sábado, 23 de setembro de 2017

Escravidão atinge 40 milhões de pessoas no mundo, diz ONU

Ao menos 40 milhões de pessoas no mundo ainda são vítimas da escravidão, enquanto outras 152 milhões de crianças são obrigadas a trabalhar. Dados divulgados nesta terça-feira, 19, pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) revelam que a escravidão moderna é ainda uma realidade.
A reportagem é de Jamil Chade, publicada por O Estado de S. Paulo, 19-09-2017.

O levantamento aponta que mulheres e meninas são desproporcionalmente afetadas. Elas representam 71% das pessoas em situação de escravidão, quase 29 milhões.
Pelo menos 16 milhões de pessoas trabalham em condições de escravidão como empregadas domésticas, na construção civil ou na agricultura. Na indústria do sexo, são 5 milhões de vítimas pelo mundo. Outras 4 milhões de pessoas são obrigadas a trabalhar pelas próprias autoridades.
No caso das Américas, quase 2 milhões de pessoas ainda seriam vítimas da escravidão moderna, segundo o levantamento. São 24 milhões na Ásia e 9 milhões na África.
O que também chama a atenção das autoridades é que uma a cada quatro vítimas da escravidão é menor de idade, cerca de 10 milhões de crianças. Dessas, 5,7 milhões ainda são obrigadas a se casar. No que se refere ao trabalho infantil, o principal empregador é a agricultura, onde estão 70% dos menores. No setor de serviços, estão 17% das vítimas.
O epicentro do problema do trabalho infantil continua sendo a África, com 72,1 milhões de pessoas. Na Ásia, são 62 milhões, contra 10,7 milhões nas Américas.

Forçado

Outro fator considerado pela ONU é o número de casamentos forçados, um indicador que também apontaria para uma situação de dependência total. No ano passado, 15,4 milhões de pessoas estariam nessa situação. Nos últimos cinco anos, ocorreram 6,5 milhões desses casamentos.
Para Guy Ryder, diretor-geral da OIT, o mundo não atingirá suas metas de desenvolvimento sustentável enquanto não aumentar de forma dramática os esforços para lutar contra essa realidade. "O fato de que, como sociedade, ainda temos 40 milhões de pessoas na escravidão moderna é uma vergonha para todos", alertou Andrew Forrest, presidente da fundação Walk Free. "Isso precisa acabar", apelou.

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/571834-escravidao-atinge-40-milhoes-de-pessoas-no-mundo-diz-onu)

Globalização, guerras, exploração da criação: pela primeira vez em 10 anos o número de indigentes do planeta mostra um preocupante aumento


Na sexta-feira, acossados talvez por tantas notícias de ataques sangrentos, lançamentos de mísseis intercontinentais e violências cruéis, tenhamos perdido uma informação muito importante que merecia bem mais atenção e destaque. Após dez anos de números em baixa, e pela primeira vez na era da tão famigerada globalização dos mercados, o número de pessoas em sofrimento por falta de alimento no nosso planeta Terra aumentou, atingindo a cifra de 815 milhões.

A reportagem é de Damiano Serpi, publicada por Il sismografo, 16-09-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Segundo as conclusões do relatório “The State of Food Security and Nutrition in the World 2017” elaborado pelas agências das Nações Unidas, FAO, FIDA e PAM, durante o ano de 2016 um adicional de 38 milhões de pessoas encontraram sérias dificuldades na obtenção de alimento suficiente, em comparação com o ano anterior. Em termos percentuais, aproximadamente 11% da população mundial, ou seja, uma vez e meio toda a Europa e duas vezes toda a América do Norte, agora vive em condições de indigências, a ponto de não dispor nem mesmo de itens de primeira necessidade, tais como pão ou água.

As explicações para essa mudança de rumo nos números globais de quem está em condições de penúria, devem ser procuradas principalmente na proliferação dos conflitos armados em algumas áreas geográficas do mundo e nas súbitas mudanças de clima. Mudanças climáticas, em grande parte devidas ao aumento da temperatura média do planeta, que estão provocando choques contínuos, com chuvas torrenciais, secas improvisas e prolongadas, tempestades e inundações. Esses eventos climáticos que têm violento impacto nas economias locais estão causando fome, êxodos e migrações em massa.
Esses últimos dados, embora importantes por si só porque nos dão o quadro de uma alteração negativa da condição geral do homem no planeta, também nos contam algo a mais. A teoria, apregoada até o exagero ao longo das últimas três décadas, de que, apesar de eventuais desvios ou anomalias, o saldo da globalização da economia e dos mercados seria de qualquer forma positivo, porque o sistema sempre geraria uma diminuição constante do número de pessoas aflitas pela fome e carência de itens primários, não é mais tão indefectível como nos levaram a crer.

Até recentemente, na verdade, qualquer tentativa de explicar ao mundo econômico e político que a globalização não pode ser desvinculada de uma ideia de equidade e justiça em defesa do valor "homem" foi rechaçada pelos seus defensores mais intransigentes precisamente com justificativas baseadas em estatísticas numéricas mundiais, que evidenciavam uma constante diminuição das pessoas em condições de extrema pobreza.

