domingo, 10 de dezembro de 2017

A manipulação da indústria do açúcar

Nos EUA, documentos revelam: há 50 anos os produtores ocultam estudos que associam consumo ao endurecimento das artérias. Para desviar atenção, culparam-se as gorduras
Por Anahad O’Connor, no New York Times | Tradução: Inês Castilho

Nos anos 1960, a indústria açucareira financiou uma pesquisa com animais sobre os efeitos do consumo de açúcar na saúde cardiovascular – e então enterrou o dados, quando eles sugeriram que o açúcar pode ser nocivo. É o que mostram documentos históricos recentemente divulgados.
Os documentos internos da indústria do açúcar foram descobertos por pesquisadores da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF), e descritos em novo relatório publicado no jornal PLOS Biology. Os autores do relatório dizem que ele traz evidências de que a indústria açucareira tentou desinformar o público e proteger seus interesses econômicos, suprimindo pesquisas preocupantes   uma tática usada pela indústria do tabaco.

Os documentos mostram que, em 1968, um grupo comercial chamado Fundação para Pesquisa sobre o Açúcar (Sugar Research Foundation) financiou um projeto de pesquisa com animais para estudar a conexão entre açúcar e saúde do coração. Mas quando a pesquisa apontou um mecanismo pelo qual o açúcar pode promover não somente doença cardíaca como também câncer de bexiga, o grupo interrompeu o estudo e nunca publicou seus resultados.
A indústria açucareira vem há muito tempo insistindo que o açúcar não tem um papel especial na promoção de obesidade, diabetes ou doença cardíaca, embora numerosos estudos de pesquisadores independentes tenham concluído diferentemente. Stanton Glantz, professor de medicina na Universidade da Califórnia em São Francisco e autor do novo relatório, afirma que muito embora os documentos descobertos tenham 50 anos, eles são importantes porque apontam para uma estratégia que há décadas minimiza os efeitos potenciais do consumo de açúcar na saúde.
“Isso ajuda a comprovar que a indústria açucareira tem uma longa história de manipulação da ciência”, diz Glantz.
Em declaração pública, a Associação do Açúcar dos EUA questionou o novo relatório, chamando-o de “coleção de especulações e suposições sobre eventos ocorridos há quase cinco décadas, conduzida por um grupo de pesquisadores e financiada por indivíduos e organizações que são reconhecidamente críticos da indústria açucareira.” O estudo atual foi financiado principalmente pelos Institutos Nacionais de Saúde e pela Fundação Laura e John Arnold, uma fundação privada que deu dinheiro em apoio à tributação de bebidas açucaradas.
A declaração afirma que o açúcar “consumido com moderação é parte de um estilo de vida equilibrado”, e enfatiza que a Associação do Açúcar manteve-se “comprometida com o apoio a pesquisas para entender melhor o papel do produto na evolução dos hábitos alimentares dos consumidores”.
Os documentos descritos no novo relatório são parte de um conjunto de comunicações internas da indústria do açúcar que Cristin E. Kearns, professor assistente da Escola de Odontologia da UCSF, reuniu nos últimos anos em arquivos de bibliotecas de várias universidades.
No ano passado, um artigo do The New York Times destacou alguns dos documentos descobertos por Kearns anteriormente. Eles mostravam que, nos anos 60, a indústria açucareira lançou campanha  para conter “atitudes negativas em relação ao açúcar”, entre outras coisas financiando pesquisas que pudessem produzir resultados favoráveis. A campanha foi orquestrada por John Hickson, alto executivo da associação do açúcar que depois aderiu à indústria do tabaco. Como parte da campanha, Hickson pagou clandestinamente dois influentes cientistas de Harvard para publicar, em 1967, um importante trabalho de revisão que minimizava a relação entre açúcar e saúde cardíaca, transferindo a culpa para as gorduras saturadas.
O novo relatório revelou documentos internos adicionais da indústria açucareira daqueles tempos. Eles mostram que, naquele momento, Hickson estava preocupado com estudos emergentes indicando que as calorias do açúcar eram mais prejudiciais à saúde do coração do que calorias de carboidratos ricos em amido tais como grãos, feijões e batata. Hickson suspeitou que isso poderia ocorrer porque as bactérias que residem no intestino, conhecidas coletivamente como microbiota, metabolizavam de maneira diferente o açúcar e os amidos.
Em 1968, a organização açucareira deu início ao que chamou de Projeto 259. O grupo recrutou o pesquisador W.F.R. Pover, da Universidade de Birmingham, na Inglaterra, pagando-lhe o equivalente hoje a US$ 187 mil para conduzir um estudo de laboratório com animais. O objetivo do experimento era testar se ratos e cobaias sem bactérias intestinais respondiam de forma diferente à dos animais normais ao açúcar e aos amidos.
Os resultados iniciais, descritos num relatório interno da indústria em 1969 como “de particular interesse”, trouxeram uma preocupação. Os ratos alimentados com sacarose, principal componente do açúcar de cana, produziram níveis elevados da enzima beta-glucuronidase, que outros três estudos do mesmo período associavam a artérias e bexiga endurecidas.
“Essa é uma das primeiras demonstrações de diferença biológica entre ratos alimentados com sacarose e com amido”, afirmou o relatório interno da indústria.
Os documentos mostram que Pover descobriu outra coisa “altamente significativa”. A fase inicial da pesquisa parecia confirmar que os efeitos adversos do açúcar sobre o colesterol e os triglicérides eram resultado da fermentação e metabolização por bactérias intestinais. Pover disse naquele momento que estava perto de concluir o Projeto 259, mas precisava estender o estudo para provar “conclusivamente” que os efeitos observados eram mediados pela microbiota.
Mas a despeito de ter recebido fundos para uma extensão prévia da pesquisa, a associação açucareira decidiu desativar o Projeto 259 e acabar com seu financiamento. Num relatório interno de 1970, Hickson apresentou a seus pares executivos do açúcar estudos que poderiam “evocar informação útil e significativa” para a indústria, e descreveu o valor do Projeto 259 como “zero”. O relatório da indústria sugeria que Pover estava desapontado e observava que “manifestou a esperança de obter financiamento de outras fontes.”
Ele nunca conseguiu. A pesquisa nunca foi publicada, e a razão não está totalmente clara. Tanto Pover como Hickson não estão mais entre os vivos.
Um porta-voz da Associação do Açúcar disse que o grupo reviu seu arquivo de pesquisas e determinou o fim do estudo de Pover porque ele estava atrasado, havia estourado o orçamento e sobrepôs-se a uma reestruturação organizacional.
“Havia planos de continuar o estudo com financiamento da Fundação Britânica de Nutrição”, disse o porta-voz, “mas por razões desconhecidas para nós isso não ocorreu.”
Contudo, a professora de nutrição, estudos alimentares e saúde pública da Universidade de Nova York, Marion Nestle disse que os documentos internos da indústria são chocantes porque fornecem rara evidência de que a indústria alimentícia suprimiu uma pesquisa que não lhe interessava, prática que vem sendo documentada entre as empresas de tabaco, farmacêuticas e outras indústrias.
“Pelo que diz esse documento, a indústria açucareira não estava interessada em responder questões em aberto sobre se o açúcar pode ser prejudicial a ratos ou, dadas as sugestões preliminares de possível dano, fazer estudos posteriores para descobrir se sim ou não”, disse ela. “Ao invés disso, deteve a pesquisa quando os resultados pareceram desfavoráveis.”
Geralmente, pesquisas com ratos e outros animais de laboratório não são consideradas persuasivas como dados para estudos humanos. Mas nos anos 1960, disse Kearns, dados de pesquisas com animais tinham muito mais peso. Naquele tempo, uma lei federal baniu aditivos para alimentos que demonstraram induzir câncer em animais. E em 1969, por exemplo, a Food and Drug Administration (FDA, Agência de Alimentos e Drogas) baniu o ciclamato, um adoçante artificial muito popular, depois que pesquisas demonstraram que causava câncer de bexiga em ratos.
Naquele momento, a Associação do Açúcar considerou o ciclamato uma ameaça para o seu mercado, e não apenas fez lobby sobre a FDA para bani-lo como também financiou parte das pesquisas que o relacionavam a problemas de saúde.
Hickson deixou a indústria açucareira no início dos anos 1970 para trabalhar no Conselho de Pesquisa sobre o Cigarro, organização da indústria de tabaco. Em 1972, um memorando interno da indústria de tabaco sobre Hickson afirmava que ele tinha reputação de manipular a ciência para alcançar seus objetivos. O memorando confidencial descrevia Hickson como “um excelente político científico que havia sido bem sucedido na condenação do ciclamato, em nome do Conselho de Pesquisa do Açúcar, a partir de evidências um tanto instáveis”.

(fonte:  http://outraspalavras.net/destaques/a-doce-manipulacao-da-industria-do-acucar/_

Robótica eliminará até 800 milhões de empregos até 2030

Entre 400 e 800 milhões de pessoas em todo o mundo serão afetadas pela automatização e terão de encontrar uma nova ocupação até 2030, segundo um relatório realizado pela consultoria McKinsey Global Institute.
A reportagem é de Ricardo Della Coletta e publicada por El País, 02-12-2017.

