quarta-feira, 30 de abril de 2014

Crime organizado se sustenta nas estruturas do Estado e é negócio em expansão


Marcela Belchior
Adital
 
O crime organizado tem ganhado cada vez mais terreno na América Latina. Tecendo uma rede de poder entre mercados ilegais, a colaboração do Estado e uma violência massiva, a máfia é hoje considerada negócio em expansão. A conclusão é do centro de pesquisa independente internacional Woodrow Wilson Center, que divulgou documento que estrutura o funcionamento das facções criminosas no continente.
Intitulado "A rebelião das redes criminais: o crime organizado na América Latina e as forças que o modificam” (La rebelión de las redes criminales: El crimen organizado en América Latina y las fuerzas que lo modifican), de autoria Juan Carlos Garzón Vergara, o estudo aponta que as redes criminosas figuram, hoje, como atores estratégicos relevantes no hemisfério sul, reconfigurando as fronteiras territoriais, tendo um forte papel na economia e penetrando nas estruturas políticas e sociais. A máfia poria em jogo os avanços alcançados na construção do Estado e do sistema democrático.
A publicação aponta que os grupos favoreceriam a formação de mercados locais ilegais, fator comum na América Latina, que apresentam uma série de vantagens a essas facções: permitem um fluxo de caixa constante de fácil acesso e a contratação de mão de obra local (que provê essas organizações de base social), são veículos efetivos para a lavagem de dinheiro e sua interação com a informalidade potencializa a capacidade de infiltração na economia legal.
De acordo com o estudo, o crime opera em nível local, como máfias e em plano nacional e regional como empresas, com estruturas mais fluidas e menos hierárquicas. O tradicional "capo”, chefe das facções, compartilha poder com lideranças intermediárias, que permitiriam a conexão do crime organizado com instituições legais.
A pesquisa aponta ainda que a motivação do crime organizado é econômica e não política, ou seja, seu objetivo não é tomar o poder, mas usar o poder para o desenvolvimento das economias ilegais. A violência, nesse caso, seria uma ferramenta da máfia e não um fim em si mesmo. O crime organizado não se baseia no simples confronto com o Estado, mas se estrutura a partir de conexões entre o legal e o ilegal, o formal e o informal, em um contexto de debilidade institucional e deterioração da cultura da legalidade.
Nos últimos anos, as organizações criminais teriam modificado suas estratégias, por quatro motivos. Um deles seriam os vazios de poder, que resultam da implosão das estruturas criminais e da ação do Estado contra esses grupos, também a disponibilidade de redes clandestinas com experiência no tráfico de bens e serviços ilegais. A consolidação de mercados locais ilegais emergentes, com uma oferta crescente e uma demanda constante de produtos e serviços ilegais, seria mais um agravante; além das ofensivas do Estado em meio à fragilidade institucional e a disposição das redes clandestinas a confrontar o Poder Institucional.
O estudo indica ainda que as investidas do Estado para desarticular as organizações criminosas favoreceriam a competitividade interna dos grupos, que se renovariam e criariam novos modos de operar na sociedade. "A ofensiva estatal não necessariamente produz uma debandada de delinquentes que optam por deixarem as atividades ilegais, sendo uma oportunidade para a renovação das estruturas e a emergência de facções ilegais que se mantinham até agora subordinadas”, explica a pesquisa.
O estudo conclui que, diante de uma debilidade institucional, da presença irregular do Estado no território e sua cooptação pela máfia (a chamada "falência do Estado”), a facção criminosa teria capacidade de obrigar o Estado a fazer concessões a essa rede de relações.
* Com informações de Fundación Avina.
(Fonte: http://site.adital.com.br/site/noticia.php?boletim=1&cod=80345&lang=PT)

É verdade, o julgamento não foi nem um pouco político!

Fonte: Blog do Mello

terça-feira, 29 de abril de 2014

Tempestade em copo d'água

Os arautos do caos não param de profetizar sobre a tempestade perfeita que estaria prestes a desabar sobre o Brasil. Os números, porém, dizem outra coisa

Claudio Puty

Os arautos do caos – a oposição neoliberal e conservadora – não param de profetizar sobre a “tempestade perfeita” que estaria prestes a desabar sobre a economia brasileira. Dia e noite, eles nos bombardeiam, pela mídia, com previsões catastrofistas. Dizem que a inflação está à espreita, que as expectativas de crescimento econômico são pífias, que o desemprego está aumentando, as contas públicas estourando e a dívida crescendo.

Quem lê tanta notícia negativa tem razão para se assustar. Mas, quando se olha de perto os números reais da economia, percebe-se facilmente que estamos diante de uma situação totalmente diversa, com estabilidade, crescimento e queda do desemprego, mesmo dentro de um quadro de crise internacional persistente.

De onde se conclui que a questão fundamental é de natureza política, não econômica. O fato é que os conservadores buscam interditar o debate sobre a política econômica, classificando como “populista” qualquer desvio da ortodoxia econômica.

Vamos, então, aos números. De acordo com apresentação feita em abril passado pelo Presidente do Banco Central do Brasil  ao Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social verifica-se uma tendência de estabilidade nos principais indicadores econômicos da economia brasileira.

Desde a crise financeira, o crescimento real do Produto Interno Bruto (PIB), por exemplo, tem sido constante. Se considerarmos 100 o índice de dezembro de 2007, ele apresenta uma curva ascendente desde 2009, atingindo 117,7 no 4º trimestre de 2013. É mais ou menos a mesma curva da Coreia do Sul. Para se ter uma ideia, o México, que também ostenta um PIB crescente, atingiu o índice 110,2, os EUA, 106,3. Já na a área do Euro o índice é de 97,9.

Em relação ao desemprego, podemos verificar um verdadeiro mergulho, do pico de cerca de 13% em 2003 para 5% no final do ano passado. Segundo os parâmetros internacionais, esse índice configura praticamente uma situação de pleno emprego.

Já as reservas internacionais estão estabilizadas no patamar de US$ 378 bilhões desde 2012, enquanto que a dívida externa líquida ficou em US$ 92,7 negativos no mesmo período, ou seja, somos credores externos  líquidos. Quanto aos investimentos estrangeiros diretos, desde 2011 eles estão na faixa dos US$ 66 bilhões ao ano. Podemos supor, sem medo de errar, que se o capital externo tivesse a mesma percepção que alguns setores do empresariado brasileiro, não se arriscaria a continuar investindo no Brasil.

No que diz respeito à política fiscal, a redução da dívida líquida do setor público prossegue com sua longa trajetória de queda, de 39% em 2010 para cerca de 33% do PIB em 2013. Esse resultado vem sendo obtido em razão de um superávit primário acima da média dos países do G-20 (Grupo dos 20). Enquanto em 2013 o Brasil atingiu um superávit primário de 1,9% do PIB, outros países do grupo tiveram déficit, como Japão (-8,8); Reino Unido (-4,7%); EUA (-3,6%); França (-2,0%) e México (-1,2%). Entre os que tiveram superávit primário, a Itália atingiu 2% e a Alemanha, 1,7%.   

E a inflação? Longe de estar fora de controle, a projeção para o Índice de Preços ao Consumidor Ampliado (IPCA) mostra que, do pico de quase 17% em dezembro de 2002, esse índice caiu consideravelmente e vem se mantendo estável, apesar de toda pressão, inclusive internacional, em torno de 6%. É sempre bom lembrar que Lula recebeu de FHC uma inflação de mais de 12% ao ano. É de se imaginar o tamanho escarcéu que a oposição, os neoliberais e a direita fariam se, nos governos Lula e Dilma, o IPCA chegasse perto de tal patamar.    

A imagem do caos econômico ventilada pela oposição conservadora não é a tempestade perfeita, mas uma tempestade em copo d’água – na verdade, é uma tentativa de constranger o governo federal a abandonar os mecanismos de política econômica voltados ao desenvolvimento econômico sustentável e inclusivo, voltando a subordinar as ações do Estado às necessidades do capital financeiro, principalmente especulativo.

(*) Deputado federal (PT-PA), vice-líder do governo no Congresso Nacional.

(Fonte: http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Economia/Tempestade-em-copo-d-agua/7/30812)

Os hermanos e nós

A Editora Contexto apresenta Os Hermanos e Nós, obra em que os jornalistas Ariel Palacios (autor de Os Argentinos) e Guga Chacra revelam ao leitor brasileiro o que é o futebol argentino e a real relação existente entre nossos países, além da aparente rivalidade. Uma leitura imperdível e deliciosa.
O livro já está disponível, aproveite!
     
   
Além da paixão pelo futebol, brasileiros e argentinos têm em comum a admiração que suas seleções despertam ao redor do planeta.
Quando elas entram em campo, param o mundo. Pergunte a um palestino e a um israelense, a um grego e a um turco para qual time torcem na Copa do Mundo, quando o deles não está na disputa. Se não for o Brasil, será a Argentina.
Neste livro, os jornalistas brasileiros Ariel Palacios – que vive em Buenos Aires – e Guga Chacra – que já morou lá – contam de forma deliciosa o que é o futebol argentino, desde sua história até seu estilo de jogo. Como se manifesta o fanatismo das torcidas argentinas, aquelas que cantam sem parar, esteja o time ganhando ou perdendo? Quais seriam os equivalentes brasileiros de clubes argentinos como o River Plate, o Racing ou o Boca Juniors? E, afinal, é verdade que o maior rival da Argentina é o Brasil? (Já desvendamos o segredo: não é). Nós amamos odiá-los, eles odeiam nos amar, mas ambos somos os maiores praticantes do futebol-arte. Leitura imperdível e deliciosa.

Jornalistas contra a mediocridade musical

Com todo o meu apoio!!!