No longínquo 2002, até mesmo São João Paulo II tentou sacudir as consciências do mundo falando de uma globalização por si só neutra e, portanto, possível de ser moldada de acordo com as necessidades reais do homem e dos seus valores inalienáveis. Mas ninguém, então, entendeu a abrangência de suas palavras, e nos limitamos a defender que justamente a globalização traria uma melhoria geral da vida dos homens em todo o planeta.
Até sexta-feira, dizia-se que a globalização desenfreada e sem qualquer tipo de correção teria sempre permitido a um maior número de pessoas sair do estado de indigência e, portanto, dispor das ferramentas necessárias para garantir para si, pelo menos, os itens básicos necessários para a vida. Por um longo tempo foi praticamente assim, pelo menos na lógica impessoal e fria dos números. Ninguém poderia opor-se a essa convicção, considerando que hoje a sociedade raciocina apenas com base nos percentuais e estes pareciam estar do lado dos defensores dessa ideia universal da globalização sem freios ou limites.

Para todos nós, mesmo em face das incongruências de um sistema que tornava ainda mais evidente a diferença entre aqueles que são muito ricos e quem é cada vez mais pobre, inclusive era propalada a ideia de que a globalização fosse, afinal, o único verdadeiro antídoto para o problema da fome no mundo. Ou seja, precisávamos nos contentar com um sistema claramente desequilibrado e que criava um monte de "desperdícios", mas que ainda assim tinha entre seus méritos o de ser capaz, de alguma forma, de reduzir constantemente o número dos chamados "muito pobres". Talvez aquele resultado fosse limitado e representasse apenas uma migalha, mas, alegava-se, era melhor pouco do que nada.
Agora o sonho de uma globalização benéfica, apesar de todo o desperdício que carregava consigo, parece desvanecer como neve ao sol. Os dados que nos foram fornecidos na sexta-feira indicam que está ocorrendo uma inversão de tendência e que as causas não podem ser negligenciadas ou silenciadas. De fato, ou a globalização, como a vivenciamos até agora, terminou o seu ciclo perfeito, ou estamos começando a pagar a conta por não querer colocar regras para um sistema que se baseou por mais de 20 anos apenas no lucro e na livre circulação dos capitais. Provavelmente a mais verdadeira das duas teorias seja a segunda.

Por tempo demais, permitimos qualquer coisa em nome de uma agressiva globalização que devia tornar a todos nós mais ricos e desenvolvidos. Em nome dessa desenfreada corrida para uma produção ao menor custo, ao máximo lucro, às compras na internet, á facilidade de movimentação dos capitais, bens e pessoas, culpada ou egoisticamente permitimos que, muitas vezes, se iniciassem ferozes conflitos armados regionais e, efeito menos evidente no curto prazo, mas exponencialmente mais perigoso no longo prazo, que houvesse uma extremo abuso da natureza e dos seus recursos como se fossem ilimitados. Ao fazer tudo isso não percebemos, ou melhor, não quisemos perceber, que parte daquele lucro obtido nada mais era que a antecipação conspícua de um crédito cujo reembolso estávamos transferindo por completo às gerações futuras ou a quem já vivia situações de semi-pobreza ou pobreza absoluta.
O medo, agora, não é tanto que a globalização não esteja mais na moda e deva ser substituída por uma nova ordem econômica mundial a ser inventada, mas sim que não seja mais possível garantir os extraordinários resultados prometidos, justamente porque chegou à hora de pagar o pesado tributo pelas nossas escolhas de sacrificar tudo, até mesmo a Criação, a uma teoria que nos prometia desenvolvimento e riqueza infinitos. A tudo isso, devemos ligar as palavras de simples bom senso que o Papa Francisco nos endereçou durante a conferência de imprensa no avião que o levava de volta a Roma depois da viagem apostólica à Colômbia.
Ao responder a uma pergunta sobre como os furacões Irma e Harvey pudessem estar ligados de alguma forma à mudança climática causada pelas atividades humanas e sobre essa nova corrida das nações às armas de destruição em massa, o Papa usou as palavras da Bíblia para lembrar a todos que "o homem é um tolo, um teimoso que não vê", antes de acrescentar que por trás de certas opções existe sempre e somente o "deus bolso". Muitos torceram seus narizes ao ouvir palavras tão diretas, outros as julgaram fortes, talvez até demais. Na verdade, são apenas palavras de bom senso que fotografam a situação atual que cada um de nós pode perceber diretamente na vida cotidiana e para as quais precisamos nos apressar a por remédio. O homem trocou cada valor importante, da dignidade humana ao respeito pela natureza, para obter rapidamente um alto lucro considerado, erroneamente, a baixo custo. O homem não soube olhar para além do seu nariz e seguiu apenas o cheiro da moeda, do dinheiro, dos capitais a receber e reinvestir. Nesse jogo perverso, muitos homens tornaram-se um instrumento nas mãos de poucos outros homens para gerar lucro, explorando ao mesmo tempo o que a criação oferece-nos de graça como o ar, a água, o calor, o vento e assim por diante.
As guerras e os conflitos se multiplicaram também porque as armas tornaram-se uma maneira fácil e segura de fazer negócios desenfreados aparentemente sem riscos para o produtor. Para muitos parecia um negócio polpudo e livre de contraindicações vender armas para aqueles que queriam usá-las em territórios distantes. O lema era "que façam todas as guerras que quiserem e até se matem, desde que façam isso entre si e longe da gente". No entanto, não foi bem assim e as guerras, embora de forma indireta e desigual, contribuíram para gerar o atual problema da imigração que vem atemorizando toda a Europa. O ambiente, a natureza e a Criação cada vez mais se tornaram uma rica prateleira de supermercado onde se podia pegar tudo que nos servisse sem ter que pagar nem mesmo o preço da compra. Preço que conscientemente repassamos para as costas dos povos que já sofriam um estado de subdesenvolvimento prolongado ou para a conta em aberto das gerações futuras, que mais do que nós terão que lidar com um planeta Terra devastado, depauperado e em péssimo estado de saúde.

