domingo, 13 de agosto de 2017

E o carro elétrico não nos libertará…

Para tentar salvar um modelo falido, indústria automobilística sugere que modelos elétricos pouparão o planeta. Por que a saída é ilusória. Quais as opções efetivas
Por George Monbiot | Tradução: Inês Castilho

Dizemos a nós mesmos que apreciamos a eficiência. Mas criamos um sistema de transporte cujo princípio é o desperdício. Carrocerias de metal (que aumentam a cada ano), cada uma carregando uma ou duas pessoas, viajam em paralelo para os mesmos lugares. Caminhões carregando mercadorias idênticas em direções opostas passam uns pelos outros em viagens de mais de 3 mil quilômetros. Empresas concorrentes cruzam as mesmas rotas de encomendas, em vans em grande parte vazias. Poderíamos, talvez, reduzir nosso movimento de veículos em 90% sem prejuízo do serviço, e com um grande ganho em nossa qualidade de vida.
Mas contestar essa forma peculiar de insanidade é, como sinto na pele, ser considerado insano. Veja como a publicidade está dominada pelas empresas que fabricam carros, e você começa a entender o impulso para assegurar que esse sistema ilógico persista. Olhe para o poder de lobby da indústria automobilística e seu apoio na mídia, e você vê por que vários planos para enfrentar a poluição parecem destinados a fracassar.
Sugira um sistema mais simples, e você será calado por pessoas insistindo que não querem viver numa economia planificada. Mas nesse aspecto (e outros) nós já vivemos numa economia planificada. Hoje os planejadores fazem algumas pequenas cocessões para ciclistas, pedestres e carros, mas seu objetivo primordial é maximizar o fluxo de veículos privados. Ao invés de encorajar o uso mais eficiente da infraestrutura existente, eles continuam aumentando o espaço de que a ineficiência precisa para expandir-se.
A Grã-Bretanha é um exemplo. O novo programa do governo para a poluição avisa que suas próprias ações serão limitadas, “pois precisamos manter disciplina das despesas publicas”. Mas sustenta o que o Departamento de Transportes exibe como o “maior modernização de rodovias em uma geração”. Lançado em 2014, no ápice do programa de “austeridade” de David Camero, esse plano prometia “triplicar os gastos até o final da década”, com 15 bilhões de libras [mais de 60 bilhões de reais] para um projeto de mais de cem novas estradas.
Novas rodovias não resolvem congestionamentos de trânsito. Elas o exacerbam. Ao aumentar o fluxo em algumas partes da rede, geram gargalos em outras. Os governos então tentam contornar o gargalo criando um ainda pior ao longo do sistema. Não importa quantas vezes e quão poderosamente se demonstre que mais estradas resultam em mais trânsito (as primeiras descobertas foram publicadas em 1937): o programa persiste.
Nenhuma solução para os vários problemas causados por esse caos planejado pode ser executada, já que a eficiência seria injuriosa para certos interesses. O sucesso é medido pelos quilômetros viajados, ao invés de necessidades atendidas. É como medir a saúde da população pelo volume dos medicamentos que ela consome.
Nenhum sacrifício em vidas, terras ou ouro é suficiente para satisfazer o deus de metal. Uma nova crise de dívidas, envolvendo agora carros ao invés de casas, ameaça ajudar a catalisar outra catástrofe, já que os planos pessoais de financiamento sob os quais a maioria dos automóveis são hoje comprados sobrecarregam algumas famílias com débitos impossíveis.
Mas, de novo, apesar disso os governos evita a todo custo questões fundamentais sobre por que e como usamos o transporte, e se poderíamos melhorá-lo. A Grã-Bretanha propôs a mais limitada de todas as respostas possíveis, diante da decisão do Tribunal Superior que obriga o governo a tomar medidas com relação às emissões de dióxido de nitrogênio (NO²).
As autoridades locais terão permissão de introduzir “zonas de ar limpo” [nas quais se bloqueia a circulação de veículos] – de longe a medida mais efetiva e de melhor eficiência por custo – apenas quando outras opções (em sua maioria, inúteis) forem esgotadas. A eficiência deve ser desencorajada em todos os casos. Assim que a “conformidade com a lei for alcançada”, essas zonas devem ser extintas.
Conformidade com a lei não é a mesma coisa que segurança pública, especialmente se está baseada em medidas limitadas. O dióxido de nitrogênio é apenas um componente da poluição. Outro são as partículas, às quais, de acordo com o documento do governo, “não  há nível seguro de exposição conhecido”. O governo não deveria fazer de tudo para resolver o assalto aos nossos corpos — em vez de o mínimo requerido para evitar outra derrota na Justiça?
Mas não tenha medo: lá por 2040, os novos veículos a diesel ou petróleo serão vendidos no Reino Unido. Esse, aparentemente, é o cronograma apropriado para responder ao que um comitê parlamentar denomina “emergência de saúde pública”. Uma criança nascida hoje terá 23 anos quando essa política for implantada. Então os danos ao desenvolvimento de seus pulmões e cérebro já terão sido feitos. E a mudança vai acontecer de qualquer modo, sem a ajuda do governo. A Volvo anunciou que venderá apenas carros elétricos ou híbridos-elétricos de 2019 em diante. O banco holandês ING prevê que todos os novos carros na Europa serão elétricos em 2035. Que não se acuse esse governo de ambição…
Mesmo que essa política fosse implantada mais rapidamente, ela procura garantir que nada mais mude em nosso extravagante sistema. Os carros elétricos resolvem apenas parte do problema. Eles poluem menos o ar, mas ocupam o mesmo volume de rodovias e de espaço para estacionamento. Os recursos para fabricá-los – e o volume de minas e portos e montadoras que destroem habitats preciosos em todo o mundo – podem até mesmo aumentar. Embora o total de emissões de carbono e poluição do ar causadas pelos carros elétricos seja mais baixo do que o gerado pelo sistema fóssil, o uso da eletricidade terá de crescer. Se você está entre aqueles que apoiam carros elétricos mas se opõem a usinas nucleares, pode ter de reconsiderar uma de suas posições.
Que tal tentar explorar algumas soluções para a poluição que mudem esse sistema ridículo, em vez de prolongá-lo indefinidamente? Por que não trocar o espaço destinado aos carros nas ruas por ciclovias seguras, para fazer da bicicleta uma forma relevante de transporte urbano? Por que não lançar um esquema de desmonte que troque carros por bônus para usar transporte público? Por que não implementar planos engenhosos, propostos por economistas como Alan Storkey,  para um serviço de ônibus interurbanos modernos, que é tão rápido e conveniente como o transporte privado, mas usa uma fração do espaço viário?
Em muitos setores, considera-se que houve progresso quando há redução do volume de um sistema, ao mesmo tempo em que se amplia seus serviços. Por que o mesmo princípio não se aplica ao transporte?

Brasil, país ainda insalubre


Quase metade dos brasileiros continua sem rede de esgotos, e 20% não têm água em casa. Não seria difícil atendê-los — mas os investimentos estancam e, pior, fala-se em privatização
Por Washington Novaes, na Envolverde