Por Dioclécio Luz 

Já não temos mais o direito de errar. Basta de mediocridade musical (MM). A trilha sonora do país não pode continuar sendo o lixo que atinge o cérebro, polui o coração e atrai as moscas varejeiras lambedoras de jabá. Convoco os colegas jornalistas para que ergam a cabeça e caiam na dança do Zarastustra nietzschiano não se deixando abater pela MM que assola o Brasil.

Invoco o espírito dos deuses ateus e a energia dos poetas deste país e do mundo. Invoco a deusa música, ateia e anarquista por natureza, razão e metafísica, para desfazer as trevas que se abatem sobre o país. Precisamos cravar uma estaca no coração dos vampiros que sugam a arte e a criatividade musical.
Música ruim sempre existiu, mas há pelo menos 30 anos que a música de má qualidade tomou posse das rádios, TVs, jornais e revistas, sites, “faces”, blogs. Agora é nossa obrigação enquanto jornalistas usar o cérebro e dizer a verdade. Por uma questão de estética e também de ética. Não se pode ficar calado enquanto o povo é enganado, levado a consumir o lixo, levar para casa e armazenar na alma esta coisa ruim que eles chamam de música.
Um país que tem Elomar e Caetano, Gil e Chico César, Lenine e Beto Brito, um Brasil que já deu Luiz Gonzaga e Caymmi, João Gilberto, Tom Jobim e Jackson do Pandeiro, não pode cair tanto. É preciso vergonha na cara e alegria da alma para dizer em alto e bom som estéreo: longe mim a MM!
Buraco musical
Não podemos deixar nos abater pelo mau gosto generalizado. Menos constrangimentos e mais verdade é o que peço aos colegas radialistas e jornalistas. Devemos ser sinceros. Devemos a sinceridade ao mundo. Sim, claro, esta convocação é para os caranguejos que têm cérebro, para os que fazem rádio e jornalismo e os que sabem de música, sabem de arte e desconfiam dos negócios que alguns chamam de arte. Menos jabá e mais arte, é o espírito do nosso manifesto.
Este é um manifesto pelo saber da música. Para fugir da língua fácil, da vida fácil, do jeito mais fácil de falar dessa MM. Este manifesto faz a defesa da poesia e da inteligência e por isso é contra bordões do tipo “e agora o sucesso do momento”. Vamos nos educar.
Sim, para ouvir música é preciso o mínimo de educação musical. Uma educação que começa pelos ouvidos. O povo, esse ente inexistente, assim definido porque é massa para ser comandada, infelizmente, é enganado, censurado. Censuram o acesso a nossa riqueza maior, o grande patrimônio sonoro musical do mundo. Dizem as empresas e os que fazem a MM: “temos que respeitar a vontade do povo”; ou dizem: “o povo gosta disso”. E é uma dupla mentira, primeiro porque povo não existe, o que existe é gente, ser humano, sociedade, pessoas... Segundo porque, na verdade, são eles que não respeitam essa gente, vendendo o pior da nossa música – sertanejo de plástico, pagode de televisão, “forró” elétrico, axé, romântico de feira livre, arrocha... Essa uma meia dúzia de gêneros que domina as rádios e TVs brasileiras, produtos pasteurizados, homogeneizados, de uma indústria criadora do descartável, do supérfluo. O consumismo na música é a nossa desgraça musical. Bandas e cantores e “músicas” têm prazo de validade: produtos de mercado, são autodestrutíveis como os programas da Microsoft, como o galã da novela, como os filmes de Hollywood. Baumann explica o consumo; Freud esclarece sobre a patologia; Ariano Suassuna enterra a MM.
Vamos pulverizar o sofisma mofado do mercado: “gosto não se discute”. Discute-se sim. Principalmente quando ele não é uma escolha, mas uma imposição do mercado, produto da censura e do jabá. Como acreditar que se trata de gosto popular se ao ouvinte lhe foi imposto esta música ruim? Ludibriado pelo jabá, ele acredita que escolhe. E não é isso. A bem da verdade o “povo” tem gostado do que lhe determinam gostar. Para perceber isso não é preciso que um médium invoque os rapazes da Escola de Frankfurt. Hoje, ouvir música boa é coisa de elite. Elite hoje é Luiz Gonzaga, Chico Science, Orquestra Contemporânea de Olinda, Papete, Siba, Fagner, Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Ivanildo Vilanova, Oliveira de Panelas, Eddie, Otto, Chico Science, Zeca Baleiro e tantos outros cantores e cantoras segregados pelo jabá porque não fazem ou cantam música medíocre. Só uns poucos ouvintes podem mudar de estação. Porque rádio ou TV comercial que não seja só jabá não há em todo canto. Restam as emissoras livres para escolher o que tocar: são as educativas, públicas/estatais, comunitárias. Todavia, deve ser feita a exceção as muitas rádios que se apresentam como comunitárias (e têm até a “autorização” do Estado) mas pertencem a padre, pastor, empresário ou político.
Este manifesto é contra o fascismo do jabá porque ele segrega, discrimina, censura a nossa arte e o povo brasileiro.
Este manifesto não defende o sertanejo de raiz, a música de raiz, o regional, ou coisas do gênero, como se neles estivesse a nossa salvação. Porque isso é bom, mas não é o bastante. O que se defende aqui é a música enquanto arte – o que ela traz de novidade, originalidade, criatividade. Quando dez ou vinte bandas tocam do mesmo jeito com a mesma letra e a mesma melodia, chamar isso de música é uma agressão à cultura e à inteligência humana. No limite é uma arte menor, pobre. O que você diria de um pintor que pinta o mesmo quadro e faz uma exposição com 20 pinturas iguais? Chamaria de artista? E se vinte pintores pintassem a mesma coisa, gerando 400 quadros iguais? Poderiam ser chamados de artistas? Mas é assim que a MM se propaga, seu espírito de PVC sobrevive se copiando, repetindo-se, clonando-se. São vampiros de plástico que, como tal, produzem gases de efeitos estufa sobre a alma brasileira.
Isso tem a ver com a possibilidade de o planeta virar churrasco devido às mudanças climáticas. A nossa capacidade de adaptação, que é uma virtude dos seres vivos, no caso das mudanças climáticas é a nossa desgraça. As pessoas, os governantes e as instituições estão se adaptando à possibilidade de fim de mundo. Se o clima está cada vez mais quente, ao invés de propor mudanças no sistema de produção e alimentos, a Embrapa pesquisa sementes que se adaptem ao forno anunciado. Na música ocorre algo parecido, a MM infesta cada vez mais o mundo e a gente – jornalistas e radialistas – se adapta, aceita isso como se não tivéssemos o poder de reclamar, opinar, denunciar, exigir coisa melhor. Chegamos ao buraco musical, chafurdamos na lama, somos obrigados a comer lixo, porque o jornalista de cultura desistiu, adaptou-se; ele não reclama – anuncia o lixo, a MM, do mesmo modo que anuncia um show de craques como Yamandu Costa, Uakti, Marisa Monte, Luiz Melodia, Ednardo, Wado ou Belchior. Já não diferencia a mediocridade do que é bom, sujeita-se à ditadura do mercado, ao fascismo do mau gosto.
Coração congelado
Este manifesto é contra a produção em série do mercado, quando uma pretensa arte se esgota nas gôndolas de emissoras e revistas de fofocas. Isso sempre existiu, mas a arte sempre foi maior do que isso. Este manifesto faz a defesa da arte. A arte que gerou a Tropicália, o Movimento Armorial, o Clube da Esquina, a Vanguarda Paulista, o Mangue Beat, Pessoal do Ceará e tantos outros movimentos sem nome, tantos bons cantores e cantoras, não pode retroceder para a música de plástico. O país que tem Vanessa da Mata, Ná Ozzeti, Marisa Monte, Gal Costa, Elza Soares, Rita Ribeiro; o país que já deu Marinês, Nara Leão, Elis Regina, Claudia Nunes, Ângela Maria, Maysa, não pode se representar por vendedoras de xampu e cerveja que se apresentam como cantoras de música. Não são estas que nos orgulham. Vender xampu exige uma arte e uma inteligência, mas a música é outro tipo de arte.
Na verdade, a arte de verdade não tem pais de origem. Quando ela é grande ela se perde da pátria de origem. Yamandu Costa, Hamilton de Holanda, Dimas Sedícias, Roberto Correia, Hermeto Paschoal são grandes em qualquer língua. Do mesmo modo é bem-vinda a boa música de todos os lugares. Precisamos, porém, exorcizar esta alma de cachorro vira-latas anunciada por Nelson Rodrigues e olhar de frente, ao mesmo tom e volume, a música de fora. O maluco beleza Raul Seixas já debochou de quem acha que tudo de bom está vem dos States: “Lá em Nova York todo mundo é feliz”, dizia. E faz tempo. Mas quem ouviu Raul? Tem gente ainda comprando e ouvindo o lixo do império somente porque vem de lá.
Acordai radialista: também se faz música na Itália, Chile, Moçambique, Israel, Espanha, Portugal... Não tenha medo de procurar fora do eixo Nova York-Londres. A boa música, a mais criativa, a mais original, não frequenta as boates de Manhattan. Fique à vontade para usar o cérebro e dizer que essa música bate-estaca e suas muitas variáveis poderiam ter sido feitas por uma minhoca ou por uma bactéria. Atenção, a MM internacional prefere o inglês. Se você jornalista só ouve música em uma língua – o inglês do patrão, ou o português da Casa Grande –, acredite, é porque ainda não conhece a boa música do mundo.
Radialistas e jornalistas, não se deixem iludir pelo mercado que diz que o samba é o único gênero brasileiro, ou o maior de todos. Esse dogma foi feito pelos mercadores não pelos artistas. O samba é somente um dos milhares de gêneros musicais que brotam no Brasil. O país ganhou arte com a música de Cartola e Noel, Monarco e Martinho da Vila, mas esse bom samba não resume o Brasil. Neste país mestiço, onde se mistura sushi com feijoada, a cada dia brotam milhares de opções musicais. Elas estão por toda parte. Você ouviu, colega jornalista? Abra os olhos, cabra! Falar de música sem conhecer música é um crime contra os ouvintes e os leitores.
Este manifesto é contra a axé e em favor da Bahia de todos os sons. Feliz quem nasce na Bahia de João Gilberto, Moraes Moreira, Baby do Brasil, Pepeu Gomes, Armandinho, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Bethânia, Rudnei Monteiro, Raul Seixas, Xangai, Elomar. A Bahia é grande, mas a boa música que muitos ainda fazem é confinada aos guetos, cercados por uma muralha de axé. A Bahia, que já me deu régua e compasso para ampliar os limites do mundo, foi aprisionada numa pretensa “música baiana”, feita de plástico e silicone, identificada por ser igual a todas.
Este manifesto é contra a música gospel entrando pelos sete buracos da minha cabeça e destruindo meus neurônios. Ninguém suporta mais essa praga que tomou o dial de tudo que é rádio do Brasil. Pelo amor de Deus, respeitem os meus cabelos brancos, respeitem meu direito ao silêncio, respeitem a minha epifania que é gostar de arte. Católicos e evangélicos do meu Brasil sejam menos zelotas e mais cristãos, menos ambiciosos e menos avarentos, deixem as emissoras tocar música. Já paguei todos os meus pecados sendo tolerante a esse ruído que vocês chamam de música. Eu sei que vocês se amam como a si mesmos, mas sejam tolerantes e respeitem a minha alma. Toquem para vocês e deixem meus ouvidos em paz.
Quanto a isso que carimbam como música sertaneja, Herbert Daniel, o Betinho, explica que sua origem é dos anos 1970, quando a soja se expande e surgem os latifúndios, e os fazendeiros modernos. É quando os novos ricos do campo nem no campo moram mais. Frequentadores de Miami não queriam ser confundidos com a gente do Brasil. E dos Estados Unidos trouxeram a fantasia de vaqueiro de faroeste e a pretensa música country. Junto veio o rodeio. Como no Texas, onde a pena de morte é lei, trata-se de uma festa marcada pela crueldade contra o boi e o cavalo. A trilha sonora desta festa pobre é a MM. E ela é tal qual o gado nelore no pasto: tudo igual, nascido para morrer.
Senhoras e senhores radialistas e jornalistas, a MM não contesta, não provoca, não tem nada de original. Somos contra a MM porque ela faz mal ao cérebro e provoca o congelamento do coração. Somos contra a MM porque ela dá a entender que o Brasil se reduziu a isso. Que toquem a música MM – afinal, sempre existiu música MM –, mas que todos saibam que ela é menor e não representa a nossa riqueza musical. Pavões de lantejoulas de níquel, elas são muitas, mas não sabem avoar.
Inteligência e sensibilidade
Este manifesto é em defesa da boa música. Porque dela o artista sempre pode capturar um pedaço, parte ou partida, plantar e fazer algo maior. A boa música não tem prazo de validade – imune ao tempo, não precisa de botox para ser feliz; como toda boa arte o tempo passa e ela fica, baobá na alma da gente.
Este manifesto é contra o fim do mundo anunciado nas praias e clubes e baladas onde essa praga toca. É contra essa poluição que mata, aniquila, devora cérebros humanos. É preciso que o Ibama e a Organização Mundial da Saúde sejam chamados porque muitos morrerão nesse apocalipse que já se instalou nas praias a bordo de carrões e sonzões e botecos chiques ou fedorentos... Todos tocando a mesma MM numa Babilônia que nenhum profeta poderia prever. Se existe o inferno, a MM é a música mais pedida por lá.
Por fim, convoco os gestores de recursos públicos, prefeitos e secretários de Cultura, a não patrocinarem a MM. O povo merece o melhor. Se o que há na mídia é educação para o consumo do lixo, é obrigação do gestor mudar o rumo. Gestor de cultura que patrocina evento com esse tipo de música concorre para a inutilidade do cargo, é prova de que não entende nada de cultura. É a pessoa errada no lugar errado.
Esse manifesto defende a inteligência, a beleza, a alegria, a poesia, a música que o Brasil e o mundo produzem de melhor. Defende que o “povo” tenha acesso a músicas boas e não somente a essa coisa ruim, a MM. Defende que o “povo” tenha acesso a todo tipo de música e não somente as medíocres como ocorrem hoje, para que ele possa escolher o que ouvir. Convoca os colegas, jornalistas e radialistas, para que usem a inteligência e a sensibilidade para opinar, criticar, exigir dos meios de comunicação mais respeito com a nossa cultura, nossa história musical. A música brasileira é muito maior que a MM que nos vendem.
***
Dioclécio Luz é jornalista e radialista, autor do livro A arte de pensar e fazer rádios comunitárias
 