O impacto das novas tecnologias na vida dos trabalhadores será sentido sobretudo nas economias mais desenvolvidas. Segundo o relatório, até um terço da força de trabalho de Estados Unidos e Alemanha terá de aprender novas habilidades e encontrar outra ocupação. No Japão, a porcentagem de afetados poderá chegar a quase a metade dos trabalhadores.
Os efeitos do fenômeno calculados pela consultoria variam segundo a projeção que se leve em consideração: se a automatização das economias avança a um ritmo intenso ou gradual.
Os responsáveis pelo documento da McKinsey afirmam que os baixos salários no México, por exemplo, levarão a um impacto menos intenso da automatização no país latino-americano: do total de 68 milhões de pessoas que comporão a força de trabalho mexicana em 2030, cerca de 9 milhões serão afetados.
“O México tem uma população jovem e uma força de trabalho que está crescendo. O nível dos salários pode diminuir a implementação da automatização no país”, destaca a consultoria.
A McKinsey analisou o efeito da robotização em 46 economias que representam quase 90% do PIB mundial. Além disso, fez projeções detalhadas do impacto da automatização em seis países: Estados Unidos, China, Alemanha, Japão, México e Índia. A consultoria destaca que os países têm de encontrar formas de realocar os trabalhadores substituídos pela automatização. “Nos cenários em que alguns dos substituídos levam anos para encontrar um novo trabalho, o desemprego cresce em curto e médio prazo. Em longo prazo, se reduz o desemprego e o mercado de trabalho se ajusta, mas com um crescimento menor dos salários”, afirmam.
Além disso, as mudanças tecnológicas atingirão com mais força os trabalhadores com menos estudo. As pessoas com formação universitária e pós-graduação serão menos afetadas. Entre as atividades mais prejudicadas destacadas pela consultoria estão os operadores de máquinas e os funcionários de redes de fast food, além de trabalhadores que fazem coleta e processamento de dados.
“As profissões altamente dependentes das atividades que identificamos como mais suscetíveis à automatização — trabalhos físicos ou processamento de dados — serão provavelmente as mais afetadas”, afirmam os responsáveis pelo relatório. “Ocupações que exigem alto nível de especialização ou uma alta exigência de interação social e emocional serão menos suscetíveis à automatização até 2030”, dizem.
Apesar dos efeitos esperados no mercado de trabalho, os pesquisadores destacam que a inovação, o crescimento econômico adequado e os investimentos podem gerar empregos suficientes para compensar os postos de que serão perdidos pela automatização.

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/574292-robotica-eliminara-ate-800-milhoes-de-empregos-ate-2030)

Somos todos agentes da História

Por Jaime Pinsky, historiador e editor, doutor e livre docente da USP, professor titular da Unicamp.
Seres humanos têm história. A natureza também tem. A diferença é que quando nos referimos ao que aconteceu com as rochas, os vulcões, os rios e os oceanos falamos de história natural; e chamamos de história social quando falamos daquilo que se passou com o ser humano vivendo em sociedade. Por consequência, nada relativo ao comportamento humano é natural, como frequentemente qualificamos atitudes que nos parecem comuns, esperadas. A rigor, deveríamos utilizar a expressão “é social” em vez de “é natural”: a maior parte dos nossos comportamentos decorrem de nossa vivência, de nossa relação com outros membros da sociedade em que vivemos, não são atitudes determinadas pela natureza. Sociedades diferentes induzem comportamentos diferentes. Um terremoto é natural. A água descer da montanha e formar riachos é natural. A prática religiosa é social. A hierarquia, a existência de pobres e ricos, de poderosos e humildes é social.
É verdade que existe uma fronteira ainda não estabelecida com clareza entre o que é determinação biológica e o que é fruto de aprendizagem. Certas habilidades, alguns tipos de inteligência, comportamentos como a agressividade, por exemplo. Esse assunto ainda não foi resolvido pela ciência pois, convenhamos, é muito difícil realizar experiências com gente (mesmo porque a humanidade não quer voltar a monstruosidades como as perpetradas pelo monstro nazista  Dr. Mengele). De qualquer forma, não há dúvida de que comportamento e valores são diferentes em diferentes sociedades e mesmo o correto e o incorreto, o legal e o ilegal variam em diferentes agrupamentos humanos em diferentes espaços e tempos.
Em Atenas, durante o período clássico, era socialmente aceitável certas práticas homossexuais, particularmente quando realizadas por homens mais velhos com garotos na puberdade ou recém saídos dela. Vinte e cinco séculos depois muitas sociedades modernas condenavam e até puniam qualquer manifestação de homoafetividade. Por outro lado em Atenas grande parte da população não tinha direitos políticos. Escravos, estrangeiros e mulheres em geral não tinham direito de voz ou voto na Ágora, onde se praticava a democracia direta e cada cidadão (desde que não fosse criança, mulher, escravo ou estrangeiro) defendia pessoalmente seus interesses e pontos de vista. Nas sociedades modernas todos os adultos são considerados cidadãos, não só uma elite como em Atenas. A cidadania em Atenas era menos inclusiva do que nos países democráticos atuais? Era diferente. O conceito de cidadania, assim como sua prática, é fruto de sua época. Com isso em mente fica mais fácil incorporar a ideia da historicidade dos conceitos e das práticas históricas. Que, não custa repetir, não são naturais. São sociais.
Quando Simone de Beauvoir diz que ninguém nasce mulher, mas se torna mulher, é claro que ela não está se referindo à existência, ou não, de uma vagina, de seios, de barba ou pênis. Ela não está falando de biologia, mas de sociedade. Não pensa em história natural, mas em história social. A mulher (biologicamente falando), ao longo de sua vida, de seus relacionamentos sociais, dos papeis que desempenha transforma-se em mulher (historicamente falando). Da mesma forma, é claro, acontece com o homem. Somos todos determinados socialmente.
Aqui podemos entrar em questões muito delicadas. Se um garoto vive em uma favela (perdão, uma comunidade) onde o Estado praticamente não chega (nem com benefícios, nem com repressão) e acaba sendo cooptado pelo tráfico, tornando-se um bandido, teria sido ele determinado socialmente, não lhe cabendo nenhuma responsabilidade individual pelas suas ações, consideradas crimes pelo Estado? Se um camarada é empresário em uma área em que a propina se tornou um caminho histórico para a prestação de serviços ao Governo e se sua empresa não pode sobreviver sem serviços prestados ao Governo ou às estatais, terá ele um habeas corpus preventivo, um perdão antecipado, uma vez que ele precisa viabilizar sua empresa, pagar seus funcionários?
Se um político faz parte de um partido que apregoa-se preocupar com a desigualdade social no país e sabe que será necessário muito dinheiro para eleger deputados e senadores, o fato de ele aceitar dinheiro de campanha de grandes empresários em troca de favores será um mal, ou um serviço à Nação?
Estes são falsos problemas. Temos nossa história, mas não perdemos abrir mão das escolhas individuais. Cabe-nos usar o livre arbítrio. Não podemos reproduzir aquilo que a ética condena e que é danoso para o conjunto do tecido social. E a Lava Jato está explicando isso muito bem a quem ainda não entendeu.

Novos textos no Blog da Revista Espaço Acadêmico

Informo que foram publicados novos textos no BLOG DA REA:


Notas acerca da relação entre marxismo e a questão da mulher

MICHEL GOULART DA SILVA
Para o pensamento marxista, a emancipação da mulher passa pela inevitável derrubada do capitalismo e pela construção do socialismo. Contudo, dialeticamente, a mera superação do capitalismo não garantirá a efetiva emancipação das mulheres, afinal a transformação da ordem econômica não leva automaticamente à superação da opressão das mulheres. Esse problema … Continue lendo

Mamografia: o debate necessário que continua sendo adiado

GILSON DANTAS
Mamografia: alguma coisa está sendo ocultada das mulheres que submetem suas mamas aos RX? Em uma sociedade onde tudo vem sendo mercantilizado e sendo convertido em fonte de lucro, a medicina apresenta uma intransponível dificuldade em ser transparente e envolvida até o fim com o bem-estar do chamado paciente. Um exemplo é a … Continue lendo

Empregados repudiam presença do juiz Sérgio Moro em evento na sede da Petrobras


Texto escrito por José de Souza Castro:

A Petrobrás realiza nesta sexta-feira, em sua sede, palestra do juiz Sérgio Moro, em virtude do Dia Internacional de Combate à Corrupção. Na véspera, um manifesto dos petroleiros, com uma centena de assinaturas, foi divulgado em repúdio ao convite feito ao juiz da Lava Jato e visando evidenciar que ele não conta com aprovação plena de toda a Petrobrás.
Também nesta quinta-feira foi divulgado amplamente pela imprensa que a Petrobrás recebeu R$ 716 milhões em razão do trabalho da Lava-Jato. Para quem ganha pouco, parece um dinheirão. Não para os que assinam o manifesto, seja lá quanto recebem de salário na Petrobrás.
“Com a justificativa de recuperar o dinheiro roubado dos cofres públicos e punir poderosos, a operação avança gerando um rastro de destruição econômica que não é compensada por seus supostos benefícios”, argumenta o documento que, eu suspeito, será amplamente ignorado pela imprensa.
As cinco famílias que praticamente controlam a imprensa no Brasil não gostam de coisas como estas ditas pelos empregados da Petrobrás:
“Esta ‘parceria’ entre judiciário e mídia criou uma narrativa que vem justificando a destruição do país, da própria Petrobrás, e entrega as nossas riquezas ao capital estrangeiro. Não estamos afirmando que a Operação Lava-Jato é a única responsável por todos os males que atualmente recaem sobre o Brasil, mas é o principal fator que viabilizou a ascensão ao poder central da quadrilha de Michel Temer, trazendo consigo inúmeros retrocessos ou acelerando aqueles iniciados pelo PT.”
O manifesto lança dúvida também sobre o valor monetário recuperado para a Petrobrás pela Operação Lava-Jato. É controverso, diz: “Reportam-se as cifras de 1 bilhão, 4 bilhões e até 10 bilhões, as quais seriam provenientes de pagamento de multas, acordos de leniência, delações premiadas e bens bloqueados”.
Lembra estudo feito em 2015 que estimou impacto de R$ 140 bilhões no PIB brasileiro, representando uma perda de cerca de 2,5%, como um “custo” da Lava Jato. “Para se ter ideia, em 2014, quando esta Operação teve início, o PIB era de US$ 2,456 trilhões, terminando 2016 em US$ 1,796 trilhões por vários fatores, inclusive pela paralisia trazida pelo pretenso combate a corrupção. Logo, as perdas foram muito mais significativas que os ganhos, gerando um processo de desindustrialização no país com retorno a uma economia voltada ao setor primário”, afirmam os signatários do manifesto.
Citam também estudo do Dieese, segundo o qual a estimativa de perda, em razão da Lava Jato, foi de mais de um milhão de empregos, fragilizando a Petrobrás e as empresas da cadeia produtiva do óleo e gás, num momento de sérias dificuldades para essa indústria no mundo.
Além disso, prossegue o manifesto, “a fragilização das empresas de construção pesada e o ajuste fiscal reduziram o volume e o ritmo de investimentos públicos em infraestrutura; só as obras paralisadas somam R$90 bilhões que foram jogados fora. Portanto, o valor de R$ 38,1 bilhões que a Força-Tarefa espera recuperar no total não chega nem perto do prejuízo causado à indústria, à economia brasileira e à elevação da taxa de desemprego”.
Quem se interessou pode ler a íntegra do manifesto aqui, incluindo os nomes dos subordinados de Pedro Parente que tiveram a ousadia de contestar o poderoso chefão, sobre o qual já tive o desprazer de escrever algumas vezes neste blog.
Já escrevi tanto sobre a Petrobrás que pareço militante da campanha “O Petróleo é nosso”, aquela do governo Vargas. Na época, eu tinha uns 7 anos, vivia na roça e me preocupava em aprender a matar passarinhos com o estilingue. Matar passarinho tornou-se politicamente incorreto. Ir matando aos poucos nossa maior empresa estatal e dando, aos jorros, nosso pré-sal aos gringos, não.
(fonte: https://kikacastro.com.br/2017/12/08/empregados-repudiam-presenca-do-juiz-sergio-moro-em-evento-na-sede-da-petrobras/#more-14783)

Novo número da Revista Espaço Acadêmico

Revista Espaço Acadêmico
v. 17, n. 199 (2017): Revista Espaço Acadêmico, n. 199, dezembro de 2017
Sumário
http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/issue/view/1425

administração pública
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Abordagem discursiva da ação pública: o discurso no cotidiano da gestão pública (01-10)
        Leandro de Carvalho

crítica literária
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Relação entre arte e política: sobre a carta de Friedrich Engels a Margaret Harkness (11-21)
        Henrique Wellen

direito
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Sombras da educação brasileira: uma abordagem filosófica do sentido e o alcance do artigo 205 da Constituição Federal (22-34)
        Diogo Valério Félix

Quadro normativo destinado a proteção do idoso no município de Maringá (PR) (35-48)
        João Francisco Toso

educação
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Além do arco e flecha: a construção étnico-identitária a partir da educação bilíngue indígena Potiguara-PB (49-58)
        Pedro Lôbo dos Santos,  Eduardo Dias da Silva

educação & tecnologia
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Situações-problema e tecnologias digitais: reflexões sobre o insucesso de uma prática pedagógica (59-70)
        Tiago Dziekaniak Figueiredo

filosofia política
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As bases fascistas da cruzada histérica contra a cultura (71-79)
        Renato Nunes Bittencourt

geografia
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Território: usos e significados de um conceito (80-90)
        Arthur Breno Stürmer

história
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Uma célula alemã na Colônia Porto Novo: a Linha Presidente Becker (1934) (91-102)
        Maikel Gustavo Schneider

sociologia
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O fascismo italiano e sua relação com as classes sociais (103-115)
        Jordana Souza Santos

sociologia das religiões
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“Não encosta em Deus”: Porta dos Fundos e religião (116-130)
        Lucelmo Lacerda

sociologia jurídica
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Proposta de redução da maioridade penal: a prisão como vingança e equívoco social (131-142)
        Nelson Gomes de Santana Silva Junior,   Renata Monteiro Garcia

resenhas & livros
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A democracia impedida pelo golpe parlamentar de 2016 (143-146)
        Cássio Augusto Guilherme

O Vocabulário Bourdieu (147-148)
        Walter Lúcio de Alencar Praxedes

CARRERI, Marcio Luiz. O socialismo de Oswald de Andrade: cultura, política e tensões na modernidade de São Paulo na década de 1930. Curitiba: CRV,
2017 (164 p.) (149-150)
        REA Editor

MORAES, Carin Sanches de; NERY, José Elias; BAUER, Carlos. História e internacionalismo da Escola Nacional Florestan Fernandes. São Paulo:
Editora Sundermann, 2017. (151)
        REA Editor

SOUZA, Ana Inês; SILVA, Jonas Jorge da; PAZELLO, Ricardo Prestes. (Orgs.) Lutas populares no Paraná. Curitiba: Centro de Formação Milton
Santos-Lorenzo Milani; Instituto de Pesquisa, Direitos e Movimentos Sociais (IPDMS), 2017 (238 p) (152-157)
        REA Editor

domingo, 3 de dezembro de 2017

No Brasil, um continente de monoculturas banhado em agrotóxicos

Atlas da Contaminação 2017, de Larissa Bombardi, da USP, descortina toda a violência silenciosa no campo brasileiro, que intoxica bebês e crianças, causa câncer e outras doenças, malformações e morte.
A reportagem é de Cida de Oliveira, publicada por Rede Brasil Atual - RBA, 28-11-2017.

Os 33,2 milhões de hectares de lavouras de soja que se espalham pela região Centro-Oeste, Sul e parte do Sudeste do Brasil poderiam preencher quase que toda uma Alemanha (35,7 milhões de hectares). Ou ocupar 11 vezes a da área da Bélgica, país que abriga a sede da Comunidade Europeia. A comparação ajuda a dar uma ideia da dimensão territorial dessa monocultura que consome sozinha 52% de todo o agrotóxico vendido no país que é campeão no uso desses produtos.
A cana de açúcar, por sua vez, embora responda por 10% dos venenos utilizados e ocupe menos de um terço da área da soja, açúcar tende a aumentar suas lavouras, que avançam por diversas regiões. Em todo o território de Portugal (9,2 milhões de hectares) já não caberiam os 10,5 milhões de hectares de cana hoje espalhados pelo Brasil. 
Atlas Geografia do uso de agrotóxicos 


A área plantada com soja e cana de açúcar no Brasil, pulverizada 24 horas por dia com agrotóxicos, equivale a praticamente ao continente europeu, que cada vez mais recusa esses venenos
 E com novas plantas geneticamente modificadas em fase de avaliação para liberação, a tendência é que nos próximos anos os agroquímicos sejam ainda mais usados, multiplicando a incidência de casos de câncer, malformações, intoxicações e mortes.
Os dados alarmantes constam do atlas Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia (clique aqui para acessar), lançado nesta segunda-feira (27) pela professora Larissa Mies Bombardi, pesquisadora do Laboratório de Geografia Agrária da Universidade de São Paulo (USP).
No lançamento, uma mesa de debate com o defensor público Marcelo Carneiro Novaes, da 1ª Defensoria Pública de Santo André – Regional do Grande ABC, coordenador adjunto do Fórum Paulista contra os Impactos dos Agrotóxicos e Transgênicos, a médica Telma Nery, que coordena grupo de trabalho no mesmo fórum, a professora Marta Inês Marques, do Departamento de Geografia da USP, e o assessor de Meio Ambiente da CUT São Paulo Marco Antonio Dalama.

Atlas

glifo na água.jpg

O Brasil permite a presença de 5 mil vezes mais glifosato na água do que os países da União Europeia.
Em 290 páginas, Larissa escancara a miséria socioambiental que toma conta do Brasil. No atlas propriamente dito há mapas por regiões, estados e municípios relacionados a intoxicações conforme diversas variáveis, como sexo, circunstância da contaminação, faixa etária, grupos étnico-raciais e locais de exposição.
O estudo demonstra com a realidade de comunidades indígenas contaminadas pelo agronegócio que avança sobre seus territórios, de mulheres que adoecem por trabalhar na colheita de frutas às margens irrigadas do São Francisco, na Região Nordeste. Ou mesmo de bebês intoxicados bem antes de completar 1 ano de vida.
Por meio de infográficos, é possível, por exemplo, ter uma noção do tamanho do problema ao comparar áreas ocupadas por culturas banhadas em agroquímicos, muitos banidos e proibidos no exterior, com as dimensões de  países da União Europeia, onde a população cada vez mais rejeita esses produtos – e governos, como o da França, pretendem adotar medidas cada vez mais restritivas e reduzir a quantidade de venenos permitidos.
Enquanto os países da União Europeia permitem até 0,1 micrograma de glifosato por litro de água, o Brasil permite 500 microgramas5 mil vezes mais.
"O alimento perdeu o sentido de alimento e a terra está sendo violentada para a produção de commodities para exportação, até ser exaurida, perdendo sua fertilidade", disse Larissa, durante apresentação do atlas, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. 
De acordo com a professora, que já havia lançado uma versão preliminar dos mapas, em 2016, a obra tem como pano de fundo a questão agrária, intocada mesmo nos governos de Lula e Dilma Rousseff.
"Dos trabalhadores em situação de trabalho análogo ao de escravo, 70% estão na agricultura, o mesmo setor que consome 70% da água, envenena o meio ambiente e que deixa 1 milhão de pessoas intoxicadas, matando uma a cada dois dias. Trata-se de uma forma silenciosa de violência no campo."

