domingo, 10 de dezembro de 2017

A manipulação da indústria do açúcar

Nos EUA, documentos revelam: há 50 anos os produtores ocultam estudos que associam consumo ao endurecimento das artérias. Para desviar atenção, culparam-se as gorduras
Por Anahad O’Connor, no New York Times | Tradução: Inês Castilho

Nos anos 1960, a indústria açucareira financiou uma pesquisa com animais sobre os efeitos do consumo de açúcar na saúde cardiovascular – e então enterrou o dados, quando eles sugeriram que o açúcar pode ser nocivo. É o que mostram documentos históricos recentemente divulgados.
Os documentos internos da indústria do açúcar foram descobertos por pesquisadores da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF), e descritos em novo relatório publicado no jornal PLOS Biology. Os autores do relatório dizem que ele traz evidências de que a indústria açucareira tentou desinformar o público e proteger seus interesses econômicos, suprimindo pesquisas preocupantes   uma tática usada pela indústria do tabaco.

Os documentos mostram que, em 1968, um grupo comercial chamado Fundação para Pesquisa sobre o Açúcar (Sugar Research Foundation) financiou um projeto de pesquisa com animais para estudar a conexão entre açúcar e saúde do coração. Mas quando a pesquisa apontou um mecanismo pelo qual o açúcar pode promover não somente doença cardíaca como também câncer de bexiga, o grupo interrompeu o estudo e nunca publicou seus resultados.
A indústria açucareira vem há muito tempo insistindo que o açúcar não tem um papel especial na promoção de obesidade, diabetes ou doença cardíaca, embora numerosos estudos de pesquisadores independentes tenham concluído diferentemente. Stanton Glantz, professor de medicina na Universidade da Califórnia em São Francisco e autor do novo relatório, afirma que muito embora os documentos descobertos tenham 50 anos, eles são importantes porque apontam para uma estratégia que há décadas minimiza os efeitos potenciais do consumo de açúcar na saúde.
“Isso ajuda a comprovar que a indústria açucareira tem uma longa história de manipulação da ciência”, diz Glantz.
Em declaração pública, a Associação do Açúcar dos EUA questionou o novo relatório, chamando-o de “coleção de especulações e suposições sobre eventos ocorridos há quase cinco décadas, conduzida por um grupo de pesquisadores e financiada por indivíduos e organizações que são reconhecidamente críticos da indústria açucareira.” O estudo atual foi financiado principalmente pelos Institutos Nacionais de Saúde e pela Fundação Laura e John Arnold, uma fundação privada que deu dinheiro em apoio à tributação de bebidas açucaradas.
A declaração afirma que o açúcar “consumido com moderação é parte de um estilo de vida equilibrado”, e enfatiza que a Associação do Açúcar manteve-se “comprometida com o apoio a pesquisas para entender melhor o papel do produto na evolução dos hábitos alimentares dos consumidores”.
Os documentos descritos no novo relatório são parte de um conjunto de comunicações internas da indústria do açúcar que Cristin E. Kearns, professor assistente da Escola de Odontologia da UCSF, reuniu nos últimos anos em arquivos de bibliotecas de várias universidades.
No ano passado, um artigo do The New York Times destacou alguns dos documentos descobertos por Kearns anteriormente. Eles mostravam que, nos anos 60, a indústria açucareira lançou campanha  para conter “atitudes negativas em relação ao açúcar”, entre outras coisas financiando pesquisas que pudessem produzir resultados favoráveis. A campanha foi orquestrada por John Hickson, alto executivo da associação do açúcar que depois aderiu à indústria do tabaco. Como parte da campanha, Hickson pagou clandestinamente dois influentes cientistas de Harvard para publicar, em 1967, um importante trabalho de revisão que minimizava a relação entre açúcar e saúde cardíaca, transferindo a culpa para as gorduras saturadas.
O novo relatório revelou documentos internos adicionais da indústria açucareira daqueles tempos. Eles mostram que, naquele momento, Hickson estava preocupado com estudos emergentes indicando que as calorias do açúcar eram mais prejudiciais à saúde do coração do que calorias de carboidratos ricos em amido tais como grãos, feijões e batata. Hickson suspeitou que isso poderia ocorrer porque as bactérias que residem no intestino, conhecidas coletivamente como microbiota, metabolizavam de maneira diferente o açúcar e os amidos.