A cada vez que se divulgam números sobre os serviços de saneamento urbano no País, crescem as preocupações. Agora, as informações são (Estado de São Paulo, 10/7) de que quase metade da população nacional não é atendida pela rede de esgotos – ou seja, perto de 100 milhões de pessoas – e quase 20%, perto de 40 milhões, não tem fornecimento de água nos domicílios. Para completar, mais de um terço de toda a água distribuída se perde no meio do caminho. E a causa de todos os problemas é a falta de investimentos.
Tudo se complica ainda mais quando se é informado de que para universalizar até 2033 (daqui a 15 anos) os serviços de saneamento básico o País terá – ou teria – de investir mais de R$ 20 bilhões por ano. Mas entre 2010 e 2015 o investimento médio foi de R$ 11 milhões por ano, pouco mais de metade do necessário. Sem falar em redução ou eliminação das perdas. E para dificultar ainda mais as soluções, hoje boa parte do sistema é administrada por empresas dos Estados, em situação financeira difícil, com patrimônio líquido negativo, dívidas altas, problemas trabalhistas e serviços de má qualidade. Com isso, há dois anos o atendimento urbano de água só chegava a 83,3% do público total.
Entre 2014 e 2015 o investimento caiu até 27% – quando se sabe que cada R$ 1 investido em saneamento levará à economia de até R$ 4 no sistema de saúde. Mas o total investido em 2005, por exemplo, ficou entre R$ 5 bilhões e R$ 6 bilhões; mesmo em 2015 não passou de R$ 12,1 bilhões. Não se deve estranhar, assim, que em Rondônia só 2% da população urbana conte com coleta de esgotos; nada é tratado. Na Bahia, só 3,41% da população tem rede de coleta de esgotos; no Amapá, 3,71% . Onze Estados já contrataram estudos para a expansão, dez já assinaram contratos.
Há quem pense que pelo menos parte do problema poderá ser resolvida com a utilização de águas transpostas, por exemplo, do Rio São Francisco, que seriam utilizadas na irrigação de lavouras. João Suassuna, da Fundação Joaquim Nabuco, adverte, porém, que a expansão do agronegócio está exigindo mais irrigação, quando um pivô central pode consumir 2,6 metros cúbicos de água por hora; a captação de água diretamente nos aquíferos em geral envolve questões difíceis: entre 2015 e 2016 as disputas por água aumentaram 27%, segundo números da Comissão Pastoral da Terra (envolvendo 164 mil pessoas em 2007 ou 222 mil em 2016). As causas principais apontadas são a utilização da água como commodity, que leva a conflitos com grupos sociais que a encaram como bem essencial à vida.
Há ainda quem aponte efeitos negativos em processos de privatização de sistemas de água. E até casos de conflitos muito graves, em que se tornou necessária a retomada das instalações pelo poder público. Outros críticos lembram, por exemplo, que em 2015 o BNDES entrou com R$ 57 bilhões em subsídios para privatizações (Folha de S.Paulo, 9/7). Há quem proponha que os processos de privatização e concessão de subsídios sejam obrigatoriamente aprovados pelo Congresso Nacional. O tema foi um dos centrais no 47.º Congresso Nacional de Saneamento, em junho. Nele a Associação Nacional dos Serviços Municipais de Saneamento (Assemae) reafirmou seus “compromissos históricos” de luta contra a privatização do saneamento básico (boletim de 19 a 22 de junho), lembrando que “a sustentabilidade econômico-financeira dos serviços de saneamento básico não foi ainda alcançada em muitos municípios brasileiros”.
Nesse congresso se registrou ainda que o saneamento básico em áreas rurais também precisa ter prioridade nas políticas públicas de todos os municípios. E que a recuperação das nascentes, “já uma área prioritária em todo o mundo”, deve incluir “estratégias como o controle da erosão do solo e a minimização da contaminação química e biológica; para garantir a renovação das nascentes também é necessário o combate ao corte intensivo das florestas nativas, queimadas, pastoreio intensivo, mau planejamento na construção de estradas e loteamentos”.
O tema vai-se tornando cada vez mais candente com a gravidade da situação, exposta em relatórios oficiais, estudos universitários e outros. O senador José Serra, por exemplo, em artigo recente (22/6), reiterou que “a coleta de esgotos no País é de apenas 50% e apenas 43% dos esgotos coletados são tratados; na Região Norte essa proporção se reduz a 16%”. E acentuou: “A coleta de esgotos, seguida do seu tratamento, beneficia menos de um quarto da população brasileira”. Entre as consequências, indica: “Estimativas do Instituto Trata Brasil apontam que 340 mil internações anuais são causadas por infecções decorrentes da falta de saneamento básico. Entre as dez cidades brasileiras onde há menor cobertura, a média de internações é quatro vezes maior do que entre as dez cidades mais bem atendidas. Milhares de mortes ocorrem como consequência dessas enfermidades”.
Mesmo com tanta gravidade, a precariedade dos serviços básicos no Brasil está demonstrada pelos investimentos médios no setor, que correspondem a menos de dois terços das necessidades apontadas em estudos reconhecidos pelo poder público. A que se deveria isso? Há muitas respostas que atribuem a culpa à indiferença do poder público. E uma elas é do ex-ministro Delfim Netto (Folha de S.Paulo, 3/7): “O poder econômico controla o poder político no Brasil.”
Mas é preciso lembrar sempre um dos últimos relatórios da Organização Mundial da Saúde (Reuters, 7/3): “Ambientes poluídos e insalubres matam 1,7 milhão de crianças por ano, uma em cada quatro”, por causa de “riscos ambientais, poluição do ar e da água, falta de saneamento básico e de infraestrutura adequada de higiene”. A taxa de mortes no Brasil é de 41,38 crianças com menos de 5 anos por 100 mil habitantes, principalmente por falta de saneamento básico.
*Jornalista. e-mail: wlrnovaes@uol.com.br

(fonte: http://outras-palavras.net/outrasmidias/?p=494868)

Nossos partidos: ideológicos ou fisiológicos?

Por Jaime Pinsky, historiador e editor, doutor e livre docente da USP, professor titular da Unicamp.
No meio da confusão que tem caracterizado o parlamento brasileiro, da venda de votos em troca de verbas e de postos na administração pública, no meio do desapontamento das pessoas com relação à honestidade de políticos que se apresentavam como baluartes da ética, no meio de conluios vergonhosos alinhados secretamente, ou fechados de forma descarada e explícita, podemos ser levados a acreditar que nada é ideológico e tudo é fisiológico. Isso de fato acontece com um bom número de congressistas, com um grande número de partidos, mas não com todos. Há alguns que continuam fiéis aos seus ideais – e nem sempre isso é tão bom. De um lado, temos uma direita retrógrada, contrária a qualquer avanço social e comportamental, truculenta, homofóbica. Mas não é dela que quero falar hoje, e sim de partidos autodenominados de esquerda.
Temos, por exemplo, aqueles que não se conformaram com as mudanças ocorridas no mundo e levantam bandeiras já mofadas, superadas pela História. Afinal, ranços de stalinismo e maoísmo nos dias de hoje (quando a Rússia e a China já disseram adeus a esses ideais há muito tempo) , saudades de regimes assassinos, não podem recomendar grupelhos partidários inexpressivos em votos, mas barulhentos. É uma velha esquerda, no mau sentido da expressão. Essas correntes políticas participam do jogo democrático para destruí-lo, pois seu objetivo são as mudanças estruturais em ritmo acelerado, o rompimento radical da ordem institucional. O resultado de sua ascensão ao poder seria o partido único (pois a verdade para eles é única), o fim da liberdade de expressão (tanto da imprensa quanto do indivíduo), da propriedade privada dos bens de produção, o controle da atividade artística (Mao chegou a proibir a execução de músicas de Mozart, Stalin simplesmente mandou matar numerosos escritores). Os representantes desses arcaísmos em forma de partido clamam por democracia: democracia esta que seria imediatamente confiscada dos brasileiros caso esses partidos chegassem ao poder.
Temos os agrupamentos originários de sindicatos. Em algumas décadas a economia mundial mudou muito e hoje em dia tem mais gente ligada ao setor de serviços do que à produção de bens industrializados. Os avanços no sistema produtivo deslocaram a atividade sindical do chão de fábrica para os escritórios dos edifícios de empresas privadas e públicas. Os partidos de base sindical teriam  que mudar seu DNA, mas não tiveram muito sucesso nesse processo: mantiveram algumas características negativas do velho sindicalismo (dirigentes se eternizando no poder, verbas garantidas por lei, ligação promíscua com o Governo) e não se renovaram. E pior, quando no poder, praticaram “malfeitos” (na expressão delicada da ex-presidente Dilma) em nome da continuidade no poder, para defender o povo...
O diabo é que pouca gente pensa e age como uma esquerda moderna, voltada para avanços na área de comportamento, da representatividade real, de um sistema de impostos progressivo bem estruturado que não desestimule os investimentos produtivos, mas não puna os menos aquinhoados, de uma escola pública universal e de qualidade. O irônico é que poucos países (se é que houve algum) tiveram na presidência, como nós, durante oito anos um importante intelectual com convicções social democratas e durante outros oito um importante líder sindical de origem operária. Contudo, depois desses dezesseis anos, que deveriam ser de avanços importantes, continuamos com uma escola pública que reproduz as diferenças sociais em vez de aplainá-las. E é claro que não são os cursos superiores de má qualidade, desses que funcionam com taxímetro, que vão dar melhores condições aos jovens que não conseguem entrar em boas universidades. Depois desses dezesseis anos de governos supostamente progressistas, continuamos tratando o aborto como uma questão religiosa e não um problema de saúde. Continuamos burocráticos e ineficientes se comparados com países de primeiro mundo, mas também nossa ineficiência se manifesta se comparada com nações emergentes que, graças à desburocratização, a uma escola pública de qualidade e a avanços na área de comportamento, saíram lá atrás e rapidamente nos ultrapassaram.
E ainda tem gente no Congresso que lança manifestos de apoio a Maduro, o tirano que está infelicitando a Venezuela... Bem o PSOL, que até parecia um partido moderno de esquerda. Que desilusão! Pelo visto, de moderno ele só tem o Jean Wyllys.