(Fonte: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed796_jornalistas_contra_a_mediocridade_musical) 

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Pavor do Apocalipse



Na teoria da relatividade não há nada de valor absoluto e de duração
infinita. Nosso olhar e nossa primeira impressão são sempre falsos.

Refletindo sobre a crônica “Amor e Máquina”, de Contardo Calligaris,
“Folha de São Paulo”, 13 de fevereiro de 2014, podemos dizer que somos
obrigados a sermos integrados e apocalípticos ao mesmo tempo. Diante da
evidência dos teleguiados atômicos existentes, um apocalipse bélico é
possível. Mas a possibilidade de um apocalipse não nos apavora. Estamos
acostumados com as imagens reais e fictícias de bombardeios aéreos. O
apocalipse a que Caligaris se refere é simbólico da descontração das
mentalidades arraigadas na humanidade desde o surgimento da civilização.

Vale dizer, desde que teve fim a era Neolítica, a cerca de onze mil anos.

Quando alguém, diante do aumento da violência, pergunta “Onde é que
isso vai parar?”, certamente está com medo de ser a próxima vítima fatal.
Em alguns momentos somos “integrados”, pois nos colocamos a
raciocinar sobre a sobrevivência da humanidade e do humanismo em
convivência pacífica com a tecnologia. O homem contemporâneo vem se
aparelhando social e psicologicamente para viver sozinho, exercer funções
específicas e ficar alheio a seu entorno, como na ficção de Aldous Huxlei
“O admirável mundo novo”. Poderíamos dizer: admirável atualidade, na
qual as pessoas vivem sozinhas, enclausuradas, em interação com
aparelhagem eletrônica e com os animais de estimação. Diria Sartre:
condenados a serem felizes desse jeito. Ai, chega à conclusão de que as
relações virtuais e também com os animais, são mais seguras e vantajosas
que as relações reais. O velho ditado popular “antes só que mal
acompanhado” tem conotação com o sentimento de perigo de ter que
conviver com alguém, no mundo individualista e competitivo da atualidade.

A ideologia do “salve-se quem puder” e da competitividade sem
normas vem do novo liberalismo e do capitalismo global. Ele é causa, meio
e consequência da corrupção e da violência na atualidade.


Belo Horizonte, maio de 2014.

Antônio de Paiva Moura

Assim o Ocidente ressuscita a Guerra Fria



Além de não representar ameaça militar ou econômica, Rússia suportou provocações em série. Mas militares, petroleiras e mídia querem fabricar um demônio
Por Roberto Sávio | Tradução: Antonio Martins
Faz várias semanas, agora, que toda a mídia mainstream está engajada em denunciar primeiro a suposta ação de Putin na Crimeia – e em seguida, na Ucrânia. A última capa de The Economist mosta um urso engolindo a Ucrânia, sob o título “Insaciável”. A unanimidade na mídia é sempre constrangedora, porque significa algum ato de dobrar joelhos. Será possível que os quarenta anos de Guerra Fria estejam sendo ressuscitados?
A inércia desta guerra, na verdade, nunca foi rompida. Diga “o presidente comunista de Cuba, Raúl Castro”, e ninguém ficará chocado. Use a mesma lógica, e chame o presidente Obama de “capitalista” e repare nas reações. Na Itália, Sílvio Berlusconi foi capaz, durante vinte anos, de ganhar as eleições contra a “ameaça” do comunismo – representada, segundo ele, pelo partido à esquerda, agora no poder, sob Matteo Renzi, um católico devoto.
No caso da Ucrânia, há pelo menos quatro pontos fulcrais de análise que estão sendo ocultados pelo coro de mídia. O primeiro é que nunca se mencionam as responsabilidades do Ocidente no caso. Deveríamos lembrar que Mikhail Gorbachev, presidente russo ao final dos anos 1990, negociou com os chefes de Estado dos EUA (Ronald Reagan), Grã-Bretanha (Margareth Thatcher), Alemanha (Helmut Kohl) e França (François Mitterrand) que aceitaria a reunificação da Alemanha; mas que que o Ocidente, em contrapartida, não deveria tentar invadir a área de influência da Rússia. Sobre isso, há grande quantidade de documentos.
Mas assim que Gorbachev foi eliminado, o jogo foi reaberto. A total docilidade de Boris Yeltsin, seu sucessor, diante dos Estados Unidos, é bastante conhecida. Muito menos debatido é o fato de o Fundo Monetário Internacional ter oferecido um empréstimo de 3,5 bilhões de dólares, para sustantar o rublo. O empréstimo, porém, foi dirigido ao Bank of America, que o distribuiu entre várias contas russas. Nenhum centavo chegou ao Banco Central russo. O dinheiro desembarcou nas contas de oligarcas, que puderam comprar praticamente todas as empresas públicas russas. Em seu livro Farewell Russia, Gioulietto Chiesa explica o processo em detalhes. E o FMI jamais sequer balbuciou um protesto. Quando um desconhecido Vladimir Putin foi levado ao poder por Yeltsin, ele foi obrigado a aceitar um acordo de proteção aos oligarcas.
Depois de Yeltsin, Putin apoiou a invasão iminente do Afeganistão por Washington, de uma forma que teria sido inimaginável durante a Guerra Fria. Aceitou que aviões norte-americanos sobrevoassem o espaço aéreo da Rússia, que os EUA usassem as bases militares nas repúblicas da ex-União Soviética na Ásia Central, e ordenou aos militares que compatilhassem sua experiênia no Afeganistão. Então, em novembro de 2001, Putin visitou George Bush em seu rancho no Texas, em meio a declarações amistosas (“Putin é um novo líder que ajuda a paz mundial… trabalhando em proximidade com os Estados Unidos”). Poucas semanas depois, Bush anunciou que os EUA estavam abandonando o Tratado de Mísseis Anti-balísticos, para poder construir um sistema de guerra no espaço destinado, em palavras a proteger a OTAN do… Irã. Era uma ação claramente voltada, na prática, contra a Rússia, para espanto de Putin.