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/574142-no-brasil-um-continente-de-monoculturas-banhado-em-agrotoxicos)

As Conferências do Clima têm sido frustrantes desde Copenhague, em 2009.

A Contribuição Nacionalmente Determinada - INDC, instituída no Acordo de Paris, durante a COP-21, embora tenha tido a intenção de “destravar as negociações” entre os membros da Conferência do Clima, possibilitando que cada país determine suas metas nacionais para enfrentar as mudanças climáticas, “acabou reduzindo a capacidade de os acordos do clima terem efetividade. (...) As INDCs foram uma engenharia diplomática para destravar o acordo. Do ponto de vista da questão climática em si, ela foi um atraso”, avalia a antropóloga Iara Pietricovsky de Oliveira, na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line. “Os países conseguiram chegar a um acordo desde a COP de Paris, mas esse acordo tem pouca capacidade de impacto. A COP-23, que aconteceu em Bonn, mostra que os interesses dos países começam a prevalecer”, constata.

Na entrevista a seguir, Iara Pietricovsky de Oliveira comenta as dificuldades da COP-23 para atingir as metas de financiamento e redução das emissões de gás carbônico. “Esse dinheiro está em risco, embora ele tenha sido orientado para o combate à pobreza e à desigualdade. Esse financiamento está em debate porque países como a Inglaterra estão puxando o debate sobre como readequar o uso desse dinheiro e redistribuir os valores para combater a questão migratória na Europa e a questão climática. Ou seja, fundos que deveriam estar saindo de outros lugares, segundo meu ponto de vista e de outras organizações que participam do debate acerca desse tema, estão sendo usados para outros fins. Para resolver a questão migratória, os países deveriam estar retirando dinheiro dos seus Ministérios do Interior, porque resolver o problema da imigração diz respeito a uma política interna do país em relação à migração”, pontua.

Iara diz ainda que a COP funciona como “uma espécie de quebra-cabeças: a cada nova discussão que acontece na COP, se abre um novo espaço de debate, e aquilo vai virando um monstro com ‘trezentos’ espaços de debates paralelos, sem que sejam vistas as questões mais importantes, como uma definição radical, consistente e política por parte dos governos para combater a mudança climática. Uma mudança nesse tipo de postura não envolve só questões de clima e tecnologia, envolve enfrentamentos de mudanças de padrão energético, de produção e consumo etc”.
Iara de Oliveira | Foto: UNFPA
Iara Pietricovsky de Oliveira é antropóloga e mestra em Ciência Política pela Universidade de Brasília - UnB. Atualmente é membro do colegiado de gestão do Instituto de Estudos Socioeconômicos - Inesc, onde atua à frente de atividades vinculadas à Conferência nas Nações Unidas da Rio+20 e ao G20.

Confira a entrevista

IHU On-Line — Na imprensa, noticia-se que a COP-23 terminou com avanços discretos na implementação do Acordo de Paris. Qual sua avaliação da última Conferência do Clima?
Iara Pietricovsky de Oliveira — Eu venho desde Copenhague, em 2009, quando foi realizada a Conferência das Partes - COP-15, acompanhando os processos da COP e, para ser honesta, as Conferências não vêm me empolgando muito. Mesmo o Acordo de Paris, feito para destravar as negociações, ao criar a figura da Contribuição Nacionalmente Determinada - INDC, acabou reduzindo a capacidade de os acordos do clima terem efetividade. Isso porque as INDCs determinam que metas sejam voluntárias até serem criados sistemas de indicadores que possam ser adotados para países desenvolvidos e em desenvolvimento. Os países conseguiram chegar a um acordo desde a COP de Paris, mas esse acordo tem pouca capacidade de impacto. A COP-23, que aconteceu em Bonn, mostra que os interesses dos países começam a prevalecer.
Acredito que a COP da Polônia será muito mais importante do que a de Bonn, porque mostrará a capacidade ou não de definições de regras comuns, guardando as diferentes responsabilidades dos países em relação ao combate à mudança climática. O que fomos vendo ao longo do tempo é que a única possibilidade para se flertar um acordo é flexibilizar: ter os Estados Unidos dentro do Acordo, como aconteceu em Paris, significou uma flexibilização muito grande, a tal ponto que é quase um antídoto. Então, passa a se ter uma não efetividade no plano dos acordos, do que gostaríamos que fosse, ou seja, acordos vinculantes com um grau de responsabilidade muito maior. Nesse sentido, as COPs têm sido frustrantes ao longo dos tempos, desde Copenhague.
IHU On-Line — Quando as INDCs foram criadas, muitos especialistas afirmaram que se tratava de uma metodologia mais adequada do que a de Kyoto, especialmente porque os países membros da Conferência poderiam se comprometer com metas voluntárias, as quais teriam condições de cumprir. Se, na sua avaliação, as INDCs não conseguem fazer o acordo avançar, o que seria um modelo adequado para se chegar a um acordo que de fato seja efetivo?
Ter os Estados Unidos dentro do Acordo, como aconteceu em Paris, significou uma flexibilização muito grande, a tal ponto que é quase um antídoto
Iara Pietricovsky de Oliveira — Elas não são adequadas; elas são aquilo que foi possível tirar de uma COP que tinha o grande desafio de colocar os Estados Unidos dentro do Acordo. Os EUA não entrariam em qualquer acordo que tivesse algum ponto que os obrigasse a fazer qualquer coisa que viesse de uma definição do plano internacional para o plano doméstico. As INDCs foram uma engenharia diplomática para destravar o acordo. Do ponto de vista da questão climática em si, ela foi um atraso. Na minha visão, deveria ter sido feito o contrário: os governos deviam estar agindo a partir das análises que vêm sendo feitas pelo mundo científico, como o Intergovernmental Panel on Climate Change - IPCC e muitos outros que vêm mostrando que a mudança climática tem relação direta com o modelo de desenvolvimento que adotamos, ou seja, a maneira com que o capitalismo vem promovendo uma depredação consistente, permanente e ampliada da preservação da natureza. Então, ou encaramos isso como algo que é uma instrução radical e absoluta para a mudança de padrão e, com isso, as decisões têm vinculações com consistência, ou seja, os países realmente efetivam compromissos, ou estaremos alimentando processos de negociação infindáveis.