Porém, nem tudo está perdido. O homem ainda pode mudar a sorte que parece estar marcada e limitar os danos que serão deixados para aqueles que virão depois de nós. Nenhum processo em funcionamento é tão irreversível a ponto de impedir que o homem se empenhe para salvar o próximo e a criação. Contudo, precisamos começar imediatamente e, em primeiro lugar, devemos deixar de ser tão tolos ou, melhor dizendo, falsamente ingênuos diante das decisões que devem ser tomadas. Não há muito tempo para recolocar o planeta no caminho certo, e são necessários homens de boa vontade e não mais encantadores de serpentes.

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/571772-globalizacao-guerras-exploracao-da-criacao-pela-primeira-vez-em-10-anos-o-numero-de-indigentes-do-planeta-mostra-um-preocupante-aumento)

Contra a territorização evangélica de qualquer lugar

FÁBIO PY*

As cenas de traficantes da Região da Ilha do Governador, do Morro do Dendê, que gravaram um vídeo mandando o povo de terreiro destruir seus próprios símbolos são para amedrontar. Contém imagens e sons de uma apologética de medo patrocinada pela arma na mão. Sobre isso não se pode relativizar. Mesmo mediante as muitas imagens de violências que chegam pelos noticiários, pelas mídias, a ação dos traficantes armados mandando os próprios povos de terreiros a destruir seus templos e seus ícones são simbólicas. Também mostram uma perspectiva de higienização territorial dessa nova onda de evangélicos. Pois, não basta destruir os espaços religiosos. Devem obrigar, com os fuzis em riste, os próprios membros das religiões afro destruam seus símbolos, de seu centro do mundo. No ato filmado se tem uma violência dobrada, quiçá triplicada: Ele está repleto de muitas expressões do sadismo territorial-religioso que os fundamentalismos trajados na linguagem da batalha espiritual atualizam para os dolorosos nervos expostos nas favelas.
Mesmo com a confusão da quantidade de imagens e noticias, penso que deve-se dizer que como cristão, de corte protestante evangélico, um ato como esse de violência extrema pouco tem a ver com o cristianismo. Para isso, lembro um pouco das Escrituras Sagradas: Jesus não era cristão. Ele era judeu! Logo, assim, para época, não construía uma religião “pura”, “sem-mancha”. Seu segmento SEMPRE dialogou com os demais ritos e culturas ao redor. Ele SEMPRE foi permeado e utilizou elementos de outras tradições religiosas, como, por exemplo: o rito inicial nas águas, orações soltarias, a escolha de pessoas para seguir sem moradias,… Tudo isso. E, até, a própria noção de ressurreição não é originalmente do ambiente cristão. Portanto, a ideia de pureza religiosa impregna essa territorização evangélica das favelas do Rio, é uma expressão racista do cristianismo. Ela que é uma noção que data do inicio do século XX no ambiente americano chamado de fundamentalismo religioso. Assim, ao inverso desse seguimento, assumindo a diversidade que forma o cristianismo e ajuda a desenvolver até os dias de hoje, reconhecemos que é vergonhoso assistir as cenas da destruição do local de culto afro pelos chamados “traficantes de Jesus”. Pois, a aceitação do outro é uma pratica que perpassa importantes textos das Escrituras cristãs, e que se faz presente em toda história do cristianismo.
Além disso, uma ação como essa vai contra a própria ação política dos protestantes evangélicos desde a formação do Brasil. Eles, que apoiaram a diversidade religiosa e de culto. Apoiaram a diversidade porque no passado eram ainda mais uma minoria no país. Portanto, a garantia desse dispositivo legal seria uma estratégica para a continuação e até uma propagação das celebrações evangélicas. Nesse sentido, é ainda mais alarmante a percepção de que existem pastores que incentivam tal territorização da violência contra os povos de terreiro. Sim! Existem religiosos que vêm auxiliando os traficantes contra qualquer grupo ou ser humano de confissão diferente da dele, principalmente, dos ritos afro. Só para dizer. Esse cristianismo virulento, intolerante não representa a postura histórica dos protestantes evangélicos. Muito menos eles dão tônica de todo setor. Dão essa impressão porque suas violências chamam atenção dos canais e mídias. O que não é por menos, claro.
Assim, marcando posição se diz que se é contra qualquer territorização evangélica levada pelos “traficantes de Jesus” nas comunidades da Ilha do Governador, Rio de Janeiro. Sua perspectiva de pureza religiosa violenta, racista só mancham mais de sangue das favelas do Rio. E, o que é menos importante (do que o ambiente de violências nas favelas) mancham ainda mais o desenho feito sobre o setor evangélico no país. O que respinga no rosto do setor mais dialogal e aberto cristão que está mais preocupado com teorias e leituras, sem se interessar em se sujar a mão na construção pedagógica de alternativas no dia-a-dia desse setor tão largo que cresce exponencialmente nas últimas décadas.
* FÁBIO PY é professor do Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF, Doutor em Teologia pela PUC-RIO.