Na sequência, em 2002, Bush convidou sete nações da ex-União Soviética – entre elas, Estônia, Lituânia e Letônia – a somar-se à OTAN, o que se concretizou em 2004. Em 2003, a invasão do Iraque, sem consentimento da França, Alemanha e Rússia, transformou Putin num cítico aberto dos Estados Unidos e de sua proposta de promover a democracia passando por cima do direito internacional. No mesmo ano, na Geórgia, a Revolução Rosa levou Saakashvili, um pró-ocidental, ao poder. Quatro meses depois, na Ucrânia, a Revolução Laranja empoderou outro presidente pró-ocidental, Yushcenko. Em 2006, a Casa Banca pediu permissão para reabastecer o avião de Bush em Moscou, mas deixou claro que Bush não teria tempo para saudar Putin. E em 2008, houve a declaração unilateral de independência de Kososo da Sérvia, com o apoio dos Estados Unidos e contra as posições da Rússia. Então, Bush pediu à OTAN para incorporar a Ucrânia e a Geórgia – um tapa na cara de Moscou. Em face disso, não deveria ter causado surpresa o gesto de Putin, que interveio militarmente na Geórgia em 2008, quando este país tentou incorporar as regiões da Ossétia do sul e Abkhazia, de maioria russa. Ainda assim, é fácil lembrar que a mídia tratou o movimento como ação sem motivos.
Obama tentou reparar os danos provocados por Bush nas relações internacionais dos EUA. Ele propôs uma retomada (“reset”) nas relações com a Rússia, que foi, de início, bem sucedida. Moscou aceitou oferecer seu espaço aéreo para transporte de suprimentos militares norte-americanos destinados ao Afeganistão. Em 2010, a Rússia e os Estados Unidos assinaram um novo tratado Start, reduzindo seu arsenal nuclear. E a Rússia apoiou as sanções aprovadas pela ONU contra o Irã, desistindo de vender seis mísseis terra-ar S/300 ao Teerã.
Mas logo a seguir, em 2011, tornou-se claro que os Estados Unidos tentaram intervir nas eleições parlamentares russas. Toda a mídia ocidental colocou-se contra Putin, que acusou os EUA de financiarem, com centenas de milhões de dólares, grupos oposicionistas. O embaixador norte-americano, McFaul, afirmou tratar-se de um grande exagero, e acrescentou que apenas algumas dezenas de milhões de dólares haviam sido doados a grupos da sociedade civil. Putin foi eleito novamente para a presidência em 2012 [após quatro anos como primeiro-ministro], já então obcecado com as ameaças ocidentais a seu poder. Em 2013, ele deu asilo ao ex-agente norte-americano Edward Snowden. Em represália, Obama cancelou um encontro bilateral – a primeira vez em que uma reunião de cúpula entre Washington e Moscou foi desmarcada, em cinquanta anos.
Em meio a tudo isso, houve a Primavera Árabe. A Rússia autorizou ação militar na Líbia, mas apenas para garantir ajuda humanitária. Ela foi utilizada para provocar mudança de regime, e Moscou sentiu-se enganada. Protestou, inutilmente. Então, surgiu a crise na Síria e o Ocidente tentou obter novamente o apoio da Rússia para uma mudança de regime – irritando-se com a recusa de Putin. Finalmente, agora, houve a bem conhecida intervenção na Ucrânia, para colocar o país na União Europeia e distante do bloco econômico eurasiano que a Rússia tenta criar.
O segundo ponto é que nenhuma ação política, exceto uma guerra, pode reduzir a Rússia à condição de um poder apenas local. É o maior país do mundo, em território. Estende-se das fronteiras da União Europeia até o Extremo Oriente. É, ao mesmo tempo, Europa e Ásia. Mantém rivalidade com a China na Ásia, tem conflitos territoriais com o Japão e está diante dos EUA no Estreito de Behring. É um produtor destacado de petróleo, membro permanente do Conselho de Segurança da ONU e tem um arsenal nuclear. Qualquer esforço para cercá-la ou enfraquecê-la, agora que o confronto ideológico ficou para trás, só pode ser visto como parte da velha política imperial.
A Rússia não é uma ameça, ao contrário da União Soviética. Seu PIB é 15% da Europa – que tem 500 milhões de habitantes e 16% das exportações mundiais. A China tem 1,3 bilhão de habitantes, e 9% do comércio mundial. A Rússia, apenas 145 milhões e 2,5% das exportações mundiais. Tem poucas indústrias, também porque Putin não está interessado na modernização do país, que inevitávelmente produziria um crescimento da classe de profissionais instruídos, que já se opõe a ele.
O terceiro ponto é que, portanto, a crise ucraniana deveria ser examinada melhor. É um Estado muito frágil, em que a corrupção controla a política e que vive problemas econômicos estruturais. Seu Oeste é mais rural; o Leste, mais industrializado. Os trabalhadores desta região sabem que um ingresso na Europa representaria o fim de muitas fábricas. No Oeste, muitos colocaram-se ao lado dos nazistas na II Guerra Mundial e há um movimento nacionalista forte, próximo ao fascismo. A Ucrânia é um problema muito caro e complicado.
É evidente que intervir apenas para desafiar Putin, e oferecer dinheiro (basicamente, o que fez a União Europeia) parece um pensamento muito tacanho. Estaria a UE preparada para mudar os critérios de pertencimento ao bloco, para aceitar um país que claramente não se adequa a eles; e a assumir um enorme peso, para aparecer como vencedora, na disputa contra um “homem forte”?
Isso finalmente nos leva ao quarto ponto. Putin é um ex dirigente da KGB, para quem a Rússia foi tratada injustamente, na dissolução da União Soviética. Todos os esforços para chegar a um entendimento com o Ocidente foram traídos, com sucessivas ampliações da OTAN, uma rede de bases militares cercando o país, um claro apoio do Ocidente a todas as oposições, um tratamento comercial medíocre. Ele sabe que estas opiniões sobre o declínio russo são compartilhadas por uma ampla maioria de cidadãos. Mas ele também é um autocrata arrogante, para dizer o menos, que nada tem feito para promover modernização econômica – porque, ao manter a produção e o comércio em suas mãos, conserva seu controle.
Para ele, a Ucrânia foi politicamente inaceitável. Ele está apresentando-se como defensor dos cidadãos russos, algo que lhe permite atuar em todos os lugares onde há minorias russas. A questão é: se Putin se for, haverá uma Rússia democrática, participatória, limpa, incorrompida? Aqueles que conhecem bem o país não acreditam nesta hipótese. Há inúmeros exemplos de que a remoção de autocratas não conduz à democracia por si mesma.
Portanto, haveria lógica em continua a cercar Putin, em nome da democracia? Isso não fortaleceria o próprio jogo do presidente, que associa sua imagem à de defensor dos russos? Eles também sofrem com a inércia da Guerra Fria e não veem o Ocidente exatamente como um aliado. Putin é hoje a única força de coesão na Rússia. Se ele se fosse, haveria, muito provavelmente, um longo período de caos. Isso certamente não interessa aos cidadãos russos… e é sempre perigoso praticar jogos de poder sem levar em conta a estabilidade da Europa… Claro, este não é o cálculo dos estrategistas ocidentais, que adorariam eliminar qualquer outro poder…
Como escreve Naomi Klein, o único vencedor, nesta disputa, são as empresas de energia. Elas estão fazendo campanha para que o mundo torne-se independente do petróleo russo. Portanto, vamos acelerar a produção petroleira nos EUA, a despeito dos notórios prejuízos ao ambiente. E vamos torcer para que a Europa deixe de usar gás russo – “nós exportaremos para eles”. Na verdade, não há estruturas para fazê-lo e seriam necessários muitos anos para criá-las… Mas exatamente no momento em que o mundo debate como controlar a mudança climática, e reduzir o uso de combustíveis fósseis, uma contra-estratégia importante é colocar o tema em segundo plano… Tarzi Vittach, um autor do Sri Lanka, disse, certa vez: “no fundo de tudo, há outra coisa”. Não há muitos exemplos de petróleo e democracia caminhando lado a lado…
(fonte: http://outraspalavras.net/capa/assim-o-ocidente-ressuscita-a-guerra-fria/ )

sábado, 26 de abril de 2014

As perguntas que não são feitas nas pesquisas eleitorais

Rompendo o tédio da rotina dos questionários elaborados pelos institutos de pesquisa, formulei seis perguntas cujos resultados me interessariam conhecer.