Financiamento

A minha avaliação é esta: o que deveria existir é compromisso real. Vejo a COP como uma espécie de quebra-cabeças: a cada nova discussão que acontece na COP, se abre um novo espaço de debate, e aquilo vai virando um monstro com “trezentos” espaços de debates paralelos, sem que sejam vistas as questões mais importantes, como uma definição radical, consistente e política por parte dos governos para combater a mudança climática. Uma alteração nesse tipo de postura não envolve só questões de clima e tecnologia, envolve enfrentamentos de mudanças de padrão energético, de produção e consumo etc. Por outro lado, o tema do financiamento também mostrou que está longe de ter uma solução, está longe do ponto de vista do dinheiro arrecadado até o presente momento e daquilo que os países se comprometeram em financiar. Esses fundos estão travados, especialmente o Fundo de Adaptação, porque esse é um fundo que nunca foi bem visto pelos países.
O Fundo de Adaptação foi uma conquista desses países, só que eles estão longe, porque os países ricos não estão querendo aportar mais dinheiro; é uma questão básica. Eles não estão querendo aportar mais dinheiro e estão fazendo toda uma engenharia para repensar a cooperação e os fundos que existem e o uso dos seus dinheiros para esses fundos. Por exemplo, tem uma agência de cooperação chamada DAC, que está vinculada aos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico - OCDE. Essa agência cuida da Ajuda Oficial ao Desenvolvimento, que é o dinheiro — até 0,7% do seu PIB — que os países ricos deveriam destinar aos países em desenvolvimento para apoiar medidas de melhoria nas condições de apoio e ajuda a esse desenvolvimento.
Esse dinheiro está em risco, embora ele tenha sido orientado para o combate à pobreza e à desigualdade. Esse financiamento está em debate porque países como a Inglaterra estão puxando o debate sobre como readequar o uso desse dinheiro e redistribuir os valores para combater a questão migratória na Europa e a questão climática. Ou seja, fundos que deveriam estar saindo de outros lugares, segundo meu ponto de vista e de outras organizações que participam do debate acerca desse tema, estão sendo usados para outros fins.
Para resolver a questão migratória, os países deveriam estar retirando dinheiro dos seus Ministérios do Interior, porque resolver o problema da imigração diz respeito a uma política interna do país em relação à migração. Eles não deveriam tirar dinheiro de uma linha de cooperação que já está definida e acordada pelos países ricos e que tem uma linha bastante específica. Ou seja, estão querendo pegar o dinheiro que já está alocado no âmbito da cooperação internacional e reorientá-lo.
Outra coisa é a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris, que tem também uma implicação de financiamento e de aporte, que é importante. Essas duas dimensões são importantes para entender, por exemplo, a questão do financiamento como um fator bloqueador e que é essencial. Ele por si só garante as coisas? Não, ele precisa ter associado a isso uma definição política, mas o fato de acordar em cima de bases voluntárias torna a negociação muito difícil.
IHU On-Line — Além da meta acerca do financiamento climático, outra meta da COP que não foi atingida diz respeito à redução das emissões. Quais foram as dificuldades nesse sentido? E que outras dificuldades além dessas evidenciou na Conferência?
O discurso da Angela Merkel na abertura da COP foi constrangedor
Iara Pietricovsky de Oliveira — Todas essas razões que estou te dando nascem dessas dificuldades, estão ligadas a essa dificuldade. Temos outros elementos, que é por onde vai meu argumento: quando se tem as INDCs, e se dá aos países voluntariamente a possibilidade de decidir como eles vão reduzir as emissões, vemos que na prática isso vai no sentido oposto. O Brasil decidiu renovar o subsídio a combustíveis fósseis, ou seja, foi totalmente na contramão do que deveria estar sendo feito, que é a recessão e a redução do uso dos combustíveis fósseis.
O discurso da Angela Merkel na abertura da COP foi constrangedor. A Alemanha tem sido um exemplo — eventualmente o exemplo de quem joga lixo em cima dos outros para se manter limpo, mas tem sido um exemplo — nas discussões climáticas até então. Mas o fato é que ela está produzindo e queimando carvão, e essa é uma das razões pelas quais está em uma situação bastante delicada em relação à posição que está ocupando agora, e pode ser que até caia; não sei. Merkel é muito inteligente politicamente, pode ser que consiga reconstruir a coalizão de governo, mas o fato é que o discurso dela foi muito constrangedor.
A saída dos Estados Unidos e essa linha política que o presidente americano adotou de estímulo à indústria armamentícia e à produção de guerra é um grande risco. Essa discussão entre Coreia do Norte e Estados Unidos vem nos levando a um tipo de situação que, se ocorrer, terá impactos que talvez nem se consiga medir.
IHU On-Line — Como você comentou, Angela Merkel afirmou, durante a COP-23, que baixar as emissões de carbono para que o mundo não aqueça mais do que 2 graus até o fim do século, conforme sugere o Acordo de Paris, é uma meta ambiciosa demais. Como consequências para atingir essa meta, Merkel chama atenção para o possível aumento do desemprego e para o impacto econômico. Considerando o fato de que a Alemanha tem sido um ator importante nas últimas COPs, qual é o impacto político desse tipo de declaração?
Iara Pietricovsky de Oliveira — O impacto político é que hoje, em certa medida, o fato de ela se colocar dessa maneira colocou um problema muito sério para a Alemanha, pois desde que o Trump assumiu e saiu do Acordo, passou-se a esperar que a Alemanha assumisse a liderança. França e Alemanha são os dois países que estão tentando reconstruir essa discussão. Quando Merkel faz essa colocação, ela perde legitimidade, porque mostra que também está submetida a situações internas que a fragilizam como liderança, tanto que ela está batalhando pela vida política dela.
IHU On-Line — Outro ator polêmico nas Conferências é a China. Como foi a participação do país na COP-23?
A China tem, historicamente, um jogo ambíguo nesse debate. As falas demonstram a ambiguidade da diplomacia chinesa
Iara Pietricovsky de Oliveira — Eu não tenho muito a falar sobre a China, porque participei de poucos debates sobre a situação desse país. No entanto, a China tem atuado de forma bastante ativa no G-77, que é o conjunto de países em desenvolvimento e que abrange cerca de 140 países, e tem sido bem proativa. A China tem, historicamente, um jogo ambíguo nesse debate, no sentido de que as falas, no geral, demonstram a ambiguidade da diplomacia chinesa. Eu não saberia ir além, até porque estamos, aqui no Instituto de Estudos Socioeconômicos - Inesc, começando a tentar entender a presença da China, que começa a se intensificar no Brasil e na América Latina.
IHU On-Line – Em relação à compra de terras na região?
Iara Pietricovsky de Oliveira — Sim, porque os chineses têm projetos de longo prazo de ocupação e de construção de infraestrutura que são muito poderosos. Ao mesmo tempo, eles estão tendo decisões internas de políticas domésticas de redução de emissões, pois vivem em situações gravíssimas e de intensa poluição; Beijing é uma cidade inviável. Portanto, os chineses estão sempre em uma linha de ambiguidades.
IHU On-Line — Que avaliação faz da participação do Brasil na COP-23?
Iara Pietricovsky de Oliveira — O Brasil tem mantido, coerentemente, sua política dentro da COP. Não percebi grandes mudanças no conjunto das negociações das posições que o Brasil tem apresentado em todas as COPs; tem um trabalho muito consistente do Itamaraty nesse sentido. Agora, o Brasil, em termos de offset — nós do Inesc e o grupo Carta de Belém somos completamente contra o offset, assim como o Greenpeace e várias outras organizações sociais que são contra esse mercado de carbono — conseguiu chegar a uma posição, mesmo que o REDD e todos esses mecanismos tenham sido incorporados, pois o Brasil assinou o Acordo de Paris, mas resiste para que tudo isso seja feito via o Estado brasileiro, para benefício das políticas públicas da população brasileira. Então, essa é uma posição que apoiamos e o Brasil tem resistido bastante, ainda que internamente existam grupos fortes, tanto do lado das Organizações Não Governamentais - ONGs, como alguma parcela de movimentos sociais e lideranças indígenas ligadas à Organização WWF, quanto do lado que defende o mercado de carbono, inclusive fazem muita pressão no Fórum Brasileiro de Mudança Climática sobre isso.
O problema do Brasil é que as políticas internas são totalmente contraditórias à posição que o país tem externamente
O Brasil tem mantido uma posição muito resistente e resiliente em relação a isso, o que acredito ser muito bom. O problema do Brasil é que as políticas internas são totalmente contraditórias à posição que o país tem externamente. Já era assim na época da ex-presidente Dilma e agora está ficando muito pior, porque as condições que estão sendo dadas internamente no Brasil apontam exatamente para o contrário. O ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, anunciou, em uma reunião com a delegação brasileira, que conseguiu recuperar o orçamento e que está fazendo todos os esforços.
Acredito até que ele esteja honestamente fazendo esses esforços, mas a questão é que o dinheiro que ele está usando é o do Fundo da Amazônia, ou seja, está queimando o dinheiro para resolver um problema de déficit orçamentário. Esse é um problema que está dado para todo o país por conta da Emenda Constitucional 95, a qual realmente é uma medida de austeridade que impacta. Nesse ponto a questão climática não pode ser vista como a única coisa, pois a questão climática tem a ver com várias outras condições de políticas articuladas e vinculadas para resolver um problema.
Não basta fiscalizar a Amazônia, mas tem que dar condições para que as populações indígenas e suas terras demarcadas sejam efetivadas, porque disso depende também a defesa da Floresta Amazônica. É preciso ter respeito aos sistemas de áreas de preservação. Enfim, há uma série de coisas que vêm sendo desafiadas e, às vezes, abertas de uma forma irresponsável pelo governo brasileiro, e que vai de encontro àquilo que o Brasil deveria estar fazendo para realmente mostrar que ele tem boa vontade política para combater a mudança climática.
IHU On-Line — Em artigo recente você mencionou que, nos debates do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional – FMI, discute-se a possibilidade de um salário universal para amenizar os desastres das mudanças climáticas. Em que consiste essa proposta de um salário mínimo? O que tem sido discutido nesse sentido e como você avalia essa proposta?
Iara Pietricovsky de Oliveira — Essa proposta tem sido colocada há algum tempo, desde a adoção, pelas Nações Unidas, do exemplo brasileiro de políticas de transferência de renda a partir do governo Lula. A proposta parte de uma ideia de que todo o cidadão tem direito a um salário mínimo universalizado. Agora, isso ocorre no momento em que a diretora do Fundo Monetário Internacional [Christine Lagarde], repetidamente, na reunião bianual do Banco Mundial e do FMI, em outubro, em Washington, comentava que dentro de cinco anos estaremos navegando em uma nova economia; essa nova economia chegará rapidamente e está ligada a toda essa discussão de Inteligência Artificial. Essa já é a realidade que vivemos hoje e esse tipo de inteligência artificial que já está operando vai se intensificar, vai produzir desemprego massivo em muitas áreas, entre elas, no campo jurídico, porque haverá sistemas muitos mais eficientes, e na área de transporte, pois já está sendo experimentado em vários lugares o sistema de transporte público sem a participação humana na direção dos veículos. Vários trabalhos que reconhecemos hoje, que existem e que ocupam uma parcela importante da população brasileira, em especial uma parcela da população de classe média e classe baixa, irão desaparecer. Isso causará, segundo, a avaliação deles, o desemprego massivo.
Então, o salário universal nasce a partir de uma tentativa de equalizar a questão: como resolvemos um sistema que irá desalojar e deslocar uma enorme quantidade populacional para funções que deixarão de existir e, ao mesmo tempo, entramos em uma nova era digital, altamente tecnologizada, onde o acesso de trabalhadores a isso será muito menor. Isso já está operando, só que não percebemos. Então, quando vemos — como eu vi — a Christine Lagarde fazendo esse tipo de fala insistentemente em vários e diferentes lugares, quando vemos a discussão que está sendo colocada, de, por um lado, alguns pesquisadores do Direito dizendo que isso é uma questão de direito, portanto temos que universalizar uma renda, e, por outro lado, a solução para o massivo desemprego é o consumo, porque se estrangular a capacidade de consumo, acabaremos com o modelo. Então percebemos que o modelo tem sido tão desigual, tem concentrado tanta riqueza — e nunca antes na história da humanidade tanta riqueza foi concentrada — que é melhor pagar uma parte dessa riqueza por meio de salários universalizados e manter o sistema funcionando, do que equacionar o problema efetivamente do modelo.
IHU On-Line – Mas qual é a relação desse salário universal com as mudanças climáticas? Pelo que você está dizendo, ele funcionaria como uma alternativa aos impactos das mudanças tecnológicas. Ele seria uma alternativa às mudanças climáticas para não mudar o modelo de desenvolvimento?
A ciência e o capitalismo estão tentando buscar tecnologias que possam resolver o problema para, ao mesmo tempo, não mexer no modelo
Iara Pietricovsky de Oliveira — Exatamente, porque um dos grandes eixos do debate climático para a solução do clima é a tecnologia, é o avanço tecnológico. Estão falando em tecnologias que capturam o CO2 e o armazenam na terra, e já existem experiências e lugares onde isso está sendo implantado e realizado, só que não se é capaz de avaliar qual é a capacidade de captura e se isso de fato funciona. Como já estamos em uma situação de concentração de gases de efeito estufa, mesmo se zerarmos tudo, hoje, estaremos produzindo aquecimento global, mas a ciência e o capitalismo estão tentando buscar tecnologias que possam resolver o problema para, ao mesmo tempo, não mexer no modelo. Às vezes até me sinto como uma “ET” nas COPs, porque vamos a lugares onde as pessoas fazem exposições, apresentam e vendem produtos de captura de CO2; é quase surreal.
IHU On-Line — No mesmo artigo a senhora chama atenção para a Plataforma Indígena, que nasce no Acordo de Paris. Em que consiste essa plataforma e como ela poderia contribuir para enfrentar as mudanças climáticas?
Iara Pietricovsky de Oliveira — Essa plataforma é um reconhecimento de que os povos indígenas têm algo a acrescentar ao debate, às soluções e ao enfrentamento das questões ligadas à mudança climática. Isso pelo fato de que as populações indígenas têm conhecimento ancestral, e elas têm sido, reconhecidamente, aqueles povos que mais preservam a biodiversidade e o meio ambiente, e um dos grupos politicamente mais ativos no equacionamento do problema. Então, o reconhecimento de que esses povos indígenas têm algo a acrescentar é muito importante e eles não estão sendo colocados como um corpo — como é o caso da relação do IPCC na Conferência das Partes —, mas eles agora são reconhecidos e estão se organizando para formular propostas para assessorar e também intervir no processo de todo o plano de ação que será constituído a partir de agora.
Eles podem contribuir porque são detentores de um conhecimento e porque todos os registros, análises e pesquisas demonstram, com hipóteses de alto nível de confirmação, que as populações indígenas, em todas as regiões do planeta, são os maiores preservadores da biodiversidade do mundo. Portanto, eles têm um modo de vida, uma maneira de pensar e de reconstruir e, nesse sentido, podem ajudar imensamente com soluções, o que nós, do mundo “civilizado”, não conseguimos, porque temos um modelo de desenvolvimento extremamente predatório. Eles têm agora um espaço de participação no processo de negociação e na busca de soluções.
IHU On-Line — Por que, na sua avaliação, o texto da Plataforma Indígena aprovado pelo SBSTA, o SBI e o UNFCC tem problemas em relação ao financiamento dos membros do Grupo de Trabalho? Quais são especificamente os problemas em relação aos fundos de financiamento GEF, Fundo Verde de Clima e Fundo de Adaptação?
Os povos indígenas têm algo a acrescentar no debate, nas soluções e no enfrentamento das questões ligadas à mudança climática
Iara Pietricovsky de Oliveira — Porque no documento final ficou uma frase, que foi observada por uma das brasileiras que estava acompanhando o processo, que diz o seguinte: “Se a plataforma será subsidiada, a presença daquelas pessoas que serão como partícipes daquele grupo de trabalho, havendo possibilidades e havendo condições, será financiada pela UNSCC”. “Havendo possibilidade” significa que não é vinculante, ou seja, a UNSCC terá que dispor de um orçamento para fazer com que os povos indígenas participem, porque, obviamente, eles não têm dinheiro para participar das negociações. Essa frase fragiliza, porque não é uma frase que vincula, de fato, a obrigação da UNSCC na participação dos índios. É algo que terá que ser brigado mais à frente.
IHU On-Line — Como seria possível aproveitar a potência dos povos indígenas nesse debate?
Iara Pietricovsky de Oliveira — Essa é uma questão bastante pertinente, mas só o processo vai dizer. A capacidade de eles serem enquadrados pelo processo é uma possibilidade, mas também há a possibilidade de eles constrangerem e provocarem o processo da Conferência, porque os líderes que estão lá são pessoas muito fortes e muitos potentes. São pessoas que vivem nas áreas das comunidades, mas também em áreas de convivência com o mundo ocidental por longo tempo, mas que guardam identidades muito fortes. Obviamente eles têm que falar inglês, e há certas formalidades, mas acredito que eles podem trazer uma oxigenação política aos debates que pode mudar muitas decisões lá dentro.
Eles estão sendo afetadíssimos por todo esse processo de mudança climática e pela expansão de um modelo capitalista que os expulsa da terra, que está arrebentando com a terra deles; é o que estamos vendo aqui no Brasil e isso se repete em várias partes do mundo. Destaco que não são só os povos indígenas, mas também comunidades tradicionais, que já sofrem com as mudanças climáticas. Minha esperança é que todos esses segmentos, que são diversos, terão a possibilidade de ter um canal onde poderão conseguir fazer alguma repercussão.