(fonte: https://espacoacademico.wordpress.com/2017/09/18/contra-a-territorizacao-evangelica-de-qualquer-lugar/)

sábado, 16 de setembro de 2017

Por que nos esquecemos das vítimas de catástrofes ambientais da Índia e do continente africano?



As cidades indianas de Mumbai, Bangalore e Chennai; a cidade mais populosa do Paquistão, Karachi; e a capital de Bangladesh, Dakha, somam mais de 1.400 vítimas desde junho e milhões de afetados após as piores chuvas de monção que atingiram o Sudeste Asiático em anos. No Nepal, as chuvas torrenciais deixaram 150 mortos e 90.000 casas devastadas.
Na província de Guizhou, na China, os deslizamentos de terra por chuvas torrenciais causaram a morte de mais de 50 pessoas, e em cidades como Donguan, Shenzhen, Zhongshan e Zhuhai, foi declarado alerta vermelho pelas chuvas e 70.000 pessoas foram evacuadas. No total, 41 milhões de pessoas na região sofrerão muito para conseguir alimentos e enfrentarão um aumento de doenças como a malária e o tifo durante os próximos meses.
A reportagem é publicada por El País, 11-09-2017.

No continente africano, a capital de Serra Leoa, Freetown, teve um número não oficial de 1.000 mortos, muitos dos quais menores de idade, além de centenas de milhares de afetados por uma das piores inundações da história e um mortífero deslizamento de terras.
Em Niamey, capital do Níger, milhares de pessoas precisaram ser evacuadas em poucos dias, pelo medo de que se repetisse uma tragédia humana como a de junho, com a morte de 44 pessoas durante as já frequentes chuvas torrenciais.
Nos Estados Unidos, o furacão Harvey deixou 60 vítimas em Houston, Texas. E ainda que a maioria dos leitores e leitoras saiba mais sobre a gestão do desastre em Houston do que em Freetown ou qualquer outra cidade localizada no hemisfério sul, os números de mortos indicam que as inundações do mês de agosto mataram 25 vezes mais pessoas na África do que o furacão Harvey nos Estados Unidos.
O apartheid climático se torna evidente na arena midiática, ainda que tenha sido o presidente Donald Trump a se retirar do acordo climático de Paris, e não, por exemplo, o mandatário de Serra Leoa, Ernest Bai Koroma, que reconhece a urgência de se reduzir as emissões de gases de efeito estufa.
De acordo com a Organização Mundial de Saúde, os desastres naturais exacerbados pela mudança climática provocam 60.000 mortes por ano, com uma incidência maior nos países com índices mais baixos de desenvolvimento. Segundo um índice anual elaborado pela universidade norte-americana Notre Dame, os países mais vulneráveis à mudança climática são a República Centro-africana, Chade, Eritreia, Burundi e Sudão, seguidos pelo Iêmen, Afeganistão e a República Democrática do Congo. E tal como alerta a Iniciativa de Crescimento da África, da Brookings Institution, o continente tem sete dos 10 países mais vulneráveis à mudança climática.
Já falamos do risco que correm as cidades costeiras da África pela mudança climática. Nas capas dos jornais com maior tiragem, entretanto, as vítimas de Houston adquiriram maior importância do que as de Freetown, Karachi, Mumbai e Donguan juntas. Não deveríamos começar a dar mais visibilidade e apoio às castigadas Houston do Sul global, que acumulam muito mais vítimas e afetados, problemas e desafios, do que a cidade texana? Alguém escutou palavras de apoio de Leonardo DiCaprio, ativista contra a mudança climática e protagonista do filme Diamantes de Sangue, sobre o caso dessas pedras em Serra Leoa? Mas DiCaprio fez uma doação de 1 milhão de dólares (3 milhões de reais) aos afetados texanos. Uma referência, por menor que seja, às tragédias climáticas do Sudeste Asiático por parte de Sandra Bullock, Chris Brown, JLo, as Kardashian e Beyoncé, que fizeram doações milionárias a Houston? Alguns acordes em memória das vítimas africanas por parte do Coldplay, que fez uma música em tributo a Houston?
Os que até o momento demonstraram sua solidariedade com Freetown, por exemplo, foram as próprias nações africanas. O presidente togolês, Faure Gnassingbe, e o presidente da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), Marcel Alain De Souza, doaram 500.000 dólares (1,5 milhão de reais) em agosto para alimentos e assistência médica. Senegal, por sua vez, doou 100.000 dólares (308.000 reais), e Costa do Marfim contribuiu com uma tonelada e meia de produtos médicos. E apesar do presidente Ernest Bai Koroma ter pedido ajuda urgente à comunidade internacional para enfrentar a tragédia de Freetown, a União Europeia se comprometeu a mandar somente 300.000 euros (1,10 milhão de reais) a Serra Leoa. Quantidade que comparada à doada pelo Governo da China, que fez uma contribuição de 1 milhão de dólares (3 milhões de reais) ao país...