 Wanderley Guilherme dos Santos

Pesquisas de opinião são orientadas, claro, e as eleitorais não constituem exceção. Se alguém deseja saber quem prefere maçã ou banana deve perguntar justamente isso, sem confundir o pesquisado com as opções de abacaxis e mangas. Muitas pesquisas eleitorais desorientam os entrevistados ao introduzir opções que nada mais são do que abacaxis e mangas, nomes de candidatos sabidamente estéreis no contexto eleitoral efetivo. Obtêm-se antes de tudo uma idéia da dispersão aleatória da preferência eleitoral, não as escolhas sólidas a aparecer com perguntas focadas no que está, de fato, em jogo.  Mas nada impede que se investigue se o freguês é mais afeito a frutas ácidas ou cremosas – um tanto mais geral e inespecífica do que a pergunta anterior.

Com maior ou menor generalidade o que importa é que há um mundo de interrogações adequadas ao conjunto das frutas, todas legítimas, respeitadas modestas regras de lógica. Simples, mas esquecido quando os institutos divulgam seus resultados, aceitos com sagrada intimidação. Na verdade, os mesmos tópicos das pesquisas podem ser investigados por inquéritos variados, nada havendo de interdito no terreno do mexerico.

Em pesquisas de opinião são fundamentais a representatividade da amostra dos pesquisados, a correção dos questionários e, concluindo, a leitura dos resultados. É intuitivo que em uma comunidade onde 99% são religiosos o inquérito não pode concentrar-se no 1% restante, exceto se o pesquisador estiver interessado justamente na opinião da extrema minoria de agnósticos que ali vivem. Isto respeitado, tudo bem quanto à representatividade dos números.

Mas a leitura dos resultados pode ser marota. Jogando uma moeda para o ar centenas de vezes, o número de experimentos em que ao cair a moeda mostrará a “cara” tende a ser o mesmo número de “coroas”. Ignorando quando e porque acontece uma ou outra coisa, deduz-se que a probabilidade de dar “cara” ou “coroa” é de 50%, ou seja, metade das vezes uma, metade, a outra. Em certos convescotes essa peculiaridade é chamada de “acaso”.

Mas essa é uma probabilidade diferente da que indica o futuro do clima, por exemplo. As chances de que chova nas próximas 48 horas não é derivada diretamente de uma série de 48 horas do passado, mas das condições em que milhares de 48 horas foram chuvosas: umidade do ar, regime de ventos, formação de nuvens, etc. explicam com relativo grau de precisão (a probabilidade) as variações climáticas. O que justifica o probabilismo é o conhecimento das particularidades associadas ao aparecimento do fenômeno “chuva”, não o mero fato de sua repetição.

Pois a probabilidade derivada de uma série de pesquisas eleitorais é análoga à do jogo “cara” ou “coroa”, não à dos prognósticos atmosféricos. De onde se segue serem um tanto marotas as previsões de resultados eleitorais apoiadas em séries históricas, por mais extensas que sejam. A diferença é ontológica: uma eleição não é um jogo de “cara” ou “coroa”. A seguir, uma crítica, digamos, construtiva. 

Rompendo o tédio da rotina dos questionários elaborados pelos institutos de pesquisa, formulei seis perguntas cujos resultados me interessariam conhecer. Aí vão:

1 – o Sr(a) prefere:
    a) continuar com a presidenta atual (Dilma Roussef)
    b) voltar ao governo do PSDB (Aécio Neves)
    c) indiferente

2 – o Sr(a) votaria em alguém que:
       a) defende a manutenção do emprego de quem trabalha
       b) promete medidas impopulares
       c) indiferente

3) – o Sr(a) apóia o controle nacional do petróleo do pré-sal?
        a) sim
        b) não
        c) indiferente

4) - A oposição atual representa seu ideal de governo?
     a) sim
     b) não
     c) indiferente

5) Em relação à distribuição de renda o Sr.(a) é:
     a) a favor
     b) contra
     c) indiferente

6) Os atrasos na conclusão de aeroportos e estádios demonstram que:
     a) a iniciativa privada não é confiável
     b) há sempre imprevistos em grandes obras
     c) indiferente


Escolhi agregar todos os votos “não sei/prefiro não responder”, brancos e nulos em uma única opção porque estou interessado somente nas escolhas claras. E indiquei o nome de dois candidatos na pergunta 1 porque este é o desenho do questionário e, conforme o manual da boa pesquisa, o entrevistado deve estar de posse das informações relevantes para responder corretamente. Naturalmente, os entrevistados com preferência por outros nomes ou por nenhum estariam representados na resposta c.

O diabo é que ninguém acredita que os questionários dos institutos são apenas uma aproximação do que os eleitores perguntam a si mesmos, na hora do vamos ver. Por isso suas pesquisas ao final de uma corrida eleitoral se tornam mais diretas e econômicas, reduzindo o percentual de erro. Ainda assim, por vezes o palpite estatístico é desastrosamente equivocado. É quando o instituto, ao contrário de tentar replicar o que pensa o eleitor, busca fazer com que o eleitor pense como ele. Não dá certo.

(Fonte: http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/As-perguntas-que-nao-sao-feitas-nas-pesquisas-eleitorais/4/30793)

Reflexos da ditadura na educação impedem país de avançar

Em audiência na Câmara, especialistas pontuaram as heranças do período autoritário que impactam na má qualidade do ensino público e no acesso à educação.


Brasília - Os reflexos da ditadura civil militar sobre a educação foram tão nocivos e profundos que até hoje, 30 anos após o início da redemocratização, impedem o país de alavancar a qualidade e democratizar o acesso a este que deveria ser um direito fundamental de todo brasileiro.  Em audiência pública promovida pela Comissão de Educação da Câmara, nesta quinta (24), especialistas foram unânimes em apontar as heranças do regime como principais responsáveis pela má qualidade da educação pública e pela vergonhosa falta de acesso a ela para os pelo menos 14 milhões de analfabetos, além de número maior ainda de analfabetos funcionais.

Presidente do Instituto Paulo Freire, Moacir Gadotti lembrou que a ditadura pôs fim ao ambiente de otimismo pedagógico dos educadores brasileiros com o avanço da educação popular e emancipatória já nos primeiros dias após o golpe. Em 14 de abril de 1964, um dia antes do general Castelo Branco assumir o posto de ditador, foi extinto o Programa Nacional de Alfabetização, que vinha sendo implantado no país pelo educador Paulo Freire e seria inaugurado oficialmente em maio. Segundo ele, não foi nenhum rompante do regime. A decisão já havia sido tomada um ano antes, quando Castelo Branco ouvira Paulo Freire em um evento no interior paulista. “Vocês estão engordando cobras”, teria diagnosticado o futuro ditador.

Na sequência, vieram as reformas educacionais que arrasaram com o modelo de educação brasileira. O presidente do Instituto narrou que, em 10 de junho de 64, na primeira reunião com secretários de educação, Castelo disse textualmente: o objetivo do meu governo é estabelecer a ordem entre trabalhadores, estudantes e militar.  E seu ministro Suplicy completou: estudante deve estudar, professor deve ensinar, e não fazer política. “Aí está o programa da ditadura: uma visão autoritária da educação e uma visão tecnicista que ainda permanece, suavizada, sem a ostentação e arrogância daquele período”, avaliou.

Gardotti ressaltou também a introdução do caráter mercantilista da educação, trazido dos Estados Unidos, que a transforma em negócio, ao invés de direito. “Havia uma lógica de privatizar”, denuncia. Ele criticou a reforma universitária, que promoveu a “departamentalização”, apontada como estratégia para fragmentar o conhecimento. E também a forma autoritária como eram impostos os diretores, selecionados não pelo desempenho acadêmico, mas pelo perfil gerencial. “A reforma universitária visava reformar para desmobilizar”, resumiu.

Sobraram críticas também à reforma do ensino básico, feita de modo a impedir o crescimento intelectual dos alunos. “A reforma da educação básica tem coisas hilárias, como dizer que todo mundo tem que se profissionalizar porque Jesus Cristo foi carpinteiro”, exemplificou. Segundo ele, em uma época que até o Banco Mundial preconizava que os trabalhadores tinham que ter uma formação generalista, a ditadura obrigou todas as escolas de ensino médio a introduzir a formação técnica compulsório, sem nenhum preparo para isso, e o resultado foi um fracasso.

Outro fracasso registrado foi o do Mobral, criado para alfabetizar jovens e adultos e extinto no governo Sarney. Em quase 20 anos, o programa, que prometia acabar com o analfabetismo em 10, conseguir reduzir a taxa apenas de 33% para 25%. “O Mobral alfabetizou muito pouco. E era muito mais fácil do que hoje, porque esses 8% residual que temos agora está no campo e em locais de difícil acesso”, analisou.

No inventário dos prejuízos causados pela ditadura à educação brasileira, ele incluiu também o desmantelamento dos vários movimentos sociais e populares, a eliminação da representação estudantil e a perda da capacidade dos educadores de influir nos rumos da educação. Para ele, é preciso mudar a concepção da educação. “Nós temos que formar professores a partir de uma outra ótica, de uma outra concepção de educação que respeite o saber das pessoas, que introduza o diálogo, o respeito, e vença aquilo que é o mais duro do que foi herdado da ditadura: a falta de democracia”, diagnosticou.

Como exemplo, ele citou o quanto ainda é difícil implantar um conselho de escola ou mesmo difícil discutir política na escola, o que considera salutar para o país.