“Recordes de temperatura? A culpa é do ser humano”: o relatório de 13 agências dos EUA sob risco de “censura” de Trump


O New York Times publicou o rascunho do documento, ainda à espera de que o governo o aprove. As conclusões são dramáticas: “Não se trata de ciclos naturais. A temperatura global está em seus níveis mais altos há 1500 anos”.

A reportagem é publicada por La Repubblica, 08-08-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.


As temperaturas médias nos Estados Unidos aumentaram dramaticamente nas últimas décadas, alcançando o seu maior nível há 1.500 anos. A afirmação é de um relatório federal preliminar, elaborado por 13 agências e ainda não aprovado pelo governo Trump.

“Os estadunidenses sentem agora os efeitos das mudanças climáticas”, afirma um relatório preparado por 13 agências, mas não aprovado pela administração do presidente Donald Trump. “Quanto o clima vai mudar no futuro – diz-se ainda – depende das emissões.”

Nota da IHU On-Line: confira aqui a íntegra do relatório confidencial, em inglês.

O New York Times obteve uma cópia confidencial do relatório, vazado pelos cientistas que temem que a Casa Branca possa silenciar as conclusões, claramente em contradição com as afirmações do presidente Trump e em contraste com a escolha de abandonar o Tratado da COP21 de Paris sobre as mudanças climáticas.

“As provas das mudanças climáticas são abundantes, do alto da atmosfera até as profundezas dos oceanos”, explica o rascunho. Trata-se de um relatório concluído este ano e que faz parte do National Climate Assessment pedido pelo Congresso a cada quatro anos.
Um dos mapas incluídos no relatório, que mostra que o aumento das temperaturas ocorre em cenários com uma concentração mais alta de gases do efeito estufa (Fonte: New York Times)
De acordo com esse documento, nos Estados Unidos, as consequências do aquecimento global já são evidentes. Para os cientistas, a elevação das temperaturas registrada nos últimos 60 anos deve-se à ação do ser humano.

De 1880 a 2015, as temperaturas aumentaram 1,6 graus Fahrenheit (ou 0,9 graus centígrados), e as causas devem ser consideradas relacionadas com o comportamento dos seres humanos. A partir de 1980, a situação precipitou ainda mais, com um dramático aumento das temperaturas, que levou ao clima mais quente dos últimos 1.500 anos.

Explica o relatório: “Há evidências que demonstram que as atividades humanas, especialmente as emissões de gases de efeito estufa, são as principais responsáveis pelas mudanças climáticas observadas na era industrial. Não há outras explicações alternativas, não se trata de ciclos naturais que possam explicar essas mudanças climáticas”.

O medo, porém, é em relação à continuação das pesquisas. De acordo com o New York Times, uma parte dos estudiosos que trabalharam no relatório acreditam que o governo Trump pode bloquear as pesquisas. Além dos já lembrados posicionamentos de Trump e da retirada da COP21, a administração escolheu como diretor da Epa, a Agência de Proteção Ambiental, Scott Pruitt, desde sempre cético em relação ao climate change.

E parece até que o Ministério da Agricultura pediu que seus funcionários não empreguem a expressão “mudanças climáticas”, mas prefiram outras locuções, como “situações meteorológicas extremas”.

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/570447-recordes-de-temperatura-a-culpa-e-do-ser-humano-o-relatorio-de-13-agencias-dos-eua-sob-risco-de-censura-de-trump)

A Samarco, a justiça brasileira e a nudez em praça pública


Até quando a Justiça será rápida em atender os criminosos e paralisada para garantir os direitos das vítimas? Até quando os acordos judiciais servirão apenas para dar mais poder a quem deveria estar preso?, indaga Thiago Alves, jornalista e militante do MAB, em artigo publicado por Movimento Atingidos por Barragens - MAB, 09-08-2017.
Segundo ele, está difícil de acreditar em martelos de juízes. O único martelo que está fazendo a diferença é o que simboliza a luta dos trabalhadores e atingidos e atingidas do campo e da cidade que devem permanecer reunidos e em luta, que é a única maneira de garantir os direitos e a intimidade ainda não devolvida.

Eis o artigo.
A semana começou com o noticiário nacional sendo surpreendido pela informação de que Jacques de Queirós Ferreira, juiz federal na mineira Ponte Nova, acatou o argumento da defesa dos dirigentes da Samarco Mineração S.A à época do rompimento da barragem de Fundão, em 5 novembro de 2015, e suspendeu o processo criminal referente à tragédia.
A decisão beneficiou, além do presidente atualmente afastado da Samarco, Ricardo Vescovi de Aragão, o diretor de Operações e Infraestrutura, Kleber Luiz de Mendonça Terra, três gerentes operacionais da empresa, 11 integrantes do Conselho de Administração da Samarco e cinco representantes das empresas Vale e BHP Billiton na governança da empresa que respondem na ação penal por dolo eventual.
O argumento utilizado pela defesa e acolhido pelo juiz federal é que as escutas telefônicas foram utilizadas de forma ilícita. Na decisão, Jacques argumenta que a Polícia Federal teria “desrespeitado a intimidade dos acusados” ao realizar os grampos. O Ministério Público Federal (MPF) nega ter usado o conteúdo apontado como ilícito.
Não adianta entrar pelo labirinto dos argumentos jurídicos. Como “torre de vigia” da classe dominante, o direito e o poder judiciário existem na sociedade de classes para garantir privilégios de quem detêm o poder, legitimar o discurso da dita “necessária ordem social” que, em tempos de Golpe de Estado e retirada de direitos, não passa de desordem imposta pela violência do Estado e das quadrilhas empresarias instaladas nele.
Este mesmo argumento foi utilizado para anular importantes investigações no país como as deflagradas pelas operações Castelo de Areia e Satiagraha, que já denunciavam o conluio e a corrupção historicamente conhecidas entre banqueiros, empreiteiros e políticos no Brasil.
Por claras razões políticas, as operações foram anuladas, delegados suspensos ou demitidos e juízes punidos ou processados. Alguns anos depois, começava a Operação Lava Jato investigando os mesmos crimes. Apesar de usar métodos parecidos e sendo acusada de várias irregularidades, a Lava jato continua sendo usada como instrumento político-partidário demostrando, claramente, como a “Justiça” atua com dois pesos e duas medidas.
Antes de argumentos, gostaria de convidar o juiz federal Jacques de Queirós para visitar as famílias atingidas. Dar um passeio nas cidades vizinhas à sua Ponte Nova. Pode vir por asfalto mesmo até Barra Longa, que já pertenceu ao seu município. Levo-o na casa da dona Geralda Maria Bento, uma idosa de 78 anos que está sem casa desde o rompimento. Junto com integrantes das 9 famílias do distrito de Gesteira, aguarda pelo reassentamento que as duas maiores mineradoras do mundo foram incapazes de sequer apresentar estudos decentes para a construção.
Ainda em Barra Longa posso apresentá-lo ao Riso, cuja casa ainda cheia de lama está cercada por tapumes para não “estragar” a reforma feita pela Samarco no centro da cidade. Exercendo o direito de mexer no próprio lar destruído, Riso está retirando por conta própria a lama deixada pela empresa. Ao fazer isto, leva os rejeitos novamente à praça. E a poeira e o mau cheiro voltam a perturbar os vizinhos atingidos.
Também podemos mostrá-lo o caso de Eva, moradora da beira do rio Carmo que teve sua casa completamente devastada. Foram meses até as obras de sua nova casa começarem, outros meses de avaliação do andamento e já são mais meses de paralisação total. Ela não sabe quando volta com o marido, a filha e neta para onde moravam. Com grave problema nas pernas, olha através da janela da casa alugada todo o movimento de trabalhadores e caminhões e se pergunta quando o trabalho de tanta gente vai devolver sua vida.
O juiz pode vir em carro oficial do poder judiciário, já que estaria vistoriando a cena do crime para entender melhor o caso e ter condições de julgar com mais tranquilidade. Daria para visitar muitas pessoas em Barra Longa e Mariana que estão sem casa e cuja lista não cabe neste texto.
Moram de aluguel em casas que não gostam, que não tem espaço para os filhos e netos, sem quintal ou lugar para plantar, que a cozinha é pequena, que tem escadas, etc. E muitos destes ainda são obrigados a sofrer com os preconceitos existentes em uma sociedade atrasada e ignorante, que é manipulada para o interesse das empresas criminosas.
Se vamos falar de intimidade, falemos primeiramente destas pessoas. Todos estes atingidos e suas famílias estão sem moradia há quase dois anos. E não há previsão para o retorno. Estão nus em praça pública. Alguém fora do seu lar, do seu espaço, da sua convivência originária, dos seus utensílios, muitos de profunda estimação, à mercê de um contrato de aluguel, do humor de proprietários, da boa vontade da Samarco em pagar em dia o que ela assumiu... estão nus, com a intimidade moral e psicológica exposta diante de quem quiser ver.
Quem vai responder por este crime? Até quando a Justiça será rápida em atender os criminosos e paralisada para garantir os direitos das vítimas? Até quando os acordos judiciais servirão apenas para dar mais poder a quem deveria estar preso? Como diz um atuante atingido de Barra Longa: “o Brasil está à deriva e jogaram o leme ao mar”. Em meio a este desalento e descrença, a única saída é a organização pela base e a luta de massas, como reafirma o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) em sua nota oficial.
Está difícil de acreditar em martelos de juízes. O único martelo que está fazendo a diferença é o que simboliza a luta dos trabalhadores e atingidos e atingidas do campo e da cidade que devem permanecer reunidos e em luta, que é a única maneira de garantir os direitos e a intimidade ainda não devolvida. Excelentíssimo Jacques Queirós Ferreira, os atingidos pela Samarco aguardam sua visita!