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/571593-por-que-nos-esquecemos-das-vitimas-de-catastrofes-ambientais-da-india-e-do-continente-africano)

Nem o furacão Irma é capaz de acordar os que negam mudanças climáticas

"As mudanças climáticas dinamitam o arcabouço ideológico sobre o qual se assenta o conservadorismo contemporâneo. Admitir que a crise climática é uma realidade é admitir o fim de um projeto político e econômico, e é por isso que a direita está se rebelando contra o mundo físico", escreve Naomi Klein, escritora e ativista social, em artigo publicado por The Intercept, 12-09-2017. A tradução é de Deborah Leão.

Segundo ela, "há fundamento lógico para que a ciência tenha se tornado um campo de batalha: ela vem demonstrando reiteradamente que a forma corporativa de fazer negócios está levando a uma catástrofe que ameaça a própria espécie humana".
O artigo tem como referência o livro No Is Not Enough: Resisting Trump’s Shock Politics and Winning the World We Need da própria autora que será publicado no Brasil em novembro 2017 pela Bertrand Brasil.

 Foto: National Oceanic and Atmospheric Administration, NOAA

Eis o artigo.
Segundo ela, há um fundamento lógico para que a ciência tenha se tornado um campo de batalha: ela vem demonstrando reiteradamente que a forma corporativa de fazer negócios está levando a uma catástrofe que ameaça a própria espécie humana.
Enquanto uma das tempestades mais fortes já registradas caía sobre os Estados Unidos, com boa parte do estado da Flórida sob ordem de evacuação, o presidente Donald Trump se empenhava em resolver uma questão de grande urgência.
Trump reuniu seu gabinete em Camp David e disse que não havia tempo a perder. Diante do avanço do furacão Irma, que poderia devastar enormes áreas dos estados da Flórida, Geórgia, Carolina do Sul e Carolina do Norte, havia chegado a hora de realizar substanciais… reduções de impostos.
Sim, foi isso mesmo. O presidente não estava preocupado em levar auxílio substancial aos mais atingidos pelo desastre, nem em realizar uma mudança substancial nos sistemas de transporte e energia, buscando reduzir a emissão dos gases do efeito estufa para que tempestades como o Irma parem de acontecer três vezes por ano. Sua prioridade era realizar alterações substanciais ao código tributário. Ele alega a intenção de aliviar a classe média, mas na verdade as mudanças trariam a maior redução de tributos das últimas décadas para as grandes empresas e dariam também uma boa ajuda para os muito ricos.
Muitos imaginaram que a experiência de viver tão de perto as catástrofes desse verão – Houston submersa, Los Angeles consumida pelas chamas, e agora os estados do Sul assolados pelo Irma – pudesse servir de alerta para os republicanos que negam mudanças climáticas.
O que o pronunciamento de Trump a seu gabinete deixa claro, porém, é que o único efeito do Irma será levá-lo a redobrar esforços em sua temerária agenda econômica. Acompanhado pelo Secretário de Estado, Rex Tillerson, e pelo Secretário de Comércio, Wilbur Ross, o presidente explicou que iriam discutir “drásticas reduções de impostos e uma reforma tributária”. Disse ainda: “penso que agora, depois do que aconteceu com o furacão, vou pedir pressa.”
Algumas pessoas observaram que se trata de um perfeito exemplo do que denominei “doutrina do choque” – o uso de desastres como pretexto para impor políticas radicais em prol de grandes corporações. E é mesmo um caso clássico, em especial porque, no momento em que Trump deu tais declarações, o furacão Irma se encontrava no auge de sua ameaça potencial.
O timing do presidente revela ainda mais sobre os verdadeiros motivos que impulsionam a negação das mudanças climáticas por parte da direita americana. Não se trata de uma rejeição à ciência, mas de uma rejeição às consequências da ciência. Para resumir, se a ciência está correta, significa que é preciso jogar fora todo o projeto econômico que dominou as estruturas de poder nos EUA desde a presidência de Ronald Reagan, e os negacionistas sabem disso.
Se as mudanças climáticas estão por trás das catástrofes que estamos vendo agora – e elas, de fato, estão -, isso não significa apenas que Trump precisa pedir desculpas e admitir que estava errado quando chamou o fenômeno de “invenção dos chineses”, mas também que ele precisaria descartar todo o seu plano tributário, porque esse dinheiro de impostos (e um tanto mais) será necessário para custear um rápido abandono dos combustíveis fósseis.