“Estamos formando gerações sem discutir que país queremos”, afirmou. Gardotti lembrou que Paulo Freire já dizia que educar é politizar sim. “Não podemos formar estudantes na velha teoria do capital humano: estude, trabalhe e ganhe dinheiro. Paulo Freire respondeu claramente a esta teoria na época: a educação que não é emancipadora faz com que o oprimido queira se transformar em opressor”, concluiu.

O sociólogo e colunista da Carta Maior, Emir Sader, lembrou que o arrocho salarial foi tão importante para a sustentação da ditadura quanto a repressão sistemática, o que acabou comprometendo a qualidade dos serviços públicos, inclusive a educação. “O santo do chamado “milagre econômico” foi o arrocho salarial”, afirmou. Segundo ele, até então, a escola pública era um espaço de convivência entre a classe pobre e a classe média, um espaço de socialização. “A classe média, a partir daquele momento, passou a se bandear para escola particular, fazendo um esforço enorme, colocando no orçamento os gastos de escola e deixando a escola pública como um fenômeno social de pobre”, observou.

O sociólogo avalia que a ruptura causada foi tão significativa que a escola pública, até hoje, não recuperou seu vigor. “A democratização não significou a democratização do sistema educacional, não significou a recuperação da educação pública, da saúde pública. Isso está sendo feita a duras penas na última década, mas com uma herança acumulada brutal. Já tem reflexos no ensino universitário, mas não em toda a educação: a escola pública nós perdemos”, ressaltou.

Para ele, os investimentos em educação superior são importantes, mas é a reconquista da qualidade da educação primária e média que deve ser tema fundamental e urgente à democracia brasileira. “Estamos muito atrasados. Até a saúde pública, apesar do viés duríssimo da perda da CPMF, nós conseguimos melhorar agora com o programa Mais Médicos. Mas a educação, não. A estrutura de poder herdada da ditadura só se consolidou, inclusive a da educação privada”, observou Sader, lembrando que os oito anos de governo Fernando Henrique Cardoso aprofundaram ainda mais o processo de privatização deflagrado pelos militares.

Sadir Dal Rosso, professor da Universidade de Brasília (UnB), uma das mais afetadas pelo golpe civil militar, submetida a três intervenções, abordou o impacto da ditadura na universidade e na construção do pensamento brasileiro. Segundo ele, o controle das administrações universitárias, a demissão e expurgos de professores que não concordavam com o regime, os assassinatos de estudantes, o controle das organizações estudantis e a implantação de serviços de informação no meio acadêmico causaram prejuízos imensuráveis ao país, que ainda precisam ser investigados e punidos. “É necessário esclarecer a verdade e, neste sentido, é necessário rever a Lei da Anistia”, defendeu.

(fonte: http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Educacao/Reflexos-da-ditadura-na-educacao-impedem-pais-de-avancar/13/30792)

4 artigos de leitura fundamental!

Como anunciei semana passada, estava esperando autorização da Revista Ciência Hoje para colocar, na íntegra, duas matérias que li e considerei da mais alta relevância. Como, até hoje, não obtive qualquer tipo de resposta, só me resta indicar os links para que vocês possam ler.

Futuro à ‘Blade runner’

Diante das urgências do terceiro milênio e das perspectivas sombrias do que está por vir, Jean Remy Guimarães critica o comportamento irresponsável de nossas autoridades, que agem como se ainda vivêssemos na década de 1950.  


Sobre clima, economia, governança e colapso

Diante das desordens climáticas atuais, do padrão desenfreado de consumo e do descaso de nossas autoridades, Jean Remy Guimarães esboça, em tom contundente, o futuro sombrio a que estamos condenados. Quem viver verá.  





De quebra, apareceram no boletim deles outras matérias oportunas, que aproveito para recomendar também:

Oportunidade de aprender

Educadora critica hipocrisia da escola que, no discurso, valoriza o erro e, na prática pedagógica do dia a dia, o recrimina e lhe atribui valor negativo, em vez de usá-lo como estratégia educativa.  


A ascensão da neurobobagem popular

Bióloga e educadora comenta como a apropriação indevida do conhecimento e a deturpação de dados de pesquisa vêm alavancando a comercialização de produtos que nada têm de científicos.  

quinta-feira, 24 de abril de 2014

A Historia Refigurada

A Editora Contexto apresenta A História Refigurada, obra que propõe ao leitor uma nova abordagem sobre a História que o autor Keith Jenkins considera convencional, defendendo novas formas de estudá-la e instigando uma reflexão sobre o fazer histórico.
O livro já está em pré-venda, aproveite!
     
























   
Neste novo livro, Keith Jenkins faz uma reavaliação da História que considera convencional, apresentando novas formas de pensá-la.
Para ele, o passado e as questões sobre a natureza da História permanecem interminavelmente abertos a abordagens novas e “desobedientes”. É exatamente isso o que defende aqui, ao expor uma metodologia e uma filosofia novas, discutindo seu impacto sobre a prática histórica, propondo, enfim, uma refiguração da História.
Obra instigante, especialmente voltada para estudantes e professores refletirem sobre o fazer histórico
.



Nº de Páginas: 112
Formato: 14 x 21
ISBN:
978-85-7244-852-9
Data: 29/04/2014











A silenciosa sovietização dos Estados Unidos


Há sessenta anos, censura a “Doutor Jivago” resultou em desastre midiático. Hoje, russos são mais livres, na vida privada, que norte-americanos

Por Paul Craig Roberts | Tradução Cauê Seignemartin Ameni

A propaganda americana no período da Guerra Fria teve pouco, ou nada, a ver com o colapso da União Soviética. No entanto, ao dramatizar as mentiras soviéticas o mundo ficou cego com as de Washington.
Quando as autoridades soviéticas recusaram-se a publicar Doutor Jivago, obra do destacado escritor soviético Boris Pastemak, a CIA transformou o gesto num golpe midiatico. Um jornalista italiano e membro do Partido Comunista soube do manuscrito censurado e se ofereceu para levá-lo a um editor de Milão, próximo dos comunistas: Giangiacomo Feltrinelli, que publicou o livro em italiano em 1957, apesar das objeções soviéticas. Feltrinelli acreditava que o Doutor Jivago era uma obra-prima e que o governo da União Soviética era tolo, ao não levar capitalizar em seu favor a obra de um grande escritor. Em vez disso, o Kremlin, dogmático e inflexível,  caiu na arapuca da CIA.
Os soviéticos fizeram tanta sujeira com livro, que a controvérsia elevou o perfil da obra. De acordo com documentos recentemente revelados pela CIA, o órgão de espionagem norte-americano vislumbrou uma oportunidade para os cidadãos soviéticos se perguntarem por que o romance de um proeminente escritor russo só estava disponível no exterior.
A CIA organizou uma edição na língua russa, publicada e distribuída aos cidadãos soviéticos na Feira Mundial de Bruxelas, em 1958. O golpe midiatico foi consumado quando Pastemak recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em outubro de 1958.

O uso do romance de Pastenark para minar a confiança dos cidadãos soviéticos em seu governo continuou até 1961. Naquele ano eu era um membro do programa de intercâmbio de estudantes EUA / URSS. Fomos encorajados a levar conosco cópias de Doutor Jivago.
Disseram-nos que era improvável algum inspetor aduaneiro soviético saber inglês, e ser capaz de reconhecer o título dos livros. Se perguntassem algo, fomos instruídos a responder que se tratava de “leitura de viagem”. Se as cópias forem reconhecidas e confiscadas, não devíamos nos preocupar. Elas eram muito valiosas para serem destruídas. Os funcionários iriam lê-las primeiro, e vendê-las em seguida no mercado negro — uma forma eficiente para espalhar a distribuição.
Leia a reportagem do Washington Post a respeito das ações da CIA aqui; e os documentos secretos da agência, aqui.
O que me impressiona sobre os memorandos da CIA é como o governo dos Estados Unidos de hoje se assemelha com o governo soviético de 1958. A chefe da Divisão Soviética da CIA descreve, numa análise de julho de 1958, por que Doutor Jivago era uma ameaça para o governo soviético. A ameaça residia na “mensagem humanista de Pasternak”, segundo a qual “cada pessoa tem o direito a uma vida privada e merece respeito como ser humano”.
Diga isso para a Agência de Segurança Nacional (NSA), para os detidos em Guantánamo, para os torturados nas prisões pela CIA. Nos Estados Unidos, a privacidade individual não existe mais. A NSA coleta e armazena cada e-mail, cada compra com cartão de crédito, cada conversa telefônica, todas as pesquisas de internet, cada uso das mídias sociais de todos os cidadãos. Pasternak tinha muito mais privacidade do que qualquer norte-americano hoje. Os viajantes soviéticos jamais foram submetidos a tateamento genital ou a porno-scanners. As penalidades impostas aos cidadãos soviéticos, por dizerem verdades inconvenientes ao governo, não eram mais graves do que as sanções impostas a Bradley Manning, Julian Assange e Edward Snowden.
E hoje, os cidadãos russos são mais livres em sua vida privada do que os norte-americanos. A imprensa russa é mais vívida e crítica ao governo do que a imprensa norte-americana…
Escrevi em umas das minhas colunas que, quando o comunismo alemão se dissolveu, a Stasi [temida polícia secreta da Alemanha Oriental] mudou-se para Washington…
(Fonte: http://outraspalavras.net/destaques/a-silenciosa-sovietizacao-dos-estados-unidos/)

terça-feira, 22 de abril de 2014

O desabafo do professor com a crise da Educação em MG


Carta aberta aos companheiros Professores de Minas Gerais
por Hudson Luiz Vilas Boas*, no Dissolvendo no Ar, via Facebook