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/570503-a-samarco-a-justica-brasileira-e-a-nudez-em-praca-publica)

Agrotóxicos impactam o sangue e afetam doadores, diz dissertação na USP


Os agrotóxicos afetam também o sangue. Dos doadores aos receptores de transfusões. É o que diz uma dissertação de mestrado defendida este ano na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), e publicada nesta quinta-feira (10/08).
A informação é de Alceu Luís Castilho, publicada por De Olho nos Ruralistas, 10-08-2017.


Os dados obtidos pela pesquisadora Fortuyée Rosa Meyohas Neves indicam menor sobrevida de plaquetas e hemácias do sangue nas populações expostas a agrotóxicos. “E que há metabólitos de agrotóxicos no plasma de indivíduos, potenciais doadores de sangue, expostos aos agrotóxicos”, escreve ela já na introdução.
Fortuyée fez uma revisão de 50 trabalhos sobre o tema publicados na literatura científica. E listou quais os pesticidas mais utilizados por potenciais doadores de sangue da região serrana do Rio de Janeiro. Um dos objetivos, dar visibilidade à doação de sangue por moradores da zona rural.
Ela observa que o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Entre 15 mil formulações no mundo para 400 diferentes agrotóxicos, conforme os dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o país tem licenciadas mais do que a metade: 8 mil.
Segundo a dissertação, há hoje muitos estudos sobre potenciais danos das transfusões à saúde humana. Por isso a necessidade de saber se os doadores da área rural “seriam o veículo para contaminação de receptores pela transfusão”. Fortuyée não encontrou trabalhos específicos sobre esse tema, no Brasil.
Outros estudos evidenciaram a contaminação do leite materno. Por exemplo, pesquisas desenvolvidas por Wanderlei Pignati na Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT): Por isso se especulava que haveria esse impacto também nos doadores de sangue.
Em relação ao glifosato, o agrotóxico mais consumido no mundo, a pesquisadora da USP escreve que “praticamente todos os seres humanos estão permanentemente expostos à sua ação”. E que formulações à base desse herbicida podem promover alterações hematológicas e hepáticas, “que podem ser associadas à formação de oxigênio reativo com danos ao fígado, anemia e outros”.

Em sua conclusão, a pesquisadora conta que, no grupo de pessoas mais expostas aos agrotóxicos na produção agrícola, os efeitos adversos “foram proporcionalmente mais intensos”, “e que há relação direta das alterações hematológicas e data da última exposição”.
Segundo ela, isso sugere “inaptidão temporária desses doadores provenientes da área rural com exposição a agrotóxicos”, da mesma forma que ocorre no caso de candidatos a doação de sangue que utilizam determinados medicamentos.
Os dados da literatura indicam que os agrotóxicos “são capazes de induzir alterações nas membranas celulares e no metabolismo dos componentes dos sangues dos doadores”. Consequência possível: redução da sobrevida das hemácias e plaquetas. E perda da qualidade do produto final: o sangue.
A pesquisadora encerra sua dissertação apontando a necessidade de aporte financeiro para o desenvolvimento de mais pesquisas sobre o assunto, que confirmem a ação dos agrotóxicos em hemácias e plaquetas.

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/570569-agrotoxicos-impactam-o-sangue-e-afetam-doadores-diz-dissertacao-na-usp)

Esfera de influência na América Latina - Libertários

Um artigo logo, que precisa de muito fôlego para ser lido.
Mas acredito na sua importância, por isso estou recomendando:


https://theintercept.com/2017/08/11/esfera-de-influencia-como-os-libertarios-americanos-estao-reinventando-a-politica-latino-americana/

Chegou a hora de ser pessimista

Texto escrito por José de Souza Castro:

Tenho procurado, em meus artigos, ser otimista. Às vezes, porém, me sinto como Eremildo o idiota, personagem de Elio Gaspari, ao insistir nessa disposição de espírito. Foi o que ocorreu hoje ao ler “De volta ao Brasil colonial”, artigo de João Sicsú publicado pela Carta Capital.
Como ser otimista diante do futuro previsto por esse professor do Instituto de Economia da UFRJ, doutor e mestre em Macroeconomia e Economia Monetária, se a única forma de evitar esse futuro é que os trabalhadores se tornem conscientes e mobilizados? “E, principalmente, devem entender que somente as disputas eleitorais não serão suficientes”, diz Sicsú. “Será necessário promover uma verdadeira e profunda independência da nova Coroa e da elite local.”
Fácil, não, Eremildo?
Definitivamente, não. Com a reforma trabalhista, o trabalhador brasileiro começa a trilhar o caminho de volta ao século XVIII, quando ele era submetido à Coroa portuguesa. Sabe-se o que aconteceu então, quando os brasileiros, uma minoria, se rebelaram em Minas contra o pagamento excessivo de impostos. “Seu líder foi condenado à forca e esquartejado”, lembra Sicsú. Agora, a Coroa não é mais representada por Portugal. “Ela é formada pelas corporações multinacionais, os bancos e o rentismo.”
“Essa nova Coroa”, acrescenta o autor, “é mais forte e maior que os Estados nacionais. Hoje em dia, é o poder econômico organizado que domina países. E o governo do país dominado se entrega completamente. E, por vezes, agradece ajoelhado.”
Tudo se torna submetido a esse poder. “A Justiça, o governo, o Congresso, as polícias e os grandes meios de comunicação estarão todos a serviço da nova Coroa e contra os trabalhadores. Os cargos de comando nessas instituições são ocupados majoritariamente por integrantes de famílias tradicionais e conservadoras da elite local. E essa elite se desdobra para favorecer a nova Coroa e seus próprios interesses”, descreve Sicsú.
O trabalhador si fú.
Pois a elite colonizada “se revela sem qualquer discrição: rouba, forma quadrilhas, paga e recebe propina, não atende necessidades básicas da população, saqueia o orçamento público e elimina direitos sociais. O Estado democrático, prestador de serviços e garantidor do bem-estar social desaparece. O Estado volta a ser autoritário, violento e perde a função de ofertar serviços à população, tal como era entre os séculos XVI e XIX.”
Muito se tem falado nos rentistas, nos últimos tempos. Quem são eles? Sicsú responde: são principalmente as próprias megacorporações multinacionais e os bancos. “No século XVII”, acrescenta, “uma das motivações da Insurreição Pernambucana que expulsou os holandeses do Brasil foi a cobrança de juros extorsivos. Colonos portugueses eram massacrados pela usura praticada pelos holandeses”.
O Brasil parece ter aprendido bem a lição dessas revoltas e insurreições fracassadas. Quem ousa hoje confrontar por aqui os bancos e as megacorporações multinacionais? A saída seria dar-lhes um calote, por pelo menos dois anos, para que o dinheiro hoje voltado ao pagamento dos juros da dívida pública, que chegam a quase 7% do Produto Interno Bruto, seja canalizado ao crescimento da economia. “Para recolocar o país em crescimento, é necessário ir ao ataque, baixar mais os juros, extirpar o rentismo que domina o cenário há décadas, oferecer crédito com taxas civilizadas a empresas e famílias e prestigiar investimentos produtivos, inovadores e criadores de emprego”, diz o empresário Benjamin Steinbruch em artigo na Folha de S.Paulo.
Ele não está errado, mas o trabalhador não confia nesse tipo de líder. O mesmo que defendeu, ao apoiar o projeto de reforma trabalhista, que o trabalhador não precisa de mais do que alguns breves minutos para almoçar. E que, como todos os demais grandes empresários, estão a defender a reforma da Previdência Social, para esmagar ainda mais o trabalhador.
Sim, é hora de ser pessimista. Vou reservar meu otimismo para o momento em que houver uma nova Revolução Francesa. Aqui.