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/574181-as-conferencias-do-clima-tem-sido-frustrantes-desde-copenhague-entrevista-especial-com-iara-pietricovsky-de-oliveira)

Estamos à beira de uma corrida armamentista irracional, denuncia revista americana



“Sabemos que uma guerra nuclear em escala global destruiria a Terra e que essa ameaça existencial é supostamente o que mantém as potências nucleares sob controle. Porém, de acordo com um estudo publicado na revista American Geophysical Union em 2014, até mesmo uma "guerra nuclear limitada e regional", com 100 "armas nucleares pequenas" teria um efeito catastrófico sobre todo o globo”, constata o editorial da revista National Catholic Reporter, 30-11-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Segundo o editorial, “estamos à beira de uma corrida armamentista irracional, e o governo atual vê pouco ou nenhum valor na diplomacia internacional. Que estranha sensação de déjà vu — é 1984 de novo, e o palco parece pronto para o Relógio do Apocalipse chegar ainda mais perto da meia-noite. Exceto pelo fato de que Francisco subiu no palco e está nos chamando de volta à sanidade”.


Eis o texto.

A condenação do Papa Francisco às armas nucleares, "a ameaça de sua utilização, bem como sua própria posse", chegou em um momento crucial, talvez em cima da hora. A possibilidade de armas nucleares serem realmente usadas e o cataclismo que seu uso poderia causar no planeta nunca foi tão grande.
Poucos dias depois de Donald Trump ter se tornado presidente, o Bulletin of the Atomic Scientists mudou os ponteiros de seu Relógio do Apocalipse para dois minutos e meio para a meia-noite. Entre as razões citadas para isso estavam o fato de a Coreia do Norte estar testando armas nucleares, as tensões entre os Estados Unidos e a Rússia, "um aumento do nacionalismo estridente em todo o mundo... bem como numa campanha presidencial dos EUA", e os comentários perturbadores de Trump sobre o uso e a proliferação de armas nucleares. Sabemos muito bem como estas tendências se aprofundaram e escureceram ao longo deste ano.
A única vez em que o relógio do juízo final esteve mais perto da meia-noite foi em 1953, depois que os Estados Unidos e a União Soviética começaram a testar bombas de hidrogênio e a corrida armamentista aumentou. Em 1984, quando as relações entre os EUA e os soviéticos estavam em um impasse e os EUA estavam ameaçando uma nova corrida armamentista, buscando um sistema de mísseis antibalísticos espacial, o relógio foi acertado para três para a meia-noite.
O arsenal nuclear mundial agora totaliza cerca de 15.000 armas: A Coreia do Norte deve ter 30 a 60 e manifestou claramente que está disposta a usá-las. O Paquistão e a Índia, cujas relações bilaterais parecem eternamente tensas, entrando em conflito por quatro vezes desde 1947, têm entre 120 e 140 armas nucleares cada. Israel deve ter 80. O Reino Unido tem 120 armas nucleares instaladas e 95 estocadas. A França, 290 implantadas e 10 estocadas. A China tem 270. A Rússia tem 7.000 armas nucleares — 1.910 implantadas, 2.390 estocadas e 2.700 inativas, esperando para ser desmanteladas. Os Estados Unidos têm 6.800 armas nucleares — 1.800 implantadas, 2.200 estocadas e 2.800 esperando para ser desmanteladas.
Sabemos que uma guerra nuclear em escala global destruiria a Terra e que essa ameaça existencial é supostamente o que mantém as potências nucleares sob controle. Porém, de acordo com um estudo publicado na revista American Geophysical Union em 2014, até mesmo uma "guerra nuclear limitada e regional", com 100 "armas nucleares pequenas" teria um efeito catastrófico sobre todo o globo.
As configurações iniciais de um ataque nuclear limitado eliminaria a camada de ozônio da Terra "em uma escala jamais observada", segundo o estudo, expondo as pessoas, os animais e as plantas a doses de radiação ultravioleta capazes de alterar os genes. Ao mesmo tempo, poeira e fuligem suspensas na atmosfera fariam temperaturas globais despencarem, encurtando ciclos germinativos, reduzindo drasticamente a produção de alimentos e causando uma "fome global nuclear".
Considerando tal cenário, a avaliação de Francisco está correta: "As armas de destruição em massa, principalmente as armas nucleares, criam apenas uma falsa sensação de segurança".
No entanto, muitos líderes mundiais enganam-se e enganam seu povo com conversas e planos de uma guerra nuclear. Sabemos as intenções da Coreia do Norte. Trump afirmou que ele quer o arsenal nuclear dos EUA em "boa forma" e "no topo".