Significa ainda que ele precisaria descartar seu plano de desregulamentação, porque se vamos mudar a forma como usamos energia em nossas vidas, será necessária ampla regulação para gerir e fazer cumprir essa mudança. Obviamente, isso não atinge apenas Trump, mas todos os governadores do Partido Republicano que negam as mudanças climáticas, e cujos estados estão atualmente sofrendo as consequências. Todos teriam que jogar no lixo uma visão de mundo distorcida, que considera que o mercado está sempre certo, que a regulação está sempre errada, que o privado é melhor que o público, e que os tributos que custeiam os serviços públicos são a pior coisa que existe.
O que precisa ser rapidamente compreendido é que, a essa altura, só vamos conseguir lidar com as mudanças climáticas por meio de ações coletivas que restrinjam drasticamente o comportamento de grandes corporações como Exxon Mobil e Goldman Sachs (ambas fartamente representadas na reunião de gabinete de Trump). As ações climáticas exigem investimento na esfera pública – em novas redes de energia, transporte público, trens urbanos e eficiência energética – numa escala só vista antes da Segunda Guerra Mundial. Para que isso aconteça, é preciso aumentar a tributação sobre os muito ricos e sobre as grandes empresas, exatamente quem Trump está determinado a beneficiar com as mais generosas reduções de impostos, isenções e exceções regulatórias.
Em resumo, as mudanças climáticas dinamitam o arcabouço ideológico sobre o qual se assenta o conservadorismo contemporâneo. Admitir que a crise climática é uma realidade é admitir o fim de um projeto político e econômico, e é por isso que a direita está se rebelando contra o mundo físico (o que levou centenas de milhares de cientistas ao redor do mundo a participar da Marcha pela Ciência em abril deste ano, defendendo coletivamente uma ideia que não deveria nem precisar de defesa: é bom entender o máximo possível do mundo em que vivemos). Há, no entanto, fundamento lógico para que a ciência tenha se tornado um campo de batalha: ela vem demonstrando reiteradamente que a forma corporativa de fazer negócios está levando a uma catástrofe que ameaça a própria espécie humana.
A questão não atinge apenas a direita, mas também o centro. O que os liberais tradicionais dizem há décadas sobre as mudanças climáticas é que só precisamos fazer alguns ajustes no sistema atual para ficar tudo certo. Capitalismo estilo Goldman Sachs, mas com painéis solares. No estágio atual, no entanto, o desafio que se apresenta é muito mais profundo.
Para reduzir nossas emissões no ritmo necessário para evitar um aquecimento catastrófico é preciso questionar a centralidade do aumento do consumo na forma como avaliamos o progresso econômico. É preciso reconstruir nossa economia em aspectos fundamentais, que incluem o combate às desigualdades econômicas e raciais sistêmicas que transformam desastres como [os furacões] Harvey e Katrina em catástrofes humanas. Em determinado sentido, portanto, os membros do gabinete de Trump demonstram, com sua desesperada necessidade de negar a realidade do aquecimento global ou minimizar suas implicações, reconhecer uma verdade essencial: para evitar o caos climático, precisamos enfrentar o fundamentalismo do livre mercado que tomou conta do mundo desde a década de 80.
Trump e seus colegas que negam as mudanças climáticas (e também os que as minimizam) enxergam nessa ameaça à sua visão de mundo uma crise tão existencial que é difícil até aceitar que a possibilidade passe por suas mentes. É compreensível, pois o aquecimento global tem implicações radicalmente progressistas. Se ele for real – e evidentemente que é –, as oligarquias não podem continuar a praticar seus desmandos sem regras.
À medida que a realidade do colapso climático mostrar sua face assustadora, cada vez mais pessoas serão capazes de entender suas óbvias implicações políticas e econômicas. Enquanto isso não acontece, precisamos parar de esperar que desastres “acordem” os negacionistas mais arraigados. Eles vivem um sonho muito bom, muito confortável e muito rentável. No entanto, já que o presidente se vale dos desastres simultâneos – os furacões Harvey e Irma, a Coreia do Norte, e qualquer outro inferno que possa explorar – para impor clandestinamente sua cruel agenda econômica, é nosso papel estar bem alertas para a realidade: é uma questão de sobrevivência da humanidade impedir que prevaleçam Trump e a visão de mundo que ele representa.