(fonte: https://kikacastro.com.br/2017/08/09/hora-pessimismo/#more-14234)

domingo, 6 de agosto de 2017

XII encontro regional sudeste de História Oral

As inscrições para apresentação de trabalhos (comunicações orais em Simpósios Temáticos e pôsteres) para o XII Encontro Regional Sudeste de História Oral, que acontecerá de 26 a 28 de setembro de 2017 na Universidade Federal de Minas Gerais, estão abertas. A data-limite para envio das propostas é 09 de agosto.

Saiba mais sobre o evento e envie sua proposta em: 

http://sudeste2017.historiaoral.org.br

Desmatamento: o alvo agora é o cerrado

Saem primeiros dados de devastação do bioma: 9.483 km² em 2015 — ainda mais que na Amazônia. Região do “Matopiba” é a mais afetada; agronegócio da soja, o principal responsável

No Observatório do Clima

O cerrado perdeu 9.483 quilômetros quadrados de vegetação em 2015, um número que equivale a mais de seis cidades de São Paulo e supera em 52% a devastação na Amazônia no mesmo ano. A informação vem dos primeiros dados de monitoramento anual do bioma, divulgados pelo governo federal.
A série de dados de satélite, feita pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), foi postada discretamente numa página do Ministério do Meio Ambiente na internet, sem divulgação para a imprensa ou entrevista coletiva. Ela vem acompanhada de uma análise do desmatamento entre 2013 e 2015, mostrando a pressão sobre o bioma em cada município, as unidades de conservação, terras indígenas e assentamentos de reforma agrária mais desmatados.
O monitoramento anual do cerrado, nos mesmos moldes do que é feito na Amazônia desde os anos 1980, é uma promessa antiga. Ele vem sendo aventado desde 2008. Em 2010, e chegou a ser anunciado para o ano seguinte. Dificuldades técnicas de observar com satélite um bioma formado por savanas e campos naturais, restrições orçamentárias e o baixo interesse histórico do poder público em olhar mais de perto o comportamento ambiental do agronegócio exportador fizeram com que a promessa fosse postergada. Só em 2016 o governo lançou um programa de monitoramento ambiental de todos os biomas.
“A série de dados do cerrado é uma informação crucial para a sociedade, mas também para o mercado”, disse Jair Schmitt, diretor de Políticas de Combate ao Desmatamento do Ministério do Meio Ambiente. “Ela vai permitir desenhar e aplicar ao cerrado políticas como as que causaram a redução do desmatamento na Amazônia.”
Thelma Krug, pesquisadora do Inpe que iniciou o programa de monitoramento no ano passado quando estava no MMA, diz que a série histórica vai permitir ao Brasil captar recursos no exterior para reduzir o desmatamento no bioma – a exemplo do que ocorre com o Fundo Amazônia.
O chamado “Prodes do cerrado” (o apelido é uma referência ao Prodes, o sistema que dá a taxa anual de desmatamento na Amazônia) ainda tem buracos: os dados para os anos de 2012 e 2014 não foram finalizados. Mesmo assim, a série que de agora em diante será a taxa oficial de perda do segundo maior bioma brasileiro confirma estimativas que já vinham sendo feitas e permite tirar algumas conclusões. Há uma notícia boa e várias ruins.
A boa é que o Brasil praticamente cumpriu a meta de sua política nacional de clima de reduzir a devastação em 40% até 2020, para 9.421 quilômetros quadrados ao ano. Por coincidência, mas cumpriu.
A meta foi calculada originalmente, em 2009, com base em estimativas anteriores ao monitoramento anual, que estimaram uma média de 15.700 quilômetros quadrados perdidos ao ano entre 1994 e 2008. A proposta inicial era uma redução de 50%, que foi expurgada de próprio punho pela então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Como lembrou a ecóloga Mercedes Bustamante, da Universidade de Brasília, o país definiu como “aceitável” perder todo ano o equivalente a 1% da área remanescente do cerrado.
Diferentemente da Amazônia, porém, no cerrado não houve um esforço sistemático de comando e controle, nem havia um acompanhamento anual da taxa – uma estimativa publicada após a adoção da política, com uma metodologia diferente, apontava para 7.600 quilômetros quadrados desmatados entre 2008 e 2009, o que implicaria que a meta já teria sido cumprida no ano de sua adoção. A nova série histórica publicada pelo MMA põe o desmate em 2009 em 10.342 quilômetros quadrados.
Entre as más notícias está o fato de que o cerrado continua perdendo 1% de sua área remanescente por ano. Dados do projeto MapBiomas publicados neste ano indicam que o desmatamento acumulado no bioma neste século foi três vezes maior que o da Amazônia, proporcionalmente ao tamanho da área de vegetação remanescente.
Sem surpresa, os dez municípios mais desmatados ficam no chamado Mapitoba, palco da expansão da fronteira agrícola, entre os Estados de Maranhão, Piauí, Tocantins e Bahia (daí o acrônimo). Juntos, eles respondem por 11% dos quase 30 mil quilômetros quadrados desmatados no cerrado entre 2013 e 2015.
Os três campeões são baianos: São Desidério (337 km2), Jaborandi (295 km2) e Formosa do Rio Preto (271 km2), todos produtores de soja. A Bahia tem cinco municípios na lista dos dez mais.
A Bahia também é o Estado pioneiro da flexibilização do licenciamento ambiental. Em 2014, um decreto do governo estadual isentou as atividades agropecuárias de licenciamento, algo que hoje a bancada ruralista pretende emular com a lei geral de licenciamento, em tramitação no Congresso. A dispensa foi questionada na Justiça e revogada em 2017. Durante sua vigência, o Estado não apenas viu o desmate avançar no cerrado, como também presenciou sua explosão na mata atlântica: 207% em 2015/2016 em relação ao biênio anterior.
Segundo Tiago Reis, pesquisador do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), a destruição acelerada do cerrado cria problemas para a própria agricultura. “Esse desmatamento coloca em risco o equilíbrio ambiental que garante a produção agrícola no Brasil, uma vez que a perda de vegetação nativa do cerrado compromete a formação de chuvas por evapotranspiração, a infiltração das águas no solo para recarregar aquíferos e rios da região”, diz. “Desse processo dependem as enormes áreas agrícolas irrigadas do oeste baiano, por exemplo.”

(fonte: http://outras-palavras.net/outrasmidias/?p=491640)

Acordo de Paris: Terra tem apenas 5% de chance de ficar dentro do limite de dois graus de aumento de temperatura