"Quero modernização e reabilitação total."

O governo Trump tem abraçado totalmente uma modernização das forças nucleares, que começou com o Presidente Barack Obama e construiria cinco submarinos estratégicos, 72 bombardeiros estratégicos e 240 mísseis balísticos intercontinentais a um custo de US$ 1,2 trilhões ao longo de 30 anos, de acordo com o Escritório de Orçamento do Congresso (CBO, na sigla em inglês).
Enquanto isso, o governo Trump se recusou a recertificar o acordo nuclear do Irã e envia sinais contraditórios sobre o novo Tratado de Redução de Armas Estratégicas (novo START) com a Rússia. O acordo, de 2010, dá a ambos os países o prazo de até fevereiro de 2018 para reduzir as ogivas nucleares estratégicas implantadas para não mais do que 1.550. Ele também limita mísseis implantados em terra e em submarinos e bombardeiros com capacidade nuclear.
Propostas de orçamento apresentadas na Câmara do Congresso dos EUA interromperiam o financiamento do novo START em 2021, restringiria o financiamento para a organização do Organização do Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares e reduziria o financiamento do trabalho com a Rússia sobre segurança nuclear.
Estamos à beira de uma corrida armamentista irracional, e o governo atual vê pouco ou nenhum valor na diplomacia internacional. Que estranha sensação de déjà vu — é 1984 de novo, e o palco parece pronto para o Relógio do Apocalipse chegar ainda mais perto da meia-noite. Exceto pelo fato de que Francisco subiu no palco e está nos chamando de volta à sanidade.
É bom recordar que, em 1988, o Bulletin of the Atomic Scientists redefiniu o Relógio do Apocalipse para seis para a meia-noite. Nessa altura, Reagan e o líder soviético Mikhail Gorbachev tinham quebrado o gelo das relações bilaterais e colocado as duas nações em um curso de redução de armas, mas estavam sofrendo muita pressão da opinião pública. Grandes demonstrações de armas antinucleares em toda a Europa Ocidental e a América do Norte, sem dúvida, influenciaram líderes políticos.
No entanto, muitos líderes mundiais enganam-se e enganam seu povo com conversas e planos de uma guerra nuclear. Sabemos as intenções da Coreia do Norte. Trump afirmou que ele quer o arsenal nuclear dos EUA em "boa forma" e "no topo". "Quero modernização e reabilitação total."
Hoje, os Estados-membros da ONU estão assinando e ratificando o Tratado de Proibição de Armas Nucleares. Os nove Estados nucleares e alguns de seus aliados rejeitaram o Tratado, mas grande parte do resto da comunidade global apoia a iniciativa.
Assim como com os tratados internacionais que proibiram as minas terrestres e as armas químicas, será necessária ação cidadã global. A liderança de Francisco dá esperança de que se a comunidade mundial atuar em conjunto é possível influenciar a história novamente.

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/574246-estamos-a-beira-de-uma-corrida-armamentista-irracional-denuncia-revista-americana)

Ambição e conflito sobre um mar de petróleo

Como um príncipe audacioso e temerário assumiu na prática o poder na Arábia Saudita. Por que ele ameaça prolongar a agressão ao Iêmen e incendiar o Oriente Médio, com o apoio de Washington
Por Miguel-Anxo Murado, em Contexto y Acción  | Tradução: Ricardo Cavalcanti-Schiel

A princípio parecia um revoltante caso de overbooking: em plena noite do sábado, 4 de novembro, os respeitáveis clientes do Hotel Ritz-Carlton, de Riad, na Arábia Saudita, se viram obrigados a abandonar apressadamente os seus quartos de diárias entre 1.000 e 14.000 dólares. Tinham que deixar seus lugares para outros não menos ilustres (ainda que involuntários) hóspedes. Entre eles se incluíam uma dúzia de príncipes, dezenas de ministros e ex-ministros e algumas centenas de empresários. Todos eles haviam sido detidos ao longo daquele dia, no maior expurgo que se tem notícia na não tão longa nem tão pacífica história da Arábia Saudita. Mesmo que seja só dessa vez, os que dizem que há prisões que parecem hotéis de cinco estrelas agora estão literalmente certos.
Ainda que as autoridades insistam em apresentar a blitz como uma campanha contra a corrupção [versão imediatamente comprada pela grande mídia brasileira], trata-se, a bem da verdade, de episódio de uma encarniçada luta pelo poder. Em termos concretos, trata-se de uma tentativa do poderoso príncipe herdeiro, Mohammed bin Salman (MbS), para se consolidar no caminho do trono, que em breve pode vir a ser rematado. Não obstante, a escalada dessa “noite dos longos punhais” foi de tal magnitude que coisa assim ainda não tinha sido vista no país ― e não porque a Arábia Saudita seja algum poço de tranquilidade. Seus desdobramentos na política externa, que já alcançam o Líbano, podem vir a ser consideravelmente desestabilizadores.
Para se entender a estranha política desse país é preciso, antes de mais nada, ir à árvore familiar, porque os conflitos aí são mais genealógicos que ideológicos. Não é por acaso que o nome do país seja um sobrenome familiar. Arábia Saudita é, de fato, a propriedade da família al-Saud; e ela deteve o poder no curso de não mais que três gerações. Ainda que pareça um país “antigo”, a Arábia Saudita só existe a partir de 1932. Esse curto período, no entanto, foi suficiente para dar à luz uma família de tal forma extensa que a partilha dos frutos do poder pode não ser sempre satisfatória. Abdulaziz Ibn Saud, o fundador da dinastia, teve, só ele, uma centena de filhos, metade deles homens. Atualmente, entre os 15 mi membros da família real, há coisa de 5.000 príncipes de sangue, que consomem o equivalente a 40 bilhões de dólares por ano. Isso significa uma carga cada vez mais pesada sobre a riqueza do país, em especial depois de vários anos de baixos preços do petróleo.

Os mecanismos de poder, ou a falta deles, agravam a rivalidade implícita. A Arábia Saudita não faz uso de um sistema de primogenitura estrita, e menos ainda de instituições democráticas, de modo que a sucessão dos reis sempre foi traumática. A do príncipe (MbS), quando chegue sua hora, não vai a ser uma exceção. Seu pai, o ancião rei Salman, colocou-o em uma boa posição de saída, não só ao nomeá-lo herdeiro como também ao lhe dar o ministério da Defesa. No entanto, o jovem príncipe desperdiçou esse crédito ao lançar o país em uma desastrosa guerra no Iêmen. Seus tios e primos, com o apoio de setores importantes do exército e do empresariado, já planejavam sua queda desde a última primavera. É essa a origem da tal “campanha contra a corrupção”: trata-se do contragolpe com o qual o príncipe pretende assegurar a própria sobrevivência.
A personalidade de MbS é a chave de tudo. A mídia ocidental se esforça para pintá-lo como um reformista. Os críticos insistem na sua ambição desmedida. O que melhor o caracteriza, no entanto, é a temeridade, o excesso de imprudência. Muitos a imputam à sua juventude (nasceu em agosto de 1985), mas parece que, da maneira como as coisas andam, não teremos a oportunidade de comprovar se isso vai mudar com os anos. A intervenção no Iêmen teria sido um desastre mesmo que alcançasse sucesso. E até suas mais bem intencionadas ideias reformistas até agora não foram mais que impulsivas e erráticas. Iniciativas como a autorização [extremamente limitada e condicionada] para que as mulheres dirijam 130 anos depois da invenção do automóvel [N. do T.: algo que deixara horrorizado e sem ação o falecido rei Abdalá, ao ser conduzido pela rainha Elizabeth II, em uma visita ao Reino Unido em 2003, quando esta o levou para passear no seu Land Rover pelo castelo de Balmoral], ou ainda a limitação do poder da polícia religiosa, podem até parecer medidas positivas, mas, isoladas e condescendentes, não constituem parte de qualquer plano efetivo de transformação de uma sociedade medieval.
De maior calado parecem ser as mudanças que o príncipe pretende introduzir na economia saudita, mas nem os objetivos soam realistas, nem os resultados, satisfatórios.