Em 1968, a organização açucareira deu início ao que chamou de Projeto 259. O grupo recrutou o pesquisador W.F.R. Pover, da Universidade de Birmingham, na Inglaterra, pagando-lhe o equivalente hoje a US$ 187 mil para conduzir um estudo de laboratório com animais. O objetivo do experimento era testar se ratos e cobaias sem bactérias intestinais respondiam de forma diferente à dos animais normais ao açúcar e aos amidos.
Os resultados iniciais, descritos num relatório interno da indústria em 1969 como “de particular interesse”, trouxeram uma preocupação. Os ratos alimentados com sacarose, principal componente do açúcar de cana, produziram níveis elevados da enzima beta-glucuronidase, que outros três estudos do mesmo período associavam a artérias e bexiga endurecidas.
“Essa é uma das primeiras demonstrações de diferença biológica entre ratos alimentados com sacarose e com amido”, afirmou o relatório interno da indústria.
Os documentos mostram que Pover descobriu outra coisa “altamente significativa”. A fase inicial da pesquisa parecia confirmar que os efeitos adversos do açúcar sobre o colesterol e os triglicérides eram resultado da fermentação e metabolização por bactérias intestinais. Pover disse naquele momento que estava perto de concluir o Projeto 259, mas precisava estender o estudo para provar “conclusivamente” que os efeitos observados eram mediados pela microbiota.
Mas a despeito de ter recebido fundos para uma extensão prévia da pesquisa, a associação açucareira decidiu desativar o Projeto 259 e acabar com seu financiamento. Num relatório interno de 1970, Hickson apresentou a seus pares executivos do açúcar estudos que poderiam “evocar informação útil e significativa” para a indústria, e descreveu o valor do Projeto 259 como “zero”. O relatório da indústria sugeria que Pover estava desapontado e observava que “manifestou a esperança de obter financiamento de outras fontes.”
Ele nunca conseguiu. A pesquisa nunca foi publicada, e a razão não está totalmente clara. Tanto Pover como Hickson não estão mais entre os vivos.
Um porta-voz da Associação do Açúcar disse que o grupo reviu seu arquivo de pesquisas e determinou o fim do estudo de Pover porque ele estava atrasado, havia estourado o orçamento e sobrepôs-se a uma reestruturação organizacional.
“Havia planos de continuar o estudo com financiamento da Fundação Britânica de Nutrição”, disse o porta-voz, “mas por razões desconhecidas para nós isso não ocorreu.”
Contudo, a professora de nutrição, estudos alimentares e saúde pública da Universidade de Nova York, Marion Nestle disse que os documentos internos da indústria são chocantes porque fornecem rara evidência de que a indústria alimentícia suprimiu uma pesquisa que não lhe interessava, prática que vem sendo documentada entre as empresas de tabaco, farmacêuticas e outras indústrias.
“Pelo que diz esse documento, a indústria açucareira não estava interessada em responder questões em aberto sobre se o açúcar pode ser prejudicial a ratos ou, dadas as sugestões preliminares de possível dano, fazer estudos posteriores para descobrir se sim ou não”, disse ela. “Ao invés disso, deteve a pesquisa quando os resultados pareceram desfavoráveis.”
Geralmente, pesquisas com ratos e outros animais de laboratório não são consideradas persuasivas como dados para estudos humanos. Mas nos anos 1960, disse Kearns, dados de pesquisas com animais tinham muito mais peso. Naquele tempo, uma lei federal baniu aditivos para alimentos que demonstraram induzir câncer em animais. E em 1969, por exemplo, a Food and Drug Administration (FDA, Agência de Alimentos e Drogas) baniu o ciclamato, um adoçante artificial muito popular, depois que pesquisas demonstraram que causava câncer de bexiga em ratos.
Naquele momento, a Associação do Açúcar considerou o ciclamato uma ameaça para o seu mercado, e não apenas fez lobby sobre a FDA para bani-lo como também financiou parte das pesquisas que o relacionavam a problemas de saúde.
Hickson deixou a indústria açucareira no início dos anos 1970 para trabalhar no Conselho de Pesquisa sobre o Cigarro, organização da indústria de tabaco. Em 1972, um memorando interno da indústria de tabaco sobre Hickson afirmava que ele tinha reputação de manipular a ciência para alcançar seus objetivos. O memorando confidencial descrevia Hickson como “um excelente político científico que havia sido bem sucedido na condenação do ciclamato, em nome do Conselho de Pesquisa do Açúcar, a partir de evidências um tanto instáveis”.