O último trem para evitar o aquecimento climático já partiu. Mesmo que quiséssemos, não conseguiríamos respeitar o limite de dois graus, considerado como a linha vermelha para além da qual o planeta sofreria repercussões sem retorno.
A reportagem é de Elena Dusi, publicada por La Repubblica, 31-07-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Um grupo de economistas, estatísticos e especialistas em atmosfera da Universidade de Washington começou a fazer os cálculos e publicou na Nature Climate Change as suas previsões para o ano de 2100. Mais do que dois graus: as chances de que o aumento de temperatura do planeta fique dentro desse limite são de 5%.
O objetivo da Conferência de Paris de 2015 de não superar um grau e meio tem uma probabilidade de ser irrisório: apenas 1%. A hipótese mais realista, de acordo com os cálculos dos pesquisadores, é de que o aumento se confirme em torno dos 3,2 graus.
Os esforços para aumentar as fontes renováveis estão dando efeitos, mas ainda não são suficientes. Daqui a 2100, a intensidade de dióxido de carbono (as emissões necessárias para obter um ponto de produto interno bruto) continuará caindo (em torno dos anos 2000, começou a cair na maioria dos países do mundo), mas não o suficiente. O PIB global subirá, de acordo com as estimativas, 1,8% ao ano, a intensidade de dióxido de carbono cairá presumivelmente 1,9%. Enquanto esses dois efeitos tenderão a se anular mutuamente, as Nações Unidas estimam que os habitantes do planeta chegarão a 11,2 bilhões em 2100.
Os dois graus são a melhor das hipóteses”, comenta Adrian Raftery, coordenador do estudo. “Para ficar dentro do objetivo, deveremos concentrar os nossos esforços em todas as frentes pelos próximos 80 anos.”
As emissões anuais de gases de efeito estufa, que atualmente são de 54 bilhões de toneladas de acordo com o UN Environment Programme, deveriam ser cortadas para 42 bilhões até 2030.
“Os objetivos de Paris – acrescenta o professor de estatística e sociologia da Universidade de Washington – são ambiciosos, mas realistas. O problema é que não serão suficientes para manter o aquecimento em até um grau e meio.”
Ainda no mesmo número, a Nature Climate Change publica um estudo que vem da Universidade do Colorado e tenta imaginar como a Terra reagiria diante de um cenário bastante improvável: a interrupção repentina, da noite para o dia, de emissões poluentes por parte do ser humano.
Em 2100, o aumento de temperatura registrado em comparação com a era pré-industrial seria igualmente de 1,3 graus. Culpa principalmente da inércia térmica dos oceanos e da longa permanência (séculos ou milênios) do dióxido de carbono na atmosfera. No ritmo da poluição atual, o ponteiro de um grau e meio será alcançado em 15 anos.
Para fechar o círculo, a revista divulga um terceiro estudo da Universidade da Carolina do Norte com o cálculo das consequências para a nossa saúde. Entre hoje e 2030, a poluição causada pelo aquecimento climática causará a morte prematura de 60 mil pessoas em todo o mundo (260 mil até 2100). Ao aquecimento, estão associados o aumento do gás ozônio no nível do solo e do particulado fino. As chuvas diminuirão, junto com o seu efeito de limpar da poluição o ar que respiramos.
O Conselho Nacional de Pesquisa da Itália, enfim, foi olhar quais são as consequências das mudanças climáticas sobre o Mediterrâneo. Na revista Scientific Reports de junho, um estudo do ISMAR, o Instituto de Ciências Marinhas do Conselho Nacional de Pesquisa da Itália, em conjunto com a Universidade de Southampton e o Instituto de Ciência e Tecnologia do Mar de Túnis, havia revelado que o Mare Nostrum está se tornando cada vez mais quente e salgado. De 2005 até hoje, esse processo começou a galopar, e, hoje, a sua rapidez é duas vezes e meia maior do que na segunda metade do século XX.
“No Mediterrâneo – explica Katrin Schroeder, pesquisadora do ISMAR e uma das autoras do estudo – a evaporação supera as precipitações e o aporte dos rios. Na parte oriental, seca e temperaturas atingiram níveis recordes em comparação com os últimos 500 anos.”
(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/570204-acordo-de-paris-terra-tem-apenas-5-de-chance-de-ficar-dentro-do-limite-de-dois-graus-de-aumento-de-temperatura)

2 de agosto: a Terra não aguenta mais


A notícia abala a tranquilidade soporosa de uma quente manhã do verão europeu. Eu a encontro, depois do café, na caixa de entrada do e-mail, gritada pelas manchetes do Le Monde e do Le Figaro (digo a mim mesmo que, talvez, os primos franceses são mais sensíveis à questão... Mas por que o La Croix hoje me assinala apenas a questão das Olimpíadas de 2024, os atrasos dos trens e uma história de golfinhos?). As manchetes: “2 de agosto, o dia em que uma única Terra já não é mais suficiente para a humanidade” (Le Figaro). “A partir de 2 de agosto, a humanidade vive a crédito” (Le Monde).

A reportagem é de Marco Bernardoni, publicada no sítio Settimana News, 02-08-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Deve ser por causa do tom vagamente apocalíptico (que assusta e fascina); deve ser por causa da polêmica renovada também recentemente entre apoiadores e negadores da responsabilidade humana sobre as mudanças climáticas (confirmando que, no debate público, a ciência é trazida para apoiar posições opostas... pobre ciência); deve ser porque as férias me permitem. Só sei que eu decido não apagar logo os e-mails para dar uma olhada nos dois artigos (e nos seus apreciáveis infográficos).

“A data fatídica é cada vez mais precoce. A partir de quarta-feira, 2 de agosto, a humanidade vive a crédito, tendo consumido – em apenas sete meses – todos os recursos que a Terra pode produzir em um ano. Daqui até o fim de 2017, para continuarmos bebendo, comendo, aquecendo-nos ou deslocando-nos, deveremos sobre-explorar os ecossistemas e comprometer a sua capacidade de regeneração” (Le Monde).

No ano passado, isso tinha acontecido no dia 8 de agosto... Fala-se do Earth Overshoot Day (“Dia da Sobre-Exploração da Terra”), calculado pela Global Footprint Network, a organização estadunidense que desenvolveu o conceito e que apoia a campanha de sensibilização, que nos informou que estamos consumindo e poluindo como se tivéssemos à disposição 1,7 Terra.

“Os custos desse crescente desequilíbrio ecológico estão se tornando cada vez mais evidentes no mundo, e nós os vemos sob a forma de desmatamento, seca, escassez de água doce, erosão do solo, perda de biodiversidade e acúmulo de dióxido de carbono na atmosfera” (do comunicado da Global Footprint Network do dia 27 de junho passado).

Leio ainda que “60% do orçamento anual de recursos naturais é representado pela demanda da natureza para a absorção das emissões de dióxido de carbono”... Em suma, a partir do dia da sobre-exploração, os recursos naturais da Terra não conseguem mais absorver o CO2 emitido pelas atividades humanas.

“Isso aumenta a acidificação dos oceanos e a degradação das terras agrícolas e das florestas”, observa um responsável da WWF. E não só isso, já que “os gases que não são absorvidos aumentam a concentração de CO2 no ar, contribuindo para o aquecimento do clima” (Le Figaro).

Há mais. A produção de alimentos é responsável por uma fatia importante dos gases de efeito de estufa: estima-se que 24% provêm do setor agrícola. A Fundação Barilla calculou que o desperdício de alimentos produz, sozinho, a emissão na atmosfera de 24,5 milhões de toneladas de dióxido de carbono por ano, dos quais 14,3 milhões se devem aos desperdícios domésticos.

Reduzindo o desperdício alimentar, o consumo de proteínas animais e cortando o excesso de calorias na alimentação, iríamos no sentido de reduzir a pegada ecológica, postergando, consequentemente, o Overshoot Day. Nada de novo. Infelizmente.

Pode ser que sejam dias de calor insuportável.

Pode ser que isso reduza a minha já frágil confiança nas garantias dos negadores (talvez eu seja um apocalíptico incurável).

Pode ser que eu me lembre de ter cruzado antigamente pelo “Princípio responsabilidade”, de Hans Jonas (do qual eu quase não ouço mais falar... Lembro que, diante da transformação da “natureza do agir humano” por parte dos “novos poderes” da técnica, Jonas introduzia a ideia de vulnerabilidade da natureza e invocava uma “mudança da ética” que levasse em conta também aqueles que, hoje, não têm voz, como as gerações vindouras).

Pode ser que eu não consiga esquecer que o desperdício alimentar, o consumo de proteínas animais e o excesso de calorias na alimentação indicam a diminutíssima porção mais rica do planeta a que pertencemos, que explora e polui sem escrúpulos particulares o bem de todos (eu sempre me lembro disso quando algum dos meus conterrâneos denuncia a invasão dos migrantes econômicos ou reclama contra a injustiça de Deus pelo que aconteceu consigo...).

Pode ser que eu seja também um simplificador de questões complexas.

Pode ser... Mas, depois da leitura, fiquei com algumas perguntas (e não bastou deletar os e-mails).

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/570251-2-de-agosto-a-terra-nao-aguenta-mais)

MP que libera agrotóxicos “vai piorar o que já é ruim”, diz pesquisadora da Fiocruz


Medida Provisória faz parte de acordo de Temer com ruralistas; Karen Friedrich a define como “uma temeridade”; Ibama aponta potencial cancerígeno.
A reportagem é de Cauê Seignemartin Ameni, publicada por De Olho nos Ruralistas, 03-08-2017.