Como professor de Sociologia da rede estadual de Minas Gerais, não posso me calar diante dos métodos pouco pedagógicos e nada democráticos como a Educação tem sido tratada em meu estado nos últimos doze anos e cujos nefastos reflexos todos nós, educadores e educandos, temos sentido na pele.
Em 26 de março último, por unanimidade os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) declararam inconstitucional a Lei Complementar (LC) 100, que efetivou, em 2007, cerca de 98 mil servidores do estado de Minas Gerais. A corte analisou a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI), proposta pela Procuradoria-Geral da República (PGR), que questionou a forma de ingresso na administração pública. A PGR pediu a derrubada da legislação que igualou os antigos designados, contratados com vínculos precários e lotados, em sua maioria, na área da educação, aos efetivos. No entendimento do Supremo, devem deixar o cargo, a partir da publicação do acórdão, todos aqueles que não prestaram concurso público para a função que ocupam.
Não obstante o STF só tenha julgado a LC-100 há poucas semanas, a decisão era prevista e aguardada por grande parte dos profissionais em educação, atingidos diretamente ou não pela decisão, e o Sind-UTE (Sindicato Únicos dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais) já havia apontado para tanto, sem jamais deixar de se solidarizar com os profissionais que em 2007 receberam esse verdadeiro “presente de grego” que desde o início claramente feria a Constituição Federal.
Ademais, a postura do Sind-UTE sempre foi a de entender que os “efetivados” – termo que traz em si uma conotação pejorativa e que passou a ser empregada pelo próprio governo mineiro – jamais poderiam ser culpabilizados por um arrobo de ataque a Constituição, antes, a total responsabilidade deveria, e ainda há tempo para isto, recair sobre quem de fato agiu de maneira inconstitucional, demagógica, imoral e patrimonialista, ou seja, o governo de Minas Gerais na figura do seu então governador, o senhor Aécio Neves.
Mas a lambança não acaba por aí. Enquanto perdurou a inconstitucional LC-100 muitos professores aprovados em concurso, tal como rege a Constituição de 1988, tiveram cerceado o direito à nomeação, pois inúmeras vagas encontravam-se preenchidas de maneira ilegítima.
Segundos dados da própria Secretaria Estadual de Educação de Minas Gerais, hoje mais de 1/3 dos professores da rede estão na condição de beneficiados pela LC-100, todavia até o presente momento o governo tem se esquivado de responder as duvidas desses professores e a secretária Ana Lúcia Gazzola sequer procurou dar uma resposta – ou mea culpa – aos milhares de profissionais atingidos “não” pela decisão do STF, mas “sim” pela irresponsabilidade do governo mineiro que insistiu numa tentativa torpe de burlar a Carta Magna.
Pode-se afirmar, sem medo de engano, que nos últimos doze anos a educação em Minas Gerais tem sido tratada de forma irresponsável e portanto nada condizente com a importância que representa para a construção de uma sociedade mais justa e livre ou para a autonomia do indivíduo. A derrubada da LC-100 é, desafortunadamente, somente mais um capítulo do modo Aécio de tratar a Educação.
Para citar apenas mais alguns capítulos, podemos rememorar a divisão das turmas de Ensino Médio em áreas de Humanas, Exatas e Biológicas.Um projeto polêmico, esdrúxulo e criticado por estudantes, professores e pais, que fadado ao fracasso não vingou por mais de quatro anos. Ou então quando em 2010 quando o governo do estadual já com o ano letivo em andamento, promoveu ao Ensino Fundamental II, sem qualquer planejamento, estudantes que no ano anterior haviam sido retidos nas séries iniciais. Ou ainda, o Reinventando o Ensino Médio, projeto embutido de vários pontos positivos, que, no entanto, está em fase de implantação sem o mínimo de estrutura, não trazendo as ferramentas necessárias para cativar os estudantes e que denota uma incrível falta de planejamento pedagógico.
Poderia citar diversos outros exemplos como o congelamento do plano de carreira, a transformação do salário dos profissionais da Educação em subsídio, a retirada de benefícios conquistados ao longo das décadas tais como quinquênio, pagamento em espécie de férias prêmio ou a da gratificação do pó de giz.
Por fim, os professores mineiros estão angustiados, perplexos e decepcionados com os rumos que a Educação em Minas tem tomado.
Finalizo com as palavras do mestre Paulo Freire:
“Seria uma atitude muito ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que permitissem às classes dominadas perceberem as injustiças sociais de forma crítica”
 *Hudson Luiz Vilas Boas, cidadão, educador, professor de Sociologia das redes estaduais de Minas Gerais e São Paulo, professor de Cultura e Cidadania e coordenador do Pré-Vestibular Comunitário Educafro.

(Fonte: http://www.viomundo.com.br/denuncias/o-desabafo-do-professor-com-a-crise-da-educacao-em-mg.html)

segunda-feira, 21 de abril de 2014

O povo do abismo atravessa o tempo


A exemplo da Inglaterra de cem anos atrás, quando era proibido dormir na rua, cidades dos EUA estão aprovando leis que proíbem sem-teto de dormir em carros

Douglas Portari


Há mais de um século – em 1903, mais precisamente –, o escritor norte-americano Jack London publicava O Povo do Abismo (lançado no Brasil pela Editora FPA). London havia atravessado o Atlântico para se embrenhar numa selva de miséria e indignidade, o coração das trevas da insuspeita capital do maior e mais rico império de então: o East End londrino.

No livro, o escritor narra as condições subumanas de milhares de ingleses, presos a uma situação que transbordava de geração para geração e lançava a charada: “A Civilização aumentou o poder de produção do homem (...) mas ainda assim milhões de integrantes do povo inglês não recebem comida suficiente, nem roupas, nem botas (...) se a Civilização aumentou o poder de produção do homem comum, então, por que não melhorou a condição do homem comum?”

A pergunta – e, ao que parece, a situação – atravessou o tempo e, novamente, o Atlântico. Um artigo publicado pelo professor de Direito da UCLA, Gary Blasi, no jornal inglês The Guardian (The 1% wants to ban sleeping in cars – because it hurts their 'quality of life' - Depriving the homeless of their last shelter is Silicon Valley at its worst – especially when rich cities aren't doing anything to end homelessness), nesta terça-feira, 15, fala sobre o descalabro de pobreza nas ruas do mítico Vale do Silício, no norte da Califórnia, o lar da pujante indústria do futuro, a informática, no estado mais rico do país mais poderoso do mundo.

Paliativo estético

A exemplo da Inglaterra de cem anos atrás, quando era proibido dormir nas ruas, o que impedia que mendigos e trabalhadores sem-teto se amontoassem pelos cantos, várias cidades norte-americanas estão aprovando leis que proíbem sem-teto de dormir em carros estacionados. O professor Blasi apresenta, não sem ironia, dados sobre o crescimento da desigualdade social e da miséria nos Estados Unidos e questiona como nada é feito para minorar seus efeitos, tanto pelo poder público quanto pelos ricos – o tal 1%, gente que é contra a desigualdade, até que ela surja em sua rua, onde, claro, vira caso de polícia.

O ‘paliativo estético’ dessa proibição lembra a nossa brasileiríssima ‘arquitetura da exclusão’, quando a própria administração pública, ou os bancos e seus lucros pornográficos, acha mais conveniente instalar grades, lanças e pedras nos nichos que podem servir de dormitório aos sem-teto e mendigos do que investir em abrigos e ações de ressocialização. Voltamos a Jack London: “Se isso é o melhor que a Civilização pode fazer pelos humanos, então nos deem a selvageria nua e crua. Bem melhor ser um povo das vastidões e do deserto, das tocas e cavernas, do que ser um povo da máquina e do Abismo.”

(*) Texto publicado no Blog da Fundação Perseu Abramo.

(Fonte: http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Economia/O-povo-do-abismo-atravessa-o-tempo/7/30762)

Um feriado cheio de flores

Todas as fotos de minha autoria.












O futuro do nosso planeta depende de 58 pessoas

Enquanto aguardo a autorização do Instituto Ciência Hoje para publicar dois artigos relacionados a este tema, leiam o que está abaixo. Terrível!

 

Em 13 de abril, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas publicou a última parte de um relatório em que alerta sobre o aquecimento global. 

Roberto Savio

 
Apesar de para muitos o seguinte fato ter passado despercebido, em 13 de abril, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) publicou a terceira e última parte de um relatório em que, sem rodeios, alerta que temos apenas 15 anos para evitar ultrapassar um aquecimento global de no mínimo dois graus previstos. As consequências serão dramáticas.

Apenas os mais míopes não se dão conta do que isso significa: desde o aumento do nível do mar até furacões e tempestades mais frequentes, além de um impacto adverso na produção de alimentos.

Em um mundo normal e participativo, onde 83% das pessoas que vivem atualmente existirão dentro de 15 anos, tal relatório teria provocado uma reação dramática. Em contrapartida, não houve um só comentário por parte dos líderes dos 196 países onde habitam os 7.5 bilhões de “consumidores” do planeta.

Os antropólogos que estudam as semelhanças e diferenças entre os seres humanos e outros animais já chegaram à conclusão há um bom tempo de que a humanidade não é superior em todos os aspectos. Por exemplo, o ser humano é menos adaptável à sobrevivência que muitos animais em casos de terremotos, furacões e outros desastres naturais.  Mostram sinais de alerta e de mal-estar.

A primeira parte do documento do IPCC, publicado em setembro de 2013 em Estocolmo, estabeleceu que os humanos são a causa principal do aquecimento global. A segunda parte, lançada em Yokohama em 31 de março, afirmou que “nas últimas décadas, as mudanças climáticas causaram impactos nos sistemas naturais e humanos em todos os continentes e em todos os oceanos”.