Príncipes e mendigos – Se é preciso buscar no sangue e no parentesco a lógica das lutas pelo poder na Arábia Saudita, seu motor, no entanto, está no petróleo e na economia. A Arábia Saudita é um “Estado do Mal-Estar”: uma espécie de Estado do Bem-Estar intrinsecamente falido. O setor privado representa a metade do PIB, mas é controlado de forma rentista pelos príncipes, e emprega quase exclusivamente imigrantes estrangeiros e sauditas residentes no exterior, o que mal permite produzir benefícios para a população em geral, de 32,2 milhões de habitantes. Os sauditas locais trabalham majoritariamente no setor público, onde os salários são três vezes mais altos que os dos trabalhadores da iniciativa privada. No entanto, o mercado de trabalho é de tal forma ineficiente e a sociedade tão desigual que pelo menos 30% da população vive em estado de pobreza. Em boa medida para controlar descontentamentos, a energia e outros bens básicos, como a água, são subsidiados. Uma vez que o petróleo atualmente não garante mais que uma renda média de 5.000 dólares per capita ao ano, compreende-se que esse sistema não é sustentável. E provavelmente não seja reformável, como é usual acontecer com os sistemas rígidos e hipertrofiados.
O plano de MbS consiste em igualar o mercado de trabalho, rebaixando em um terço o salário do funcionalismo, reduzir o gasto público eliminando os subsídios da energia, e privatizar parte da petroleira pública Aramco, abrindo 5% do seu capital em bolsa, para, com isso, criar uma “cidade da tecnologia” [comprada como um irreal “pacote pronto”] nas margens no Mar Vermelho, visando, assim, diversificar a economia.
Essa “ponte para o futuro” foi batizada de Visão 2030. Entretanto, não como “visão”, ela está se revelando, antes, como uma miragem no deserto. Ao se implementarem os cortes nos subsídios da eletricidade e da água, a resposta da população obrigou seus gestores a darem marcha a ré. Em abril último, diante dos protestos dos funcionários, também foi preciso levantar as reduções salariais impostas. E, finalmente, no que respeita à “cidade da tecnologia”, ela parece, antes, um reconhecimento das insuficiências da economia saudita que a sua solução. NEOM, como ficou conhecida, custará 500 bilhões de dólares e será pilotada por meio de robôs. Pode-se dizer que ela é uma metáfora do que o reino se tornou: um grande desperdício gerido por autômatos.
Isso nos leva de volta ao Ritz-Carlton. Foi lá onde se fez a apresentação, solene e triunfalista, do projeto NEOM. Ao redor dos canapés se reuniram a elite do empresariado saudita e os rostos mais conhecidos da família real. Menos de um mês mais tarde, muitos deles encontram-se compulsoriamente “hospedados” nesse mesmo hotel. No salão de baile onde foram apresentados os vídeos em 3D do projeto, dormem agora, sobre colchonetes, os policiais encarregados de vigiá-los.
A obsessão com o Irã – a política exterior saudita tem muito a ver com a economia, mas esta última não é determinante da primeira. A guerra do Iêmen, por exemplo, pode ser explicada em parte pela necessidade de explorar ― dado o esgotamento virtual dos atuais campos sauditas ― a assim chamada Zona Vazia, uma vasta área rica em petróleo, que está na fronteira entre os dois países. No entanto, na geoestratégia regional, falam mais alto os imperativos religiosos que os interesses econômicos concretos. O Irã, a grande fixação de Riad, pode até ser uma ameaça real, mas o elemento chave para explicar a hostilidade saudita é de que se trata de uma potência xiita, e não uma potência sunita. Isso faz com que, ainda que não estejam desprovidas de elementos racionais, as estratégias exteriores sauditas se inclinem mais para a paranoia e para a falta de comedimento.
Mais uma vez, a personalidade de MbS agrava essa deriva. A iniciativa que produziu a guerra do Iêmen baseou-se no temor de que o Irã pudesse convertê-lo em sua base ― algo sobre o quê parece haver muito poucos indícios. A pressão sobre o Catar, que chegou à beira da própria guerra, se justificava pela atitude mais amistosa desse emirado com o Irã. A confrontação acabou tendo o efeito de transformar aquela amizade em aliança. O mesmo aconteceu na Síria, onde Riad investiu uma enorme fortuna no apoio a grupos jihadistas sunitas, e o que conseguiu foi jogar Damasco nos braços de Teerã.
O conflito atual com o Líbano precisa ser visto nesse contexto de frustração diante dos repetidos fracassos nesse embate, em parte real, mas em parte imaginário, com o Irã. Riad interpreta a presença do partido xiita Hezbolá no governo de Beirute como uma ingerência iraniana. Na realidade, o Hezbolá participou de vários governos durante anos, sua força eleitoral e o sistema libanês de governo a partir de quotas faccionais tornam isso praticamente inevitável. Mesmo os sauditas têm uma presença constante, provavelmente até maior, na política libanesa. Eles a exerceram durante anos a fio através da família sunita Hariri; primeiro por meio do empresário da construção Rafiq Hariri, até seu ainda não elucidado assassinato em 2005, e a partir de então por seu filho Saad.
Saad Hariri não é exatamente um entusiasta do Hezbolá. Afinal, muitos creem que teria sido essa força [outros creem que foi o Mossad, o serviço secreto de Israel] que teria dado cabo de seu pai. Entretanto, a política libanesa, por assim dizer, é pragmática, e em 2009 Hariri firmou um pacto de governo com a milícia xiita, tornando a fazê-lo no ano passado. Por conta desse pacto, Michel Aoun, um general cristão maronita, aliado do Hezbolá, tornou-se presidente e o próprio Hariri tornou-se primeiro ministro. Naquele momento, o acordo foi entendido como uma trégua entre a Arábia Saudita e o Irã. O que aconteceu agora, em 4 de novembro, no mesmo dia da “noite dos longos punhais”, foi que o príncipe MbS decidiu romper a trégua, forçando a demissão de Hariri.
De que essa demissão tenha sido forçada dá pistas o fato de que Hariri fez seu anúncio em Riad, por meio da televisão saudita, e com um discurso de boneco de ventríloquo, no mesmo estilo da retórica do reino sunita. Pouco antes, o celular do primeiro ministro libanês ficou repentinamente sem cobertura; e pouco depois o próprio Hariri desapareceu durante dias, em meio a rumores insistentes de que teria sido, na verdade, sequestrado pelas autoridades sauditas. É verdade que demitir-se em circunstâncias pitorescas parece ser uma especialidade de Saad Hariri. No seu mandato anterior como primeiro ministro, o fez durante uma reunião com o presidente Obama, no Despacho Oval da Casa Branca. Dessa vez, no entanto, a coisa é mais grave.
Se a família Hariri vem sendo testa de ferro de Riad na política libanesa, o que ganhariam agora os sauditas obrigando-o a se demitir? Uma hipótese é que Hariri irritou MbS ao se negar a expulsar o Hezbolá do seu gabinete. Outra, é que se pretenderia substituir Saad por seu irmão mais velho, Bahaa. Isso é pouco verossímil. Há vários anos, Bahaa recusou-se a suceder o seu pai à frente do Movimento Futuro, com a desculpa esfarrapada de que a política libanesa lhe parecia tediosa ― ela pode ser qualquer coisa, menos isso! O mais provável é que MbS esteja pondo em prática a sua tática preferida: criar uma situação caótica, na esperança de que o rio revoltoso acabe lhe beneficiando. Nesse caso, parece acreditar que, ao forçar uma crise em Beirute, a instabilidade estimulará Israel a atacar novamente o Hezbolá, como em 2006. Seria melhor que o príncipe se lembrasse de que, naquela ocasião, o Hezbolá ganhou a parada.
Semear o caos na política libanesa não chega a ser algo difícil. Com efeito, poderia ser apenas redundante. Os libaneses estão tão habituados com a instabilidade que, de imediato, não parece sequer que notem a diferença. Além do mais, ficaram mais de dois anos sem primeiro ministro, entre 2014 e 2016; alguns dias sem Hariri não são lá grande coisa. MbS, no entanto, têm outros meios para causar problemas ao Líbano: como ocorre com outros países do Oriente Médio e do Norte da África, os sauditas controlam boa parte de sua dívida nacional. Mesmo que o precedente do assédio ao Catar devesse ter-lhe ensinado que esse tipo de tática pode ter efeitos francamente indesejados, os precedentes a respeito do próprio MbS fazem crer que ele não vai levar isso em conta.
Por outro lado, o contexto favorece as decisões intempestivas, e outro hóspede recente do Ritz-Carlton tem muito a ver com isso. Quando Donald Trump visitou a Arábia Saudita em maio ― sua primeira viaje ao exterior como presidente ―, sua eterna falta de caráter disfarçada de franqueza entrou em sintonia com a irresponsabilidade disfarçada de espírito visionário de MbS. O resultado foi que o príncipe ficou com a impressão de que Trump lhe deu luz verde para fazer e desfazer no Oriente Médio, e pode até ser que assim seja. Agora só resta ver até onde chega esse projeto pessoal e contraditório do “príncipe louco”: uma teocracia com pretensão de parecer moderada; uma economia do desperdício, reformada por meio de obras megalomaníacas; e uma diplomacia guiada por medos, mais que por alianças.

(fonte: http://outraspalavras.net/destaques/ambicao-e-conflito-sobre-um-mar-de-petroleo/)