Para continuar tendo apoio da bancada ruralista, a Casa Civil se prepara para desengavetar uma Medida Provisória que altera as regras do uso de agrotóxicos no país. A proposta possibilita a autorização de substâncias cancerígenas. E, por isso, proibidas. É a avaliação de Karen Friedrich, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que soltou nota sobre o assunto:
– De acordo com a MP proposta, poderiam ser registrados no Brasil produtos com potencial cancerígeno ou capazes de provocar anormalidades fetais, entre outros efeitos graves, quando tiverem sido encontradas condições de uso apropriadas para reduzir o risco de ocorrência desses efeitos.
O Ibama criticou também a previsão de suspender a regra que só libera a aprovação de agrotóxicos que tenham – comprovadamente – uma ação tóxica menor ou igual à dos atuais.
O ministro da Agricultura, Blairo Maggi, disse ao Canal Rural que a ideia é ter um modelo baseado em risco, no que a Anvisa, Ibama e Agricultura estejam os três sempre de acordo. Mas a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não se manifestou. O Ibama é contrário à medida que pretende alterar a lei 7.802/1989, que torna o conceito de “análise de risco” fator determinante para a permissão de novas substâncias.

Coquetel de Agrotóxicos 

A medida foi redigida pelo Ministério da Agricultura com a colaboração do setor agrícola e da indústria agroquímica. Karen Friedrich tem um posicionamento semelhante ao do Ibama:
– A MP vai piorar o que já é ruim. A Anvisa avalia os estudos toxicológicos conduzidos pela própria indústria que tem interesse em registrar o agrotóxico.
Segundo ela, os estudos são limitados porque são realizados com um agrotóxico por vez. Uma cobaia recebe a injeção de apenas um agrotóxico. Só que na lavoura, explica, o trabalhador rural aplica uma mistura de agrotóxicos. Ou passa um avião despejado uma série de agrotóxicos.
Em outras palavras: os brasileiros consomem, na alimentação, um coquetel de agrotóxicos. “A Anvisa já encontrou até dez agrotóxicos em um único alimento”, conta Karen. “Ou seja, essa mistura não é testada nos laboratórios para o registro. Se temos um agrotóxico com risco de causar câncer individualmente, na presença de misturas essa probabilidade pode aumentar”.
A pesquisadora, graduada em biomedicina com doutorado em toxicologia e saúde, vê com preocupação a falta de dialogo do governo e criticou também a ideia que circula no Palácio do Planalto, segundo reportagem de O Globo, de retirar a Anvisa do processo de autorização de novos agrotóxicos:
– É realmente uma temeridade essa MP passar condicionando o risco do agrotóxico a essa “avaliação de risco” em que algumas pessoas que trabalham em um órgão vão determinar o que é um risco aceitável ou inaceitável sem uma discussão mais ampla com a população e a comunidade científica se eles aceitam esse “risco”.
Ela conta que estudos recentes – e sofisticados – com populações expostas apresentaram efeitos proibitivos de registro. Mas a Anvisa “não teve condição técnica, iniciativa ou força política” para proibir os agrotóxicos. Foi o caso da atrazina, um dos mais utilizados no Brasil, proibido em outros países. E do acefato, igualmente proibido fora do país, mas por aqui liberado.

Autismo e Mal de Parkinson

Pelo menos seis substâncias utilizadas intensamente no campo estão em análise. São elas: 2,4-D, glifosato, paraquat, tiram, carbofurano e abamectina. Alguns novos relatórios são favoráveis ao banimento definitivo do glifosato, líder mundial de mercado, no mercado nacional. De acordo com Karen, há estudos que associam o glifosato ao autismo. E outros que vinculam o paraquat ao mal de Parkinson.
Outra ponto polêmico da MP é incluir, nos rótulos dos novos agrotóxicos, a expressão “nas condições recomendadas para uso”. O Ibama avalia que o país não tem estrutura para efetivar essa demanda. A pesquisadora da Fiocruz considera que a solução se transformaria rapidamente em um novo problema:
– Condicionar o risco do uso de agrotóxicos ao uso de equipamento individual é uma calamidade porque esses equipamentos são caros e difíceis de serem utilizados. Não é todo trabalhador que poderá comprar ou usar adequadamente, até pelas condições climáticas do país.

Um antigo cardápio

A ideia de contemplar uma antiga demanda da bancada ruralista não é nova. Em abril deste ano, o Estadão revelou, na reportagem MP pode afrouxar regras para agrotóxicos, que a MP liberaria substâncias cancerígenas e teratogênicas (que põem em risco a formação dos fetos). Diante da repercussão negativa, Temer foi obrigado a engavetar a medida. Desta vez, porém, a proposta não teve a mesma repercussão na imprensa. Apenas uma notícia discreta no Canal Rural.
Quando o documento foi apresentado no começo do ano no Comitê Técnico de Assessoramento, integrado pelo Ibama, Anvisa e Ministério da Agricultura, encarregado de avaliar os critérios para uso de agrotóxicos no país, ele foi criticado pela falta de participação dos dois órgãos. Cabe à Anvisa analisar os impactos dos produtos na saúde e ao Ibama mensurar os efeitos dos agrotóxicos no ambiente.

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/570316-mp-que-libera-agrotoxicos-vai-piorar-o-que-ja-e-ruim-diz-pesquisadora-da-fiocruz)

Novo número da Revista Espaço Acadêmico


Revista Espaço Acadêmico acaba de publicar o número mais recente em
no sumário da revista para acessar os artigos e itens de interesse.


Revista Espaço Acadêmico
v. 17, n. 195 (2017): Revista Espaço Acadêmico, n. 195, agosto de 2017

Sumário

administração
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Ensino de Marketing por meio de entrevista semi-estruturada (01-08)
Francisco Giovanni David Vieira

ciência política
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O que é democracia? Uma visão exploratória na ciência política (09-22)
Rodrigo Lins

cinema
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A potência narrativa nos falsos documentários (23-35)
Caue Fernandes Nunes

direitos humanos
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O papel da UNASUL na efetivação de direitos humanos fundamentais na América do Sul (36-44)
Alfredo Minuci Lugato

educação
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O PNE (2014-2024) e a Educação Superior brasileira: a expansão em questão (45-57)
Alisson Slider do Nascimento de Paula

As escolas e o dispositivo de infantilidade (58-69)
Eduardo Alexandre Santos de Oliveira

A Filosofia no Ensino Médio: alguns desafios (70-81)
Kairon Pereira de Araújo Sousa

Percepção de discentes de um curso de Pedagogia em relação à didática:marcas da despolitização (82-92)
Márden Pádua Ribeiro

filosofia
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Uma abordagem do conceito de filosofia na obra "O que é filosofia" de Gilles Deleuze e Felix Guattari. (93-103)
Elenilda Alves Brandão

política
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Corrupção, fisiologismo, clientelismo e reacionarismo na morta-viva gestão presidencial temerária: anatomia de um escândalo antirrepublicano (104-115)
Renato Nunes Bittencourt

sociologia
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“Identidade nacional brasileira” versus “identidade negra”:
reflexões sobre branqueamento, racismo e construções identitárias (116-127)
Mariana Panta, Nikolas Pallisser

Movimentos sociais urbanos na Venezuela: o desenvolvimento do poder popular como alternativa ao Estado burguês (128-140)
Natalia Scartezini

De corpo e alma: tecnologias políticas disciplinares na profissão de jogador de futebol (141-151)
Radamés Mesquita Rogério

resenhas & livros
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Os diversos interesses capitalistas na experiência britânica no Egito(152-155)
Guilherme Tadeu de Paula

PRIORI, Josimar. A luta faz a lei: reflexões sobre política, movimentos sociais e associações de moradores em Sarandi-PR. Maringá-PR: EDUEM, 2017 (156-159)
REA Editor

MELLO, Ana Maria de; PENJON, Jacqueline; BOAVENTURA, Maria Eugenia (Orgs.). Momentos da ficção brasileira. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2016. (160-161)
REA Editor

E a democracia na Venezuela? Não vem ao caso

Texto escrito por José de Souza Castro:

“Estou chocado com a parcialidade da comunicação social europeia, incluindo a portuguesa, sobre a crise da Venezuela”, afirma o economista Boaventura Sousa Santos, em artigo no jornal Público, de Portugal.  Estranho que alguém quatro anos mais velho que eu e muito mais experiente ainda se choque com a parcialidade da imprensa. Houvesse vivido no Brasil, desse espanto ele estaria imune.
Aqui a imprensa é sempre parcial, quando em jogo interesses de ricos e poderosos ante o restante da população. Não só do país, mas do mundo.
Na Venezuela, diz Boaventura, o que está em causa são as maiores reservas de petróleo do mundo e não a democracia. E quando os Estados Unidos ameaçam com sanções por causa do plebiscito de domingo, o motivo é o mesmo, porque “é crucial para o seu domínio global manter o controlo das reservas de petróleo do mundo. Qualquer país, por mais democrático, que tenha este recurso estratégico e não o torne acessível às multinacionais petrolíferas, na maioria, norte-americanas, põe-se na mira de uma intervenção imperial”, interpreta o economista português.
Foi por esta razão que o Iraque foi invadido e o Médio Oriente e a Líbia arrasados, acrescenta Boaventura. “Pela mesma razão, houve ingerência, hoje documentada, na crise brasileira, pois a exploração do petróleo do pré-sal estava nas mãos dos brasileiros.”
Pela mesma razão, prossegue, o Irã voltou a estar em perigo, e a revolução bolivariana tem de cair sem ter tido a oportunidade de corrigir democraticamente os graves erros que os seus dirigentes cometeram nos últimos anos. “Sem ingerência externa, estou seguro de que a Venezuela saberia encontrar uma solução não violenta e democrática. Infelizmente, o que está no terreno é usar todos os meios para virar os pobres contra o chavismo, a base social da revolução bolivariana e os que mais beneficiaram com ela”.
Algo que você não vai encontrar nos jornais, em rádios e televisões no Brasil são os tais benefícios da revolução bolivariana, tais como os descritos, logo no início do artigo, por Boaventura:
“As conquistas sociais das últimas duas décadas são indiscutíveis. Para o provar basta consultar o relatório da ONU de 2016 sobre a evolução do índice de desenvolvimento humano. Diz o relatório: ‘O índice de desenvolvimento humano (IDH) da Venezuela em 2015 foi de 0.767 — o que colocou o país na categoria de elevado desenvolvimento humano —, posicionando-o em 71.º de entre 188 países e territórios. Tal classificação é partilhada com a Turquia.’ De 1990 a 2015, o IDH da Venezuela aumentou de 0.634 para 0.767, um aumento de 20.9%. Entre 1990 e 2015, a esperança de vida ao nascer subiu 4,6 anos, o período médio de escolaridade aumentou 4,8 anos e os anos de escolaridade média geral aumentaram 3,8 anos. O rendimento nacional bruto (RNB) per capita aumentou cerca de 5,4% entre 1990 e 2015. De notar que estes progressos foram obtidos em democracia, apenas momentaneamente interrompida pela tentativa de golpe de Estado em 2002 protagonizada pela oposição com o apoio ativo dos EUA.”
Boaventura escreveu antes da realização do plebiscito. Para ele, não há dúvida sobre o direito do presidente Nicolás Maduro de convocá-lo, num momento em que a Venezuela vive um dos momentos mais críticos da sua história, desde que “a queda do preço do petróleo em 2014 causou um abalo profundo nos processos de transformação social então em curso”.
A oposição sentiu que o seu momento tinha chegado, “no que foi, mais uma vez, apoiada pelos EUA”. Sobretudo quando o presidente Obama considerou a Venezuela como uma “ameaça à segurança nacional dos EUA” e, em dezembro de 2015, a oposição conquistou a maioria na Assembleia Nacional (AI). A Assembleia Constituinte visa, exatamente, ultrapassar a obstrução da AI dominada pela oposição.
Se Dilma Rousseff tivesse feito o mesmo quando Eduardo Cunha barrava todas as medidas propostas por seu governo para superar a crise, como teria reagido a imprensa brasileira? A TV Globo, a Folha de S.Paulo, e Estadão e a Veja? Talvez, apressasse seu impeachment, sem a necessidade de recorrer à farsa das pedaladas fiscais…
Como bem sabemos, o enviesamento da imprensa brasileira é mais grave que a europeia, pois somos menos civilizados. Apesar disso, observa Boaventura, vê-se na Europa “um enviesamento que recorre a todos os meios para demonizar um governo legitimamente eleito, atiçar o incêndio social e político e legitimar uma intervenção estrangeira de consequências incalculáveis”.

O autor diz que as sanções econômicas – tais como as planejadas pelos Estados Unidos – afetam mais os cidadãos inocentes que os governos. “Basta recordar as mais de 500.000 crianças que, segundo o relatório da ONU de 1995, morreram no Iraque em resultado das sanções impostas depois da guerra do Golfo Pérsico”. Depois de lembrar que vive na Venezuela meio milhão de portugueses ou lusodescendentes, Boaventura conclui: “A história recente também nos diz que nenhuma democracia sai fortalecida de uma intervenção estrangeira.”
Donald Trump não é um grande conhecedor da história. Fosse, não faria diferença: o que importa a morte de meio milhão de crianças, comparada com o domínio de 297 bilhões de barris de petróleo, reserva estimada na Venezuela?
Democracia? Não vem ao caso.

(fonte: https://kikacastro.com.br/2017/08/01/venezuela/#more-14165)

Os privilégios sobrepõem-se ao mérito



           
       
Antônio de Paiva Moura

            Muitos são os sinônimos de mérito. O primeiro é “merecer”. Seguem outros: saber, virtude, dom, capacidade, aptidão e competência. O sentido semântico que melhor assenta na abordagem que segue é: qualidade de quem merece reconhecimento.
            Em Roma o gladiador que entrasse em uma arena e matasse seu adversário, era aplaudido e considerado como herói, merecedor de reconhecimento público.  O jogo de futebol foi criado com o objetivo de praticar a paz no respeito pelos adversários. O ideal do futebol é que vença sempre o que tiver mais mérito. Mas isso nem sempre acontece. Muitos clubes brasileiros foram campeões, anos seguidos, sem o merecer.
            Corria o século XIX, quando o mito de Napoleão estava em alta. Ele havia conquistado o poder por mérito e não por pertencer à nobreza. Toda uma legião de jovens europeus inspirava-se na ascensão daquele soldado e general, por mérito e acreditava poder reeditar o feito, cada um ao seu modo. Muitos tipos populares acabaram sendo internados em manicômios por encenar a figura de Napoleão. A Revolução Francesa havia combatido a mentalidade aristocrática e os privilégios da nobreza.
            Por mais que tenha passado o tempo e muitas experiências históricas, os privilégios de classes e as elites do poder impedem o triunfo do mérito sobre status familiares. Descendentes de antigos escravos; de indígenas e de famílias brancas pobre, mesmo que acumulem conhecimentos, diplomas e capacidade de trabalho, serão sempre preteridos em funções e cargos importantes nas instituições.
            Honoré de Balzac, em seu romance “Ilusões Perdidas”, abordou esse problema com muita propriedade. O personagem Lucien Rubrempré é um jovem que sai do interior da França e vai para Paris, crente que era um notável poeta; que lá iria ser admirado e bem recebido por seus méritos pessoais. A primeira pessoa da qual se aproxima é Madame de Bargeton. Mas esta foi persuadida por sua prima a abandoná-lo. Ela havia verificado que Lucien não tinha refinamento parisiense. A partir daí ele passa a freqüentar clube literário e altas rodas, mas percebe que ninguém se interessava por sua poesia. Tenta o jornalismo e se enriquece de forma ilícita. De um jornal republicano salta a outro monarquista conservador; passa a ser malvisto e se enche de dívidas.
            A maioria dos serventuários da Justiça no Brasil pertence às parentelas dos magistrados. Uma verdadeira excrescência a lotação dos servidores dos gabinetes dos parlamentares municipais, estaduais e federais do país. Os cargos comissionados na administração pública são providos por indicações de políticos.
            Os prefeitos municipais de Bonfim, Região Central de Minas Gerais, em todo o século XX e decorrer do XXI, saíram praticamente de duas famílias lá radicadas. O atual prefeito, Gustavo Marques Ribeiro é bisneto e neto de ex-prefeitos ligados à família Marques. Ele é filho de ex-prefeito, da família Ribeiro. A mãe de Gustavo e todos os seus tios também foram prefeitos de Bonfim.
            Com os infortúnios do personagem Lucien, Balzac conclui que o sistema impõe um filtro capaz de matar talentos e elevar os medíocres. O mérito aqui depende muito mais do berço e da classe do que do merecimento propriamente dito: É preciso boas doses de ilusão e ingenuidade para crer que os melhores vencem no final