(fonte:  http://outraspalavras.net/destaques/a-doce-manipulacao-da-industria-do-acucar/_

Robótica eliminará até 800 milhões de empregos até 2030

Entre 400 e 800 milhões de pessoas em todo o mundo serão afetadas pela automatização e terão de encontrar uma nova ocupação até 2030, segundo um relatório realizado pela consultoria McKinsey Global Institute.
A reportagem é de Ricardo Della Coletta e publicada por El País, 02-12-2017.

O impacto das novas tecnologias na vida dos trabalhadores será sentido sobretudo nas economias mais desenvolvidas. Segundo o relatório, até um terço da força de trabalho de Estados Unidos e Alemanha terá de aprender novas habilidades e encontrar outra ocupação. No Japão, a porcentagem de afetados poderá chegar a quase a metade dos trabalhadores.
Os efeitos do fenômeno calculados pela consultoria variam segundo a projeção que se leve em consideração: se a automatização das economias avança a um ritmo intenso ou gradual.
Os responsáveis pelo documento da McKinsey afirmam que os baixos salários no México, por exemplo, levarão a um impacto menos intenso da automatização no país latino-americano: do total de 68 milhões de pessoas que comporão a força de trabalho mexicana em 2030, cerca de 9 milhões serão afetados.
“O México tem uma população jovem e uma força de trabalho que está crescendo. O nível dos salários pode diminuir a implementação da automatização no país”, destaca a consultoria.
A McKinsey analisou o efeito da robotização em 46 economias que representam quase 90% do PIB mundial. Além disso, fez projeções detalhadas do impacto da automatização em seis países: Estados Unidos, China, Alemanha, Japão, México e Índia. A consultoria destaca que os países têm de encontrar formas de realocar os trabalhadores substituídos pela automatização. “Nos cenários em que alguns dos substituídos levam anos para encontrar um novo trabalho, o desemprego cresce em curto e médio prazo. Em longo prazo, se reduz o desemprego e o mercado de trabalho se ajusta, mas com um crescimento menor dos salários”, afirmam.
Além disso, as mudanças tecnológicas atingirão com mais força os trabalhadores com menos estudo. As pessoas com formação universitária e pós-graduação serão menos afetadas. Entre as atividades mais prejudicadas destacadas pela consultoria estão os operadores de máquinas e os funcionários de redes de fast food, além de trabalhadores que fazem coleta e processamento de dados.
“As profissões altamente dependentes das atividades que identificamos como mais suscetíveis à automatização — trabalhos físicos ou processamento de dados — serão provavelmente as mais afetadas”, afirmam os responsáveis pelo relatório. “Ocupações que exigem alto nível de especialização ou uma alta exigência de interação social e emocional serão menos suscetíveis à automatização até 2030”, dizem.
Apesar dos efeitos esperados no mercado de trabalho, os pesquisadores destacam que a inovação, o crescimento econômico adequado e os investimentos podem gerar empregos suficientes para compensar os postos de que serão perdidos pela automatização.

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/574292-robotica-eliminara-ate-800-milhoes-de-empregos-ate-2030)