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/571616-nem-o-furacao-irma-e-capaz-de-acordar-os-que-negam-mudancas-climaticas)

Emissões de carbono podem aumentar até 90% na Amazônia em 50 anos

A degradação florestal na Amazônia, por fogo e eventos de secas extremas, tem se tornado frequente nos últimos anos. Para avaliar quais são os próximos cenários, cientistas aprimoraram um modelo que analisa o comportamento do fogo e a dinâmica de carbono, prevendo os padrões futuros da potencial degradação no bioma amazônico.
A informação é publicada por IPAM, 14-09-2017.

Esse modelo permite aos pesquisadores, por exemplo, prever que se uma seca como a de 2010 ocorrer em meados do século, entre 2040 e 2069, cerca de 550.000 km2, uma área maior que a França, estará vulnerável a incêndios florestais intensos.
O estudo, publicado na revista Environmental Research Letters dentro da edição especial Focus on Changing Fire Regimes, considera o aumento da temperatura e a diminuição da precipitação como os principais fatores para a frequente intensidade de fogo no futuro.
Segundo um dos autores, Bruno Lopes, estudante de doutorado da Universidade Federal de Viçosa (UFV), a pesquisa é inédita por desenvolver um modelo que representa a seca e seus efeitos na mortalidade de árvores, bem como as suas interações com os regimes de fogo.
“Esses aumentos previstos na intensidade do fogo podem ser até 90% mais letais para as árvores da floresta amazônica e consequentemente ocasionar um acréscimo nas emissões de carbono florestal na mesma proporção”, afirma Lopes.

O equilíbrio climático da Amazônia é perturbado por uma série de fatores, como mudanças de uso da terra, aquecimento global, incêndios florestais, elevadas concentrações de CO2 na atmosfera e aumentos na frequência e intensidade das secas. Desde meados de 1970 ocorre um aquecimento médio de cerca de 0,26°C por década nas regiões de floresta tropical. Os modelos climáticos globais sugerem um aquecimento maior em todas as regiões de florestas tropicais entre 3 e 8°C até ao final do século. Isto aponta que em 2100 as temperaturas tropicais atingirão valores nunca antes alcançados, fora da variabilidade natural dos últimos 2 milhões de anos.
Modelos de fogo e os impactos nos estoques de carbono da vegetação se destacam pela importância na investigação de um limiar crítico de temperatura e intensidade de seca, e consequentes alterações nos regimes de fogo que poderiam levar a um declínio substancial da floresta em um futuro próximo. Compreender e monitorar as respostas da vegetação em relação às mudanças climáticas é essencial para ampliar as opções de políticas de conservação.
“Assim, podemos ter um novo modelo de desenvolvimento agropecuário com uso sustentável do fogo em áreas vulneráveis e a criação de um plano nacional de combate a incêndios para a Amazônia, tendo implicações diretas na biodiversidade e ciclo de carbono”, defende Lopes.
Os dados do modelo tiveram como base experimentos realizados na Fazenda Tanguro, em Querência (MT), onde o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia – IPAM desenvolve pesquisas que analisam como conciliar a produção de alimentos, conservação ambiental e mudanças climáticas.

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/571726-emissoes-de-carbono-podem-aumentar-ate-90-na-amazonia-em-50-anos)

Denúncia de Janot contra cúpula do PMDB dá pra rir e pra chorar

Texto escrito por José de Souza Castro:

Mais um teatrinho no Judiciário. Na última sexta-feira, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, denunciou cinco senadores do PMDB, além do ex-senador José Sarney e do ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado. Todos acusados de receberem propina num total de R$ 864 milhões e de gerarem prejuízo de R$ 5,5 bilhões aos cofres da Petrobras e de R$ 113 milhões aos da Transpetro. Os senadores são estes: Renan Calheiros (AL), Romero Jucá (RR), Edison Lobão (MA), Jader Barbalho (PA) e Valdir Raupp (RO).
Janot termina seu mandato dia 17 de setembro em meio a uma enxurrada de denúncias. Teatrinho. Isso fica claro quando se examina o caso de um dos denunciados, Jáder Barbalho.
Com longa carreira política, ele sempre escapou dos vários processos a que respondeu. Um dos mais célebres foi o Escândalo da Sudam, em pleno governo Fernando Henrique Cardoso. Entre 1994 e 1999, as fraudes na Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia teriam ultrapassado R$ 2 bilhões.
Barbalho foi um dos 25 acusados. Quando o escândalo surgiu, ele era presidente do Senado e renunciou ao mandato. E FHC tomou medida radical: extinguiu a Sudam, para abafar o caso. O PT reagiu, entrando no Supremo Tribunal Federal contra isso. Logo no começo do governo Lula, a Sudam renasceu.
Até hoje, ninguém foi condenado pelos prejuízos à Sudam. Em 2005, o ministro Gilmar Mendes, nomeado por FHC, era relator do caso e votou pelo seu arquivamento, alegando falhas nas peças acusatórias, sendo acompanhado pelo plenário do Supremo. Barbalho e todos os outros se livraram, porque alguns dos acusados tinham foro privilegiado e o processo não poderia ter sido remetido à Justiça de primeiro grau. Desde esse erro, anos já haviam se passado, como veremos ao final deste artigo.
Sudam foi apenas um dos 45 escândalos que marcaram o governo FHC, como se vê neste artigo publicado pela Revista Consciência em julho de 2002.
A Sudam, criada em outubro de 1966 pelo general Castelo Branco, transformou-se num feudo de Jáder Barbalho quando José Sarney presidiu o Brasil e Barbalho governou o Pará. Mais tarde, no governo FHC, Barbalho disputou com Antônio Carlos Magalhães, do PFL baiano, a presidência do Senado. O baiano venceu, mas acabou renunciando ao mandado, acusado de ter violado o painel eletrônico do Senado. Em seguida, Jáder se elegeu com apoio ostensivo de José Serra e do PSDB, mas também renunciou para não ser cassado em razão do escândalo da Sudam.
Em fevereiro de 2012, a “Folha de S.Paulo” publicou reportagem, revelando que erros cometidos por juízes e procuradores contribuíram para que um processo em que o senador Jader Barbalho (PMDB-PA) é réu se arrastasse por uma década e meia sem chegar a uma conclusão. Vale transcrever aqui a reportagem de cinco anos atrás, para mostrar os caminhos e descaminhos da Justiça, confirmando também a nossa desesperança de que agora, com a denúncia de Janot, será diferente:


“Um deslize do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) que foi o primeiro relator do caso causou um atraso de um ano no depoimento das testemunhas apresentadas pela acusação e pela defesa.
Uma discussão sobre o foro competente para julgar o senador na época em que ele era deputado federal parou tudo por dois anos e meio.
A insistência da Procuradoria-Geral da República em ouvir uma testemunha que as autoridades não sabiam onde encontrar provocou mais dois anos e oito meses de atraso no processo.
Os três percalços fizeram o caso se arrastar por mais de seis anos sem que nenhuma outra providência pudesse ser tomada para investigar Jader e levá-lo a julgamento.
O caso teve início há 14 anos e 10 meses, quando foram descobertas fraudes na distribuição dos incentivos fiscais da antiga Sudam (Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia).
A Sudam era um feudo político de Jader, na época um dos homens-fortes do PMDB. O escândalo criado pelas investigações teve grande repercussão, levando-o a renunciar ao mandato de senador para não ser cassado.
O processo deu tantas voltas nesses anos todos que Jader conseguiu voltar ao Senado, onde agora convive no plenário com o procurador que o denunciou, Pedro Taques (PDT-MT), que se desligou do Ministério Público e se elegeu senador em 2010.
A investigação começou em abril de 1997 e se estendeu por cinco anos. Em média, a Polícia Federal leva pouco mais de um ano para concluir um inquérito.
Jader, que nega ter participado das fraudes na Sudam, foi denunciado pelo Ministério Público à Justiça Federal de Mato Grosso há dez anos, quando estava sem mandato e concorrendo a uma vaga na Câmara dos Deputados.
Mas ele se elegeu deputado logo após o início do processo, recuperando seu direito a foro privilegiado no STF.
Os juízes que analisaram o caso em Cuiabá (MT) e a Procuradoria-Geral da República levaram mais de dois anos para enviar o processo ao STF porque ficaram discutindo se deviam separar a parte referente a Jader em vez de mandar logo tudo de uma vez.
No STF, um erro crucial foi cometido pelo ministro Carlos Velloso, hoje aposentado. Nomeado relator do processo, ele mandou ouvir as testemunhas de acusação ao mesmo tempo que as testemunhas de defesa.
Como o Código de Processo Penal manda ouvir primeiro as testemunhas de acusação, o descuido de Velloso permitiu que os advogados de Jader ganhassem tempo alegando que seu direito a ampla defesa fora prejudicado pelo Supremo.
Velloso recorreu a decisões anteriores do STF para justificar sua decisão e lamentou a estratégia dos advogados, mas seus colegas deram razão a Jader e o tribunal viu-se obrigado a enviar de novo as ordens para tomada dos depoimentos das testemunhas.
O obstáculo seguinte foi criado pela Procuradoria, que fez questão de ouvir um caseiro de Brasília que anos antes dissera à polícia ter testemunhado encontros de Jader com um dos principais beneficiários das fraudes na Sudam. O caseiro sumiu e nunca mais foi encontrado.
O processo foi devolvido pelo Supremo à Justiça Federal de Mato Grosso no ano passado, quando Jader ficou sem mandato e impedido de tomar posse como senador por ter sido barrado pela Lei da Ficha Limpa.
Em dezembro, o STF decidiu que a lei não se aplicava ao seu caso e ele tomou posse no Senado, recuperando o direito ao foro especial. No fim de janeiro, o processo voltou ao Supremo.”

(fonte: https://kikacastro.com.br/2017/09/11/denuncia-janot-pmdb/#more-14420)