do UNISDR alerta que, dos dez países mais suscetíveis à destruição e à consequente migração associada aos fenômenos extremos, oito são do Sul e Sudeste da Ásia.
“À exceção das mortes e dos graves ferimentos (verificados) em situação de desastre, não há golpe mais esmagador do que a perda do lar, que é frequentemente o local de trabalho em muitos dos países mais afetados”, explicou o representante especial do secretário-geral da ONU para o tema, Robert Glasser. O relatório da agência da ONU foi divulgado por ocasião do Dia Internacional para a Redução de Desastre, lembrado em 13 de outubro.
Na Índia, 2,3 milhões de pessoas estão sob a ameaça de, no futuro, ter de se deslocar por causa da devastação provocada por catástrofes naturais. Na China, o número estimado pela agência da ONU é de 1,3 milhão. O gigante oriental é seguido por Bangladesh (1,2 milhão), Vietnã (1 milhão), Filipinas (720 mil), Mianmar (570 mil), Paquistão (460 mil), Indonésia (380 mil), Rússia (250 mil) e Estados Unidos (230 mil).
O modelo estatístico utilizado pelo organismo da ONU tem por objetivo fornecer dados para cálculos de migrações a longo prazo. Não foram incluídos números relativos a deslocamentos causados por desastres “lentos”, como secas ou enchentes provocadas pela elevação do nível dos oceanos.

Desastres geram pobreza

Em pronunciamento para o dia internacional, o secretário-geral da ONU, António Guterres, ressaltou que “uma média de 24 milhões de pessoas são empurradas para a pobreza, a cada ano, pelos desastres”. “Pobreza, urbanização acelerada, governança frágil, a deterioração dos ecossistemas e as mudanças climáticas estão acentuando o risco de desastres”, afirmou o chefe das Nações Unidas.
O dirigente máximo do organismo internacional avaliou que, com sistemas eficientes de alerta precoce e evacuação, países já conseguem evitar índices massivos de mortes em desastres.
“Agora, temos que focar em reduzir o sofrimento humano e o número de pessoas afetadas”, defendeu Guterres. “Medidas práticas incluem a realocação de pessoas vivendo em zonas de perigo; a implementação de códigos de construção (civil) sólidos; e a preservação de ecossistemas protetores. Reduzir as emissões de gases do efeito estufa é fundamental. A mudança climática está agravando a frequência e a intensidade elevadas de eventos climáticos extremos.”
O secretário-geral cobrou compromissos mais ambiciosos para alcançar as metas do Acordo de Paris e lembrou de outro marco global estabelecido para auxiliar países a prevenir catástrofes — o Marco Sendai para a Redução de Risco de Desastre. Adotado há dois anos pelos Estados-membros da ONU, esse documento “é essencial para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)”, afirmou Guterres.

PNUD faz apelo por sustentabilidade

Também por ocasião da data, o administrador do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Achim Steiner, lembrou que regiões da Ásia já são afetadas atualmente por desastres naturais.
Recorde de inundações em Bangladesh, Índia e Nepal tornaram a vida miserável para cerca de 40 milhões de pessoas. Mais de 1,2 mil pessoas morreram, e muitas outras perderam suas casas. Plantações foram destruídas, e muitos locais de trabalho, inundados. Enquanto isso, na África, nos últimos 18 meses, 20 países declararam estado de emergência pela seca, com grandes deslocamentos ocorrendo em toda a região do Chifre”, disse.
O chefe da agência da ONU fez um apelo por um mundo sustentável. “Enquanto a catástrofe silenciosa de 4,2 milhões de pessoas que morrem prematuramente todos os anos por causa da poluição ambiental, principalmente relacionada ao uso de combustíveis fósseis, recebe relativamente pouca atenção da mídia, está cada vez mais nítida a consequência dos gases de efeito estufa, concentradores de calor, em eventos climáticos extremos.”
Segundo Steiner, já existe um claro consenso na comunidade científica sobre a relação entre aquecimento global e a gravidade de desastres.
“O aumento das temperaturas está aumentando a quantidade de vapor de água na atmosfera, levando a chuvas e inundações mais intensas em alguns lugares, e a secas em outros. Algumas áreas experimentam ambas, como foi o caso deste ano na Califórnia, onde um recorde de inundações seguiu-se a anos de seca intensa.”