Somos todos agentes da História

Por Jaime Pinsky, historiador e editor, doutor e livre docente da USP, professor titular da Unicamp.
Seres humanos têm história. A natureza também tem. A diferença é que quando nos referimos ao que aconteceu com as rochas, os vulcões, os rios e os oceanos falamos de história natural; e chamamos de história social quando falamos daquilo que se passou com o ser humano vivendo em sociedade. Por consequência, nada relativo ao comportamento humano é natural, como frequentemente qualificamos atitudes que nos parecem comuns, esperadas. A rigor, deveríamos utilizar a expressão “é social” em vez de “é natural”: a maior parte dos nossos comportamentos decorrem de nossa vivência, de nossa relação com outros membros da sociedade em que vivemos, não são atitudes determinadas pela natureza. Sociedades diferentes induzem comportamentos diferentes. Um terremoto é natural. A água descer da montanha e formar riachos é natural. A prática religiosa é social. A hierarquia, a existência de pobres e ricos, de poderosos e humildes é social.
É verdade que existe uma fronteira ainda não estabelecida com clareza entre o que é determinação biológica e o que é fruto de aprendizagem. Certas habilidades, alguns tipos de inteligência, comportamentos como a agressividade, por exemplo. Esse assunto ainda não foi resolvido pela ciência pois, convenhamos, é muito difícil realizar experiências com gente (mesmo porque a humanidade não quer voltar a monstruosidades como as perpetradas pelo monstro nazista  Dr. Mengele). De qualquer forma, não há dúvida de que comportamento e valores são diferentes em diferentes sociedades e mesmo o correto e o incorreto, o legal e o ilegal variam em diferentes agrupamentos humanos em diferentes espaços e tempos.
Em Atenas, durante o período clássico, era socialmente aceitável certas práticas homossexuais, particularmente quando realizadas por homens mais velhos com garotos na puberdade ou recém saídos dela. Vinte e cinco séculos depois muitas sociedades modernas condenavam e até puniam qualquer manifestação de homoafetividade. Por outro lado em Atenas grande parte da população não tinha direitos políticos. Escravos, estrangeiros e mulheres em geral não tinham direito de voz ou voto na Ágora, onde se praticava a democracia direta e cada cidadão (desde que não fosse criança, mulher, escravo ou estrangeiro) defendia pessoalmente seus interesses e pontos de vista. Nas sociedades modernas todos os adultos são considerados cidadãos, não só uma elite como em Atenas. A cidadania em Atenas era menos inclusiva do que nos países democráticos atuais? Era diferente. O conceito de cidadania, assim como sua prática, é fruto de sua época. Com isso em mente fica mais fácil incorporar a ideia da historicidade dos conceitos e das práticas históricas. Que, não custa repetir, não são naturais. São sociais.
Quando Simone de Beauvoir diz que ninguém nasce mulher, mas se torna mulher, é claro que ela não está se referindo à existência, ou não, de uma vagina, de seios, de barba ou pênis. Ela não está falando de biologia, mas de sociedade. Não pensa em história natural, mas em história social. A mulher (biologicamente falando), ao longo de sua vida, de seus relacionamentos sociais, dos papeis que desempenha transforma-se em mulher (historicamente falando). Da mesma forma, é claro, acontece com o homem. Somos todos determinados socialmente.
Aqui podemos entrar em questões muito delicadas. Se um garoto vive em uma favela (perdão, uma comunidade) onde o Estado praticamente não chega (nem com benefícios, nem com repressão) e acaba sendo cooptado pelo tráfico, tornando-se um bandido, teria sido ele determinado socialmente, não lhe cabendo nenhuma responsabilidade individual pelas suas ações, consideradas crimes pelo Estado? Se um camarada é empresário em uma área em que a propina se tornou um caminho histórico para a prestação de serviços ao Governo e se sua empresa não pode sobreviver sem serviços prestados ao Governo ou às estatais, terá ele um habeas corpus preventivo, um perdão antecipado, uma vez que ele precisa viabilizar sua empresa, pagar seus funcionários?
Se um político faz parte de um partido que apregoa-se preocupar com a desigualdade social no país e sabe que será necessário muito dinheiro para eleger deputados e senadores, o fato de ele aceitar dinheiro de campanha de grandes empresários em troca de favores será um mal, ou um serviço à Nação?
Estes são falsos problemas. Temos nossa história, mas não perdemos abrir mão das escolhas individuais. Cabe-nos usar o livre arbítrio. Não podemos reproduzir aquilo que a ética condena e que é danoso para o conjunto do tecido social. E a Lava Jato está explicando isso muito bem a quem ainda não entendeu.