O IPCC é composto por mais de dois mil cientistas de todo o mundo e esta é a primeira vez em que chegou a conclusões firmes desde sua criação pelas Nações Unidas em 1988. A principal conclusão é que, para parar esta locomotiva rumo a um caminho sem volta, as emissões globais precisam ser reduzidas entre 40% e 70% antes de 2050.

O relatório adverte que “apenas grandes mudanças institucionais e tecnológicas darão uma oportunidade maior que 50%” de o aquecimento global não ultrapassar o limite de segurança. Acrescenta ainda que as medidas precisam começar em 15 anos, sendo concluídas em 35.

Vale a pena ressaltar que dois terços da humanidade têm menos de 21 anos e, em grande medida, são os que precisarão suportar os enormes custos da luta contra a mudança climática.

A principal recomendação do IPCC é muito simples: as principais economias devem estabelecer um imposto sobre a poluição com dióxido de carbono, elevando o custo dos combustíveis fósseis para impulsionar o mercado de fontes limpas de energia, como a eólica, a solar ou a nuclear.

Dez países causam 70% do total de poluição mundial com gases de efeito estufa, enquanto os Estados Unidos e a China são responsáveis por 55% dessa magnitude. Os dois países estão tomando medidas sérias para combater a poluição.

O presidente norte-americano, Barack Obama, tentou, em vão, obter a permissão do Senado e precisou exercer sua autoridade com a Lei do Ar Limpo de 1970 para reduzir a poluição de carbono  de veículos e instalações industriais, estimulando tecnologias limpas. Entretanto, não pode fazer mais nada sem apoio do Senado.

O todo poderoso novo presidente da China, Xi Jinping, considera o meio ambiente uma prioridade, em parte porque fontes oficiais estimam em cinco milhões anuais o número de mortos em seu país pela poluição. Mas a China precisa de carbono para seu crescimento, e a postura de Xi é: “por que deveríamos frear nosso desenvolvimento, se os países ricos que criaram o atual problema querem que tomemos medidas que atrasem nosso crescimento?”.

E assim é criado um círculo vicioso. Os países do Sul querem que os países ricos financiem seus custos de redução da poluição e os do Norte querem que os demais deixem de poluir e assumam seus próprios custos.

Como resultado, o resumo do relatório, que está destinado aos governantes, não contém as premissas que poderiam dar a entender a necessidade de que o Sul faça mais, enquanto os países ricos pressionaram para evitar uma linguagem que pudesse ser interpretada como a obrigatoriedade de que eles assumam obrigações financeiras.

Isto deveria facilitar um brando compromisso na próxima Conferência das Nações Unidas sobre  Mudanças Climáticas de Lima, de onde se espera um novo acordo global (vale lembrar do desastre da conferência de Copenhague em 2009).

A chave de qualquer acordo está nas mãos dos Estados Unidos. O Congresso norte-americano bloqueou toda iniciativa sobre o controle climático, proporcionando uma saída fácil para China, Índia e para o resto dos poluidores: “por que devemos assumir compromissos e sacrifícios, se os Estados Unidos não participam?”.

O problema é que os republicanos transformaram as mudanças climáticas em uma de suas bandeiras de identificação. Na última vez em que se propôs um imposto ao carbono, em 2009, depois de um voto positivo na Câmara de Representantes, controlada pelos democratas, o Senado, dominado pelos republicanos, rejeitou a proposta. Nas eleições de 2010, uma série de políticos que votou a favor do imposto ao carbono perderam suas cadeiras, o que contribuiu para que os republicanos assumissem o controle da Câmara.

Agora, a única esperança para os que querem uma mudança é aguardar as eleições de 2016 e esperar que o novo presidente dos Estados Unidos seja capaz de mudar a situação. Este é um bom exemplo de por que os antigos gregos diziam que a esperança é a última deusa...

O quadro é muito simples. O Senado norte-americano está integrado por 100 membros, o que significa que bastam 51 votos para liquidar qualquer projeto de lei sobre um imposto aos combustíveis fósseis. Na China, a situação é diferente. Na melhor das hipóteses, as decisões são tomadas pelo Comitê Permanente do Comitê Central, formado por sete membros, que são o verdadeiro poder no Partido Comunista.

Em outras palavras, o futuro do nosso planeta é decidido por 58 em uma população mundial de quase 7.7 bilhões de habitantes.


(*) Roberto Savio é fundador e presidente emérito da IPS – Agência de notícias Inter Press Service e publisher do site Other News.

Tradução: Daniella Cambaúva

(Fonte: http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Meio-Ambiente/O-futuro-do-nosso-planeta-depende-de-58-pessoas-/3/30758)

As suspeitas sobre Barbosa no episódio de espionagem

Como se sentiria um operador do direito se alguém afirmasse que há suspeitas de que a mais alta autoridade do Judiciário, o presidente do STF (Supremo Tribunal Federal) usa mão de gato, pratica chicana, estupra os procedimentos à luz do dia e com as cortinas do palco escancaradas? E que, na condição de presidente do STF, sua imagem pessoal torna-se a imagem do Judiciário.

No episódio da tentativa de espionagem sobre o Palácio do Planalto, Barbosa agiu com mão de gato ou foi fundamentalmente displicente? O simples fato de existir essa dúvida mostra a desmoralização a que o STF está submetido com os atos de seu presidente, ao não se pronunciar sobre a tentativa do Ministério Público do Distrito Federal de espionar o Palácio do Planalto.

O assessor de Barbosa, Wellington Geraldo Silva, telefonou para Jânio para “uma exaltada cobrança telefônica”, sobre as suspeitas de que, por falta de qualquer reação, Barbosa endossara a tentativa de espionar o Planalto. Foi-lhe recomendado escrever para o Painel do Leitor.

Na carta enviada, o assessor alega que Barbosa tomou as providências regimentais quando recebeu o pedido de quebra de sigilo do seu parceiro, o juiz da Vara de Execuções Penais: sem ler, encaminhou o pedido para apreciação do Procurador Geral da República. Só depois do parecer da PGR, o presidente do STF manifestar-se-ia.

No entanto, quem analisar todos os passos da trama, terá muitos elementos para suspeitar que, ao remeter o pedido para o PGR sem nenhuma observação, ou ao não recusar o pedido liminarmente, o próprio Barbosa participou da trama  para espionar o Planalto – juntamente com a promotora Márcia Milhomens Sirotheau Corrêa, o ex-juiz da Vara de Execuções de Brasília Bruno Ribeiro.
Relembrando:
  1. A promotora Márcia Milhomens Sirotheau Corrêa, da Vara de Execuções de Brasilia, pede a quebra do sigilo telefônico de uma área que engloba o Palácio do Planalto.
  2. No seu último ato no cargo, o juiz Bruno Ribeiro, que assumiu a função na Vara de Execuções após a carga de Barbosa contra seu antecessor, recebe o pedido e envia para Barbosa sem nenhuma consideração a mais. É de conhecimento geral as afinidades criadas entre Barbosa e Ribeiro. Além da pressão contra seu antecessor, Barbosa acionou o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) em defesa de Ribeiro.
  3. Era de conhecimento de Barbosa que, no mesmo dia em que enviou o processo, Ribeiro declarou-se impedido de continuar atuando na Vara de Execuções.
  4. O presidente do STF recebeu o pedido, não conferiu as coordenadas e enviou para a PGR. Se o PGR também não conferisse as coordenadas, Barbosa teria o álibi para quebrar o sigilo do Planalto.
As suposições acima são perfeitamente críveis, para um cargo em que não se admite sequer a dúvida sobre a conduta do titular. Ainda mais com todo o histórico de protelações de Barbosa sobre o episódio Dirceu.
É evidente que Barbosa sabia que o pedido de escuta referia-se a áreas sensíveis, ao Palácio do Planalto ou a outro poder, caso contrário o próprio juiz da Vara de Execuções poderia ter autorizado a quebra de sigilo.
Mas seguir procedimentos habituais em um caso absolutamente unusual - a quebra do sigilo da própria Presidência da República - é um contrassenso que só se explica pela vontade de postergar ao máximo a decisão sobre Dirceu, ou então, de criar um fato político mesmo.

A alegação do assessor, de que Barbosa só poderia se manifestar após parecer do PGR, em um tema que nada tem de usual, mereceu a resposta adequada de Jânio: aceitar isso seria acreditar que o presidente do STF comporta-se como um estafeta, recebendo processos e encaminhando sem ler para o PGR.
Passados vários dias, até agora a única manifestação de Barbosa foi essa nota do assessor, segundo a qual ele cumpriu o regimento, remetendo o pedido (sem ler) para o PGR.

É possível que o excesso de processos levasse Barbosa a ser descuidado com o pedido. Mas é possível – dada a visibilidade do episódio – que o descuido de Barbosa tivesse sido intencional. É possível que não atinasse para a extensão do pedido. Mas também é possível que agisse em sintonia com o juiz para criar uma crise política.

Agora, coloque-se no lugar de Joaquim Barbosa. Há uma investigação para conferir um telefonema de José Dirceu, que teria sido dada em um dia definido. Barbosa recebe um pedido de autorização de escuta por vários dias, em áreas variadas. Supondo que seja displicente nos seus pedidos, que seja burocrático no encaminhamento dos processos, alguém poderá supor que, ao receber o pedido de quebra de sigilo, não tivesse sequer a curiosidade de conferir as coordenadas definidas pela promotora?

É mais fácil um camelo passando no buraco de uma agulha.

Pergunto: é possível um presidente de STF conviver com tantas dúvidas e suspeitas acerca de sua conduta, em um episódio da mais alta gravidade?
(Fonte: http://jornalggn.com.br/noticia/as-suspeitas-sobre-barbosa-no-episodio-de-espionagem)