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/572780-desastres-naturais-levam-24-milhoes-de-pessoas-por-ano-a-situacoes-de-pobreza)

O FMI desmente Trump e Macron: "Mais impostos sobre os ricos são necessários para reduzir a desigualdade"

O respeitado Fiscal Monitor do Fundo Monetário Internacional defende que o aumento da carga fiscal sobre os rendimentos mais elevados não freia o crescimento. "Há espaço para alíquotas mais elevadas daquelas aplicadas agora"

A reportagem é de Ettore Livini, publicada por Repubblica, 13-10-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

O Fundo Monetário Internacional redescobre-se como Robin Hood e lança sua receita "fiscal" para reduzir as desigualdades sociais: taxar os ricos para ajudar os pobres. O oposto das reformas com a chancela de Donald Trump e Emmanuel Macron.
A solução do FMI vem do tradicional (e influente) Fiscal Monitor de Washington. Os tons, no estilo da casa, são contidos e acadêmicos. Mas a substância é clara: as melhores práticas econômicas recomendam aplicar aos contribuintes de renda alta alíquotas significativamente mais elevadas em relação às atuais, que estão em constante diminuição. Muitos estudos – admitem os homens de Christine Lagarde - defendem que um aperto no parafuso fiscal nos ricos pode prejudicar o crescimento. Tese que o Fundo rejeita taxativamente: "Os resultados empíricos não confirmam qualquer hipótese deste tipo, pelo menos para aumentos progressivos da carga tributária não excessivos".
O FMI, obviamente, não dá os nomes dos países e nem aponta o dedos para ninguém. O diagnóstico do Fiscal Monitor, porém é sem apelação: as economias mais avançadas – é a síntese - viveram durante as últimas três décadas um aumento acentuado nas desigualdades. A culpa é do nítido aumento da riqueza nas mãos do 1% mais rico da população. Uma montanha de ouro que de alguma forma goza de um tratamento fiscal privilegiado não só para acessibilidade dos Tios Patinhas às mais variadas (e nem sempre legais) formas de otimização fiscal: a alíquota máxima média dos países mais industrializados da OCDE - calcula um blog de Vito Gaspar, responsável pelos estudos tributários do FMI - despencou de 62% em 1981 para 35% em 2015.
O estudo do Fundo, obviamente, rapidamente encontrou uma leitura política própria.

O Partido Trabalhista de Jeremy Corbin já o assumiu para as suas propostas fiscais: uma taxa de 45% para aqueles com rendimentos acima dos 80 mil libras (pouco menos de 100 mil euros), subindo para 50%, além dos 123 mil. Na direção oposta movimentaram-se por sua vez Paris e a Casa Branca, identificados por muitos como o alvo do estudo do Fundo: Donald Trump acabou de anunciar uma série de cortes de impostos cujos principais beneficiários seriam justamente os mais ricos. O plano de Macron, por sua vez, prevê um corte do chamado "imposto sobre as fortunas", uma espécie de enxugamento sobre a "patrimonial" que gravava sobre os bens dos franceses mais ricos.

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/572680-o-fmi-desmente-trump-e-macron-mais-impostos-sobre-os-ricos-sao-necessarios-para-reduzir-a-desigualdade)

Por que denunciar privatizações na Petrobras e Eletrobrás

Texto escrito por José de Souza Castro:

Está sendo discutido na comissão especial da medida provisória 795, que era presidida pelo senador tucano José Serra, se o Brasil quer mesmo impedir que empresas brasileiras continuem participando, como fornecedoras de equipamentos, nos projetos de exploração do petróleo no próprio país. O governo, autor da MP, gostaria de deixar tudo a fornecedores estrangeiros.
O Partido dos Trabalhadores vai combater essa MP, garante o líder do partido na Câmara dos Deputados, Carlos Zarattini, como se vê aqui. Ele afirma que o objetivo da MP é dar aos equipamentos importados o mesmo tratamento tributário dado aos equipamentos produzidos no Brasil, o que enterraria “a indústria naval, a indústria de equipamentos, a tecnologia desenvolvida pela Petrobras e pelas empresas que fornecem à Petrobras”.