Novos textos no Blog da Revista Espaço Acadêmico

Informo que foram publicados novos textos no BLOG DA REA:


Notas acerca da relação entre marxismo e a questão da mulher

MICHEL GOULART DA SILVA
Para o pensamento marxista, a emancipação da mulher passa pela inevitável derrubada do capitalismo e pela construção do socialismo. Contudo, dialeticamente, a mera superação do capitalismo não garantirá a efetiva emancipação das mulheres, afinal a transformação da ordem econômica não leva automaticamente à superação da opressão das mulheres. Esse problema … Continue lendo

Mamografia: o debate necessário que continua sendo adiado

GILSON DANTAS
Mamografia: alguma coisa está sendo ocultada das mulheres que submetem suas mamas aos RX? Em uma sociedade onde tudo vem sendo mercantilizado e sendo convertido em fonte de lucro, a medicina apresenta uma intransponível dificuldade em ser transparente e envolvida até o fim com o bem-estar do chamado paciente. Um exemplo é a … Continue lendo

Empregados repudiam presença do juiz Sérgio Moro em evento na sede da Petrobras


Texto escrito por José de Souza Castro:

A Petrobrás realiza nesta sexta-feira, em sua sede, palestra do juiz Sérgio Moro, em virtude do Dia Internacional de Combate à Corrupção. Na véspera, um manifesto dos petroleiros, com uma centena de assinaturas, foi divulgado em repúdio ao convite feito ao juiz da Lava Jato e visando evidenciar que ele não conta com aprovação plena de toda a Petrobrás.
Também nesta quinta-feira foi divulgado amplamente pela imprensa que a Petrobrás recebeu R$ 716 milhões em razão do trabalho da Lava-Jato. Para quem ganha pouco, parece um dinheirão. Não para os que assinam o manifesto, seja lá quanto recebem de salário na Petrobrás.
“Com a justificativa de recuperar o dinheiro roubado dos cofres públicos e punir poderosos, a operação avança gerando um rastro de destruição econômica que não é compensada por seus supostos benefícios”, argumenta o documento que, eu suspeito, será amplamente ignorado pela imprensa.
As cinco famílias que praticamente controlam a imprensa no Brasil não gostam de coisas como estas ditas pelos empregados da Petrobrás:
“Esta ‘parceria’ entre judiciário e mídia criou uma narrativa que vem justificando a destruição do país, da própria Petrobrás, e entrega as nossas riquezas ao capital estrangeiro. Não estamos afirmando que a Operação Lava-Jato é a única responsável por todos os males que atualmente recaem sobre o Brasil, mas é o principal fator que viabilizou a ascensão ao poder central da quadrilha de Michel Temer, trazendo consigo inúmeros retrocessos ou acelerando aqueles iniciados pelo PT.”
O manifesto lança dúvida também sobre o valor monetário recuperado para a Petrobrás pela Operação Lava-Jato. É controverso, diz: “Reportam-se as cifras de 1 bilhão, 4 bilhões e até 10 bilhões, as quais seriam provenientes de pagamento de multas, acordos de leniência, delações premiadas e bens bloqueados”.
Lembra estudo feito em 2015 que estimou impacto de R$ 140 bilhões no PIB brasileiro, representando uma perda de cerca de 2,5%, como um “custo” da Lava Jato. “Para se ter ideia, em 2014, quando esta Operação teve início, o PIB era de US$ 2,456 trilhões, terminando 2016 em US$ 1,796 trilhões por vários fatores, inclusive pela paralisia trazida pelo pretenso combate a corrupção. Logo, as perdas foram muito mais significativas que os ganhos, gerando um processo de desindustrialização no país com retorno a uma economia voltada ao setor primário”, afirmam os signatários do manifesto.
Citam também estudo do Dieese, segundo o qual a estimativa de perda, em razão da Lava Jato, foi de mais de um milhão de empregos, fragilizando a Petrobrás e as empresas da cadeia produtiva do óleo e gás, num momento de sérias dificuldades para essa indústria no mundo.
Além disso, prossegue o manifesto, “a fragilização das empresas de construção pesada e o ajuste fiscal reduziram o volume e o ritmo de investimentos públicos em infraestrutura; só as obras paralisadas somam R$90 bilhões que foram jogados fora. Portanto, o valor de R$ 38,1 bilhões que a Força-Tarefa espera recuperar no total não chega nem perto do prejuízo causado à indústria, à economia brasileira e à elevação da taxa de desemprego”.
Quem se interessou pode ler a íntegra do manifesto aqui, incluindo os nomes dos subordinados de Pedro Parente que tiveram a ousadia de contestar o poderoso chefão, sobre o qual já tive o desprazer de escrever algumas vezes neste blog.
Já escrevi tanto sobre a Petrobrás que pareço militante da campanha “O Petróleo é nosso”, aquela do governo Vargas. Na época, eu tinha uns 7 anos, vivia na roça e me preocupava em aprender a matar passarinhos com o estilingue. Matar passarinho tornou-se politicamente incorreto. Ir matando aos poucos nossa maior empresa estatal e dando, aos jorros, nosso pré-sal aos gringos, não.
(fonte: https://kikacastro.com.br/2017/12/08/empregados-repudiam-presenca-do-juiz-sergio-moro-em-evento-na-sede-da-petrobras/#more-14783)

Novo número da Revista Espaço Acadêmico

Revista Espaço Acadêmico
v. 17, n. 199 (2017): Revista Espaço Acadêmico, n. 199, dezembro de 2017
Sumário
http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/issue/view/1425

administração pública
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Abordagem discursiva da ação pública: o discurso no cotidiano da gestão pública (01-10)
        Leandro de Carvalho

crítica literária
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Relação entre arte e política: sobre a carta de Friedrich Engels a Margaret Harkness (11-21)
        Henrique Wellen

direito
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Sombras da educação brasileira: uma abordagem filosófica do sentido e o alcance do artigo 205 da Constituição Federal (22-34)
        Diogo Valério Félix

Quadro normativo destinado a proteção do idoso no município de Maringá (PR) (35-48)
        João Francisco Toso

educação
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Além do arco e flecha: a construção étnico-identitária a partir da educação bilíngue indígena Potiguara-PB (49-58)
        Pedro Lôbo dos Santos,  Eduardo Dias da Silva

educação & tecnologia
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Situações-problema e tecnologias digitais: reflexões sobre o insucesso de uma prática pedagógica (59-70)
        Tiago Dziekaniak Figueiredo

filosofia política
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As bases fascistas da cruzada histérica contra a cultura (71-79)
        Renato Nunes Bittencourt

geografia
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Território: usos e significados de um conceito (80-90)
        Arthur Breno Stürmer

história
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Uma célula alemã na Colônia Porto Novo: a Linha Presidente Becker (1934) (91-102)
        Maikel Gustavo Schneider

sociologia
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O fascismo italiano e sua relação com as classes sociais (103-115)
        Jordana Souza Santos

sociologia das religiões
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“Não encosta em Deus”: Porta dos Fundos e religião (116-130)
        Lucelmo Lacerda

sociologia jurídica
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Proposta de redução da maioridade penal: a prisão como vingança e equívoco social (131-142)
        Nelson Gomes de Santana Silva Junior,   Renata Monteiro Garcia

resenhas & livros
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A democracia impedida pelo golpe parlamentar de 2016 (143-146)
        Cássio Augusto Guilherme

O Vocabulário Bourdieu (147-148)
        Walter Lúcio de Alencar Praxedes

CARRERI, Marcio Luiz. O socialismo de Oswald de Andrade: cultura, política e tensões na modernidade de São Paulo na década de 1930. Curitiba: CRV,
2017 (164 p.) (149-150)
        REA Editor

MORAES, Carin Sanches de; NERY, José Elias; BAUER, Carlos. História e internacionalismo da Escola Nacional Florestan Fernandes. São Paulo:
Editora Sundermann, 2017. (151)
        REA Editor

SOUZA, Ana Inês; SILVA, Jonas Jorge da; PAZELLO, Ricardo Prestes. (Orgs.) Lutas populares no Paraná. Curitiba: Centro de Formação Milton
Santos-Lorenzo Milani; Instituto de Pesquisa, Direitos e Movimentos Sociais (IPDMS), 2017 (238 p) (152-157)
        REA Editor

domingo, 3 de dezembro de 2017

No Brasil, um continente de monoculturas banhado em agrotóxicos

Atlas da Contaminação 2017, de Larissa Bombardi, da USP, descortina toda a violência silenciosa no campo brasileiro, que intoxica bebês e crianças, causa câncer e outras doenças, malformações e morte.
A reportagem é de Cida de Oliveira, publicada por Rede Brasil Atual - RBA, 28-11-2017.

Os 33,2 milhões de hectares de lavouras de soja que se espalham pela região Centro-Oeste, Sul e parte do Sudeste do Brasil poderiam preencher quase que toda uma Alemanha (35,7 milhões de hectares). Ou ocupar 11 vezes a da área da Bélgica, país que abriga a sede da Comunidade Europeia. A comparação ajuda a dar uma ideia da dimensão territorial dessa monocultura que consome sozinha 52% de todo o agrotóxico vendido no país que é campeão no uso desses produtos.
A cana de açúcar, por sua vez, embora responda por 10% dos venenos utilizados e ocupe menos de um terço da área da soja, açúcar tende a aumentar suas lavouras, que avançam por diversas regiões. Em todo o território de Portugal (9,2 milhões de hectares) já não caberiam os 10,5 milhões de hectares de cana hoje espalhados pelo Brasil. 
Atlas Geografia do uso de agrotóxicos 


A área plantada com soja e cana de açúcar no Brasil, pulverizada 24 horas por dia com agrotóxicos, equivale a praticamente ao continente europeu, que cada vez mais recusa esses venenos
 E com novas plantas geneticamente modificadas em fase de avaliação para liberação, a tendência é que nos próximos anos os agroquímicos sejam ainda mais usados, multiplicando a incidência de casos de câncer, malformações, intoxicações e mortes.
Os dados alarmantes constam do atlas Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia (clique aqui para acessar), lançado nesta segunda-feira (27) pela professora Larissa Mies Bombardi, pesquisadora do Laboratório de Geografia Agrária da Universidade de São Paulo (USP).
No lançamento, uma mesa de debate com o defensor público Marcelo Carneiro Novaes, da 1ª Defensoria Pública de Santo André – Regional do Grande ABC, coordenador adjunto do Fórum Paulista contra os Impactos dos Agrotóxicos e Transgênicos, a médica Telma Nery, que coordena grupo de trabalho no mesmo fórum, a professora Marta Inês Marques, do Departamento de Geografia da USP, e o assessor de Meio Ambiente da CUT São Paulo Marco Antonio Dalama.

Atlas

glifo na água.jpg

O Brasil permite a presença de 5 mil vezes mais glifosato na água do que os países da União Europeia.
Em 290 páginas, Larissa escancara a miséria socioambiental que toma conta do Brasil. No atlas propriamente dito há mapas por regiões, estados e municípios relacionados a intoxicações conforme diversas variáveis, como sexo, circunstância da contaminação, faixa etária, grupos étnico-raciais e locais de exposição.
O estudo demonstra com a realidade de comunidades indígenas contaminadas pelo agronegócio que avança sobre seus territórios, de mulheres que adoecem por trabalhar na colheita de frutas às margens irrigadas do São Francisco, na Região Nordeste. Ou mesmo de bebês intoxicados bem antes de completar 1 ano de vida.
Por meio de infográficos, é possível, por exemplo, ter uma noção do tamanho do problema ao comparar áreas ocupadas por culturas banhadas em agroquímicos, muitos banidos e proibidos no exterior, com as dimensões de  países da União Europeia, onde a população cada vez mais rejeita esses produtos – e governos, como o da França, pretendem adotar medidas cada vez mais restritivas e reduzir a quantidade de venenos permitidos.
Enquanto os países da União Europeia permitem até 0,1 micrograma de glifosato por litro de água, o Brasil permite 500 microgramas5 mil vezes mais.
"O alimento perdeu o sentido de alimento e a terra está sendo violentada para a produção de commodities para exportação, até ser exaurida, perdendo sua fertilidade", disse Larissa, durante apresentação do atlas, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. 
De acordo com a professora, que já havia lançado uma versão preliminar dos mapas, em 2016, a obra tem como pano de fundo a questão agrária, intocada mesmo nos governos de Lula e Dilma Rousseff.
"Dos trabalhadores em situação de trabalho análogo ao de escravo, 70% estão na agricultura, o mesmo setor que consome 70% da água, envenena o meio ambiente e que deixa 1 milhão de pessoas intoxicadas, matando uma a cada dois dias. Trata-se de uma forma silenciosa de violência no campo."

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/574142-no-brasil-um-continente-de-monoculturas-banhado-em-agrotoxicos)