E a Fiesp, tão barulhenta com seus patos, no passado, se mantém silenciosa. Não se ouve ali um único quá quá quá “em defesa da indústria nacional de petróleo e gás”.
No discurso feito no dia 10 deste mês na Câmara dos Deputados, ao revelar que José Serra deixara a presidência da comissão, Zarattini buscou uma explicação: “Do jeito como estão as coisas criminalizadas nesse país, provavelmente ele seria considerado um criminoso por estar beneficiando a indústria estrangeira de produção de equipamentos de exploração de petróleo e gás”.

É difícil esquecer, passados sete anos, o que teria dito José Serra à diretora de desenvolvimento de negócios e relações com o governo da petroleira Chevron, Patrícia Padral. Conversa revelada pelos papéis secretos do Departamento de Estado vazados pelo Wikileaks, mostrando que, quando Serra se preparava para disputar as eleições presidenciais, o governo dos Estados Unidos já estava focado em conseguir bons acordos no Brasil para as petroleiras Chevron e Exxon, mesmo que tivesse que espionar a Petrobras.

O Brasil tem muito a perder. O assunto ficou esquecido no discurso de Zarattini, mas muita gente já tomou conhecimento de um estudo feito pela Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados sobre a MP 795. Nele se diz que, se aprovada, a MP pode resultar na não arrecadação de R$ 1 trilhão com o óleo do pré-sal, considerando toda a extração das reservas, caso o preço do barril de petróleo Brent fique em US$ 60. O preço vem subindo e hoje está na casa dos US$ 56.

Pelas regras da medida provisória, lê-se aqui, a participação do Brasil em cada barril — na prática, a porcentagem que o país recebe de cada um deles — passará de 59,7% para 40%, uma das mais baixas do mundo. O estudo mostra que, por exemplo, a China possui uma participação de 74% sobre o petróleo extraído em seu território, os Estados Unidos de 67%, a Rússia de 66%, e o Reino Unido fica com 63%.

O restante fica com as multinacionais do petróleo, entre as quais se destacam as dos Estados Unidos.
O governo dos Estados Unidos, ainda sob Barack Obama, tinha bons motivos para apoiar o golpe parlamentar que derrubou Dilma Rousseff e pôs em seu lugar Michel Temer. Derrubar este não será nada fácil. Donald Trump, ainda mais que Obama, tem bons motivos para não deixar. Logo depois de ser eleito, Trump escolheu como secretário de Estado o engenheiro Rex Tillerson, que, para assumir, renunciou à presidência da Exxon Mobil, cargo ocupado por ele desde 2006.

Já se vê por aqui os bons serviços de Rex Tillerson, com participação ou não de José Serra, não por acaso o primeiro ministro de Relações Exteriores do governo Temer. No último leilão de áreas petrolíferas promovido por Temer, a Petrobras se uniu à Exxon para explorar os principais campos de petróleo ainda em águas rasas. A Chevron, por sua vez, não perde por esperar pelos próximos leilões das áreas do pré-sal…

Um dos objetivos do golpe, ficou mais do que evidente, era acabar com a participação exclusiva da Petrobras nos campos do pré-sal, vinda do governo Lula. E não para aí. A entrega da Eletrobrás vem a seguir – ou simultaneamente.

Sobre isso, enquanto a Fiesp, a Fiemg e que tais se calam, outros falam. O líder do PT destaca um deles, José Luiz Alquéres, que adverte: “a privatização não pode ser feita para arrumar trocados para o tesouro e, sim, para montar um sistema elétrico adequado para o século 21, para uma economia de baixo carbono. Preste atenção: só vemos em alguns momentos um mar de ignorante e lobistas, sem contar especuladores dando as cartas e fazendo proposições.”

O que se quer com a privatização da Eletrobrás, diz Alquéres, é descontratar a energia barata produzida nas antigas usinas hidrelétricas para que ela seja fornecida ao chamado mercado livre, com preço aumentado substancialmente. Além de pagar mais caro, o consumidor brasileiro vai perder o controle sobre as águas, sobre a energia limpa das hidrelétricas, particularmente as de Minas Gerais, de Furnas e as da CHESF do Rio São Francisco.

“Nós temos que denunciar isso”, discursa Zarattini. “É óbvio que não está em conta nesse modelo a chamada modicidade tarifária, porque o que interessa é a maximização dos lucros. É óbvio que o modelo de tarifa vai subir. E é importante a gente notar que quem está à frente desse modelo, desenvolvendo esse modelo, não é outro senão o secretário executivo do Ministério de Minas e Energia, senhor Paulo Pedrosa, ex-presidente da Associação Brasileira dos Grandes Consumidores de Energia e da Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia Elétrica. Exatamente os que mais vão ganhar com esse novo modelo, onde os comercializadores do mercado livre, sem bater um prego na madeira, vão ganhar uma importante fatia de milhões, de bilhões de reais que estão envolvidos no mercado de energia”.

Completa o deputado petista: “Nós temos que denunciar isso porque, como diz o senhor José Luiz Alquéres, quem está operando essa transformação, essa manipulação, são lobistas que nada entendem do mercado de energia, ou aqueles que entendem e entendem tão bem que querem desviar bilhões de reais para interesses privados, tirando do consumidor, que é o povo brasileiro.”
É isso: DENUNCIEMOS!

(fonte: https://kikacastro.com.br/2017/10/16/privatizacoes-petrobras-eletrobras/#more-14593)

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Peixes diminuem de tamanho à medida que a temperatura do oceano aumenta

Um dos peixes economicamente mais importantes está diminuindo em peso corporal, comprimento e tamanho físico total à medida que a temperatura do oceano aumenta, de acordo com uma nova pesquisa do professor R. Eugene Turner, da LSU Boyd, publicada na Geo: Geography and Environment. O tamanho médio do corpo do Brevoortia patronus (Gulf Menhaden) um pequeno peixe pescado nos EUA, das costas do Maine ao Texas – diminuiu cerca de 15% nos últimos 65 anos.
A reportagem é de Alison Satake, publicada por Lousiana State University, editada e traduzida por Henrique Cortez e reproduzida por EcoDebate, 09-10-2017.

Menhaden constituiu cerca de metade da pesca de peixe do Atlântico e do Golfo do México, num valor estimado em, aproximadamente, US$ 129 milhões em 2013. São espécies costeiras que se reproduzem no oceano e se mudam para estuários onde os peixes jovens crescem de um até dois anos de idade. A temperatura da superfície do ar e do mar na costa atlântica e no Golfo do México aumentou constantemente, especialmente nos estuários, onde a troca de calor ocorre de forma eficiente entre o ar e o mar. Os menhaden adultos retornam para o oceano onde são pescados com redes de cerco.
Menhaden é uma importante fonte de alimento para aves, focas, baleias e outros animais. Portanto, as consequências do encolhimento de Menhaden, no tamanho do corpo, se estendem por toda a cadeia alimentar.
Turner calculou as mudanças de peso e comprimento desses peixes usando dados coletados pelo National Marine Fisheries Service. De 1955 a 2008, cerca de 495,000 menhaden do Atlântico foram coletados pela agência. De 1964 a 2010, foram coletados cerca de 510 mil menhaden do Golfo do México. Os dados mostram um declínio no peso e comprimento anual entre os peixes de 3, 4 e 5 anos de idade. Por exemplo, um peixe de 4 anos capturado em 2010 pesou 11 por cento menos do que um peixe de 4 anos capturado em 1987.

Referência:

Turner R Eugene. Smaller size-at-age menhaden with coastal warming and fishing intensity. Geo: Geography and Environment. 2017, 4(2): e00044. DOI: 10.1002/geo2.44

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/572496-peixes-diminuem-de-tamanho-a-medida-que-a-temperatura-do-oceano-aumenta)

'Novo analfabetismo': por que tantos alunos latino-americanos terminam ensino fundamental sem ler ou fazer contas

A conclusão do ensino fundamental é uma etapa essencial da vida estudantil, mas para grande parte dos alunos latinos-americanos ela é concluída sem que sejam aprendidas habilidades mínimas.
Segundo um informe recente do Instituto de Estatísticas da Unesco, braço da ONU para a educação, grande parte dos jovens da América Latina e do Caribe não alcançam os níveis exigidos de proficiência em capacidade leitora ao concluírem o que no Brasil equivale à segunda etapa do ensino fundamental, em geral, aos 14 anos.
A reportagem é de Ángel Bermúdez, publicada por BBC Brasil, 11-10-2017.

O estudo diz que, em média, 36% das crianças latino-americanas no ensino fundamental não estão atingindo as habilidades mínimas de leitura. Em matemática, esse índice sobe para 52%.
Em números absolutos, 19 milhões de adolescentes do continente concluem o fundamental "sem conseguir níveis mínimos" de compreensão nessas áreas.
Especificamente no Brasil, dados compilados pela plataforma QEdu com base no Prova Brasil 2015 dão a dimensão do problema nessa etapa do ensino: apenas 30% dos alunos da rede pública saem do 9º ano com aprendizado adequado em leitura e interpretação.
Em matemática, apenas 14% dos alunos do 9º ano aprenderam o adequado em resolução de problemas.

'Novo analfabetismo'

Silvia Montoya, diretora do Instituto de Estatísticas da Unesco, considera "dramática" a ausência de compreensão de leitura em tantos estudantes do continente.
"O fato de haver crianças sem competências básicas, no que se refere a ler parágrafos simples e extrair informações deles, é o que eu consideraria uma nova definição de analfabetismo", diz ela à BBC Mundo, serviço em espanhol da BBC.
"No mundo de hoje, ter um nível mínimo de alfabetização já não é (apenas) saber ler o próprio nome e escrever algum fato da vida cotidiana. Carecer de compreensão leitora é uma espécie de incapacidade de se inserir na sociedade, poder votar e entender as propostas dos candidatos, entender seus próprios direitos e deveres como cidadão. Afeta todas as dimensões."
E, prossegue Montoya, a leitura é uma habilidade básica, sobre a qual se constroem as demais capacidades estudantis.
"Sem essa competência, estamos gerando crianças e adolescentes que vão (vivenciar) diretamente muitas frustrações pessoais e de integração social e profissional. Sem entender textos, é muito difícil avançar em qualquer área."
A situação se agrava quando se leva em consideração o grau de exigências do mundo atual, em que a informação disponível é complexa e tem diferentes graus de qualidade e confiabilidade - o que exige leitores com senso crítico e habilidade de interpretação.

Uma escola que não funciona

E se antes o desafio da América Latina era o da inclusão dos alunos ao sistema de ensino, hoje a questão é mais qualitativa do que quantitativa.

O relatório da Unesco afirma que "o desperdício de potencial humano evidenciado pelos dados confirma que levar as crianças à sala de aula é apenas metade da batalha. Agora, temos de garantir que todas as crianças naquela sala de aula estejam aprendendo as habilidades básicas de que precisam em leitura e matemática, no mínimo".
"Agora, a realidade é que as crianças estão dentro do sistema educativo, mas há uma inabilidade da escola em dotá-los do nível de aprendizado razoável e mínimo para as circunstâncias que demanda o mundo hoje e no futuro", afirma Montoya.
E isso é resultado de uma série de problemas, como formação deficiente que não prepara os docentes para lidar com os desafios de sala de aula, problemas de infraestrutura, numerosas perdas de dias letivos por conta de greves e outras questões - além, também, da própria situação socioeconômica dos estudantes, que "podem vir de lares de baixa renda e contar com menor apoio familiar".
"Há uma combinação de fatores que podem variar em cada lugar, mas evidentemente há uma ausência de políticas específicas para enfrentar o problema", afirma Montoya.
Ela agrega que é preciso analisar os currículos, a formação de docentes - para garantir que sejam capazes de ensinar crianças vindas de contextos sociais difíceis -, contar com um ambiente e uma infraestrutura adequados e ter uma rede de políticas sociais de apoio.
No Brasil, uma nova base nacional curricular, documento do Ministério da Educação que vai definir diretrizes de ensino, está atualmente em fase de consulta pública.
"Não há como resolver (o problema da educação) sem uma visão integral do sistema educacional", opina Montoya.
O problema não se restringe à América Latina - é um drama global.
O relatório da Unesco calcula que, no mundo, haja 617 milhões de crianças e adolescentes - o equivalente a três vezes a população total do Brasil - incapazes de entender minimamente um texto ou resolver problemas matemáticos básicos, o que seria esperado em sua idade escolar.
Na África Subsaariana, 88% dos alunos concluem os estudos equivalentes ao fundamental com problemas de compreensão em leitura. Para efeitos comparativos, esse índice cai para 14% na América do Norte e na Europa.

(fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/572562-novo-analfabetismo-por-que-tantos-alunos-latino-americanos-terminam-ensino-fundamental-sem-ler-ou-fazer